
Meritíssimo Juiz: Senhores, estamos aqui presentes para julgar o réu sir Ian Stafford, ex-prefeito (ex-Mayor) da cidade de Preesall, Lankshire, Inglaterra, pela contumaz prática do furto de roupas íntimas e lingerie (underwear). O réu foi flagrado em delito. Antes de passar a palavra í s digníssimas Promotoria e Defesa, sir Stafford, o Sr. tem, como réu deste processo, algo a pronunciar em sua legítima defesa?
O réu: hmmppfff (sic)
Meritíssimo Juiz: Daremos prosseguimento à sessão. Passo então a palavra à Promotoria.
Promotoria: Meritíssimo Juiz, Senhores e Senhoras, jamais houve, em toda a história de nossa mui nobre Preesall, um caso que nos cobrisse de tal indignidade e vergonha. Estamos todos não apenas chocados (schocked), mas terrivelmente enojados (awfully sicken). Nosso outrora leal e respeitado ex-prefeito, o sr. Ian Stafford, que me recuso a chamar de Sir, está diante nós, sentado na mesma cadeira onde outrora já sentaram homicidas, ladrões, estupradores, a canalha mais vil de todo o Reino Unido, nesta mesma tão abjeta cadeira, não mais como uma pessoa a quem devêssemos respeito, confiança ou ainda gratidão, nem mesmo como uma pessoa sequer, mas como um ser monstruoso a quem relutamos até de chamar humano. Pois este ser, este monstro, tendo outrora, através de sua posição, alcançada por beneplácito da ingenuidade de nossa pacata e honesta aldeia (village), conquistado a confiança de sua população, adentrou sem o menor escrúpulo os jardins e residências de nossas virtuosas e indefesas damas para dar vazão à sua ignominiosa luxúria. Com efeito, ele não é um mero ladrão, um ladrão de galinhas (chicken thief), pois não roubava apenas objetos de pequeno valor, desprezíveis, mas ao roubar calcinhas (panties)…
Defesa: Underwear (roupas íntimas), sr. Promotor! e o réu está sendo acusado não de roubo, mas de furto, pois não há evidências ou acusações de violência…
Meritíssimo: Solicito à Defesa não intervir e aguardar sua hora. Prossiga, Sr. Promotor, lembrando que, de fato, não se trata de roubo, mas de furto.
Promotoria: Perdão, Meritíssimo: ao furtar roupas íntimas de nossas mui recatadas (very discreet) damas, não estava roubando, digo, furtando peças de roupas, mas a própria dignidade de quem, de tão boa vontade e ausência de malícia, lhe confiou seus aparados jardins (mowed gardens) (N.T. sir Ian Stafford antes de ser prefeito de Preesall era jardineiro) para o cuidado mais atencioso…
Audiência: vai ver ele queria mesmo era cuidar do jardim dessas ladies (damas)! (risos da audiência)
Meritíssimo Juiz (batendo o martelo): Silêncio, silêncio! Não vamos mais tolerar intervenções de qualquer tipo da audiência. Eu solicito aos guardas do estabelecimento que reprimam e ordenem a saída de todo e qualquer agitador. Prossiga e finalize sua palavra, caro Promotor.
Promotoria: Perfeito, Meritíssimo. Como dizíamos, não é este furto, exemplo da mais vil e abstrusa violência? Trata-se de um caso claro, sem apelação, pois o réu foi flagrado em ato… mas deixarei os fatos falarem por si. Convoco para prestar depoimento, nossa querida Lady Marple, uma das senhoras mais respeitadas de Preesall. (Aplaudida pela audiência, adentra o recinto Miss Marple). Digníssima Miss Marple, relate o que a senhora presenciou no fim do ano passado.
Lady Marple: Oh, eu estou tão constrangida (ashamed) de estar aqui neste tribunal, prestando este tipo de depoimento, mas foi em nome da dignidade e da decência que fui convencida a apresentar meu testemunho para que casos desta natureza jamais se repitam em nossa tão amada Preesall, e mesmo em todo o Reino Unido! Pois durante meses, antes do ocorrido, eu estava crescentemente desconfiada do desaparecimento de minhas ” oh, como direi?- de minha lingerie, desaparecimento extremamente misterioso (extremely misterious), pois como viúva, moro sozinha e sou responsável pela “ai, pela graça de nosso Senhor ” sou a única responsável por sua higiene…
Promotoria: E o que resolveu a Senhora fazer quando se deu conta deste extremamente misterioso desaparecimento de suas roupas íntimas?
