
Sí¸ren Kierkegaard, o fresco esquizofrênico, acreditava que para o homem se reconhecer como ser, ele necessita se relacionar com algum fator que o possa reconhecer como esse ser, algum fator que o determine além de si mesmo, além da lógica, um absurdo libertador. E obviamente, para preencher esse seu absurdo, ele escolheu o cristianismo. Friedrich Nietzsche, o bigodudo sifilítico, por sua vez, acreditava que o homem devia se relacionar com sua condição do meio para a vinda do além homem, com a condição do leão a espera do bebê a retornar ao berçário da realidade. Já Martin Heidegger, o lenhador megalomaníaco, simplesmente acreditava que o homem se compunha como ser a partir de sua relação com o percorrer do tempo, na eterna composição do presente pela afluição do passado, e do passado pela imposição do presente. Por fim, Jean-Paul Sartre, o menino dos cachinhos de ouro, acreditava que o homem se relaciona com aquilo que lhe der na telha no momento que lhe bem entender, sendo assim responsável pleno por todas as suas ações. Eu, Odorico do Pinto, canalha segundo as meninas comunistas da UFRJ nos anos 70, galã segundo as donas de casa de jeans apertados de Cascadura nos 80, professor birita segundo meus alunos de Sociologia VIII nos 90, e quem sabe o que mais nesses últimos 10 anos, acredito que tudo é batata!
Sim, é batata! A vida é batata e o homem para se reconhecer como tal deve atingir um estágio que é batata. Detalhe, já que alguns amigos meus teimam em se confundir, não se deve ser batata, deve-se estar no estado batata de ser com a vida. Porque, garanto, um homem que é batata não tem a mínima idéia do que é estar batata com a vida. Aquele que sabe o que é refazer completamente uma tese de doutorado faltando 5 dias para a entrega sem se estressar nem por 1 segundo, acelerar bêbado o carro numa travessia movimentada de Vila Isabel, sem acertar ninguém e nem ser preso, quase ser pego pelo reitor da faculdade na sala dos professores com as calças arriadas e uma aluna de adorno, ou cair girando de um penhasco entre árvores e espinhos, porque o caminho de descida parecia longo demais, e só sair com alguns arranhões, sabe o que é olhar para o mundo e dizer: é batata! Garanto, se a vida não fosse batata, eu já estaria morto.
Agora, não estou dizendo que se precisa fazer muita coisa arriscada para entender esse estado batata de ser com a vida. Só é necessário o entendimento pleno de que tudo é batata! Nada na vida, não importa o título que lhe seja dado, não importa o grau de drama e tragédia que lhe seja auferido, merece alguma afetação, algum suor gasto. Vamos ver algum bom exemplo. Vejamos esse escritor americano, recente defunto, J. D. Salinger. Está aí um exemplo de alguém que não pode dizer: é batata! Na verdade, posso até dizer, que estamos falando de alguém que muito bem pode ser considerado um batata. Perdi há alguns anos importantes horas de minha vida lendo o Apanhador no Campo de Centeio. 50 páginas do livro e estava lá a me perguntar: quando isso irá começar? E nunca começou, só umas 100 páginas de um cara chorando e abraçando pessoas a esmo, com os patos do Central Park fugindo aterrorizados pelos seus lamentos. Em oposição, essa semana estava lendo um livro sobre um homem que sinceramente entende o que eu estou falando. José Sarney é um homem que pode acordar todo o dia e dizer: é batata! À batata, meu amigo! Se lhe viesse a idéia de vender o país para a China em troca de frutas exóticas, ele o conseguiria e muitos comemorariam. Imagine se em vez de um político, ou escritor medíocre, tivesse virado um cientista. Hoje em dia eu não teria de acordar e me perguntar com desgosto: onde está a minha mochila com jato propulsor? 2010 e nós ainda não estamos vivendo como os Jetsons! Tudo é por falta de mais pessoas que possam dizer com orgulho: é batata!
Muitos amigos meus, não importa o que eu fale, ainda mais com os últimos eventos, não entendem, nem aceitam meu reconhecimento batata com a vida. E daí, que minha Rita, minha única filha, que eu levava com seu vestido listrado no parque de diversões da Rodrigo de Freitas para girar nos carrosséis, que me presenteou por anos em meus aniversários com as mais estranhas esculturas feitas de palitos de sorvete, que me abraçou forte, chorando, quando terminou com o seu primeiro namorado, acabou se tornando uma viciada em heroína e desapareceu de casa. E daí, que no único dia em que ela voltou, foi para brigar com a mãe exigindo dinheiro. E daí, que antes de desaparecer mais uma vez de nossas vidas, ela abriu o crânio de sua mãe com uma torradeira. E daí, que cheguei tarde em casa naquele noite, só para segurar o corpo frio de minha mulher Maura, que me amou sempre do mesmo jeito por todos aqueles anos juntos, enquanto eu a traia com todo tipo de garota que rebolava pela minha frente, sendo que naquele mesmo momento ainda devia ter o aroma da que tinha acabado de deixar na porta de um motel. E daí, é o que digo. O que você espera que eu faça agora? Chore? Enfie-me em um buraco e desapareça da existência? De que isso irá me adiantar? Nada! Absolutamente, nada. E é por isso que digo mais uma vez que é isso, isso que é a vida, é batata! À batata, meu amigo!
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2 respostas
Agora, tendo a oportunidade de ler o texto, eu mudaria meu voto. Esse texto é batata com certeza.
E é batata que O Apanhador no Campo de Centeio nunca começa e é uma merda. Esse texto tá ótimo e começou desde o inÃcio! Porque nem sempre é possÃvel começar do inÃcio…
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