Lady Marple: Sob imenso constrangimento, dei parte em nossa delegacia local. Infelizmente, os senhores policiais não me deram a devida atenção, mas depois que retornei lá uma dúzia de vezes afinal eles sugeriram contratar essas câmeras de vídeo modernas de segurança. Preciso reafirmar aqui o quanto esta decisão me foi cara do ponto de vista de minhas crenças pessoais: jamais tive nem cercas nem cães de guarda, pois confio plenamente em todo cidadão de nossa mui honesta Preesall, onde vivo desde criança e onde jamais fui vítima de qualquer tipo de violência…
Promotoria: E o que as câmeras de vídeo registraram em sua ausência, cara Lady Marple?
Lady Marple: oh, é terrível para mim sequer narrar: elas mostraram sem sombra de ambiguidade que o desaparecimento de minha lingerie era causado por um inoportuno pervertido que, no decorrer de minha ausência ” eu tinha ido tomar chá com Lady Christie ” estando semi-despido (half naked), penetrara, digo, adentrara em minha casa e ” oh como descrever?- brincava desavergonhadamente (shamelessly) com minha mais íntima lingerie…
Promotoria: E quem era, cara Lady Marple, este intruso pervertido? Nos diga o que as câmeras revelaram…
Lady Marple: Era… era nosso… nosso ex-Pref… (cai aos prantos).
Promotoria: Poupemos Lady Marple de mais constrangimentos, vejamos com nossos próprios olhos aquilo que causou tanto assombro a nossa querida Milayde… Reproduzam o vídeo, please! (O projetor exibe imagens dos vídeos gravados pelas câmeras de Lady Marple que se retira do recinto chorando. Espanto e risos da audiência durante a projeção). Creio, Meritíssimo, que diante de tão clara evidência não precisamos nem podemos mais nos demorar a clamar que, em nome da moralidade pública, seja concedida ao réu a pena de furto acrescida à pena de obscenidade e perversão de costumes, além da pena de fraudulência eleitoral, pois este réu, de forma crapulosa, abusou da confiança popular. Muito obrigado, Meritíssimo.
Audiência (em uníssono): Forca, forca, forca! (Hang, hang, hang!)
Meritíssimo Juiz (batendo o martelo): Silêncio no recinto! Eu rogo à audiência que não mais se manifeste ou mando evacuar o salão. Vamos passar sem mais delongas à palavra da Defesa.
Defesa: Graças, Meritíssimo. Senhoras e Senhores, cidadãos de nossa mui amada Preesall. Temos aqui de um lado, diante de nosso julgamento, um réu confesso. Temos um réu que jamais, em momento algum, alegou inocência. Temos um réu que teve a coragem de assumir, na estatura de sua posição de ex-prefeito, a dimensão de seu problema…
Promotoria: Problema, não! Crime, crime!
Meritíssimo Juiz: Solicito silêncio à Promotoria. Siga a Defesa.
Defesa: Como dizíamos, temos um réu diante de nossos olhos completamente alquebrado (broken down) de culpa e de vergonha, incapaz de sequer articular sua própria defesa. Mas, nos perguntemos, culpa e vergonha de quê? Por que deveríamos nos envergonhar de nossa própria doença? Por acaso, uma pessoa com câncer deveria se sentir culpada…
Promotoria: Doença, não! Perversão, perversão! A Defesa está apelando…
Meritíssimo Juiz: Silêncio Promotoria, deixemos a Defesa prosseguir.
Defesa: Há muito a medicina psiquiátrica já diagnosticou o sofrimento terrível causado pela sensação de perda de controle dos transtornos psiquiátricos. Isto já é completamente estabelecido pela literatura clínica. Em breve ouviremos aqui um psiquiatra, clínico reconhecido em toda nossa Preesall, que poderá descrever os malefícios desta terrível doença e atestar que nosso pobre réu é um caso exemplar desta enfermidade psíquica. Trago, aliás, em minha pasta os resultados completos dos exames mentais que o réu foi submetido e que comprovam a influência nefasta do transtorno cleptomaníaco em sua enfraquecida consciência. Mas caros Senhores e Senhoras, não é este o ponto central de minha defesa, quero deixar bem claro. Não pretendo ausentar o réu de sua responsabilidade moral e legal. Nem tampouco, nas poucas palavras que conseguiu articular, quis o réu isto. À preciso aqui, neste tribunal, onde a Justiça e o Direito exigem à completa lealdade à vera Verdade (to the very Truth) clamar o que nossos preconceitos nos fazem cegar. Pois devemos aqui, neste tribunal, Meritíssimo, trazer à luz o que a Lei e a Jurisprudência têm dito sobre os pequenos furtos, os chamados “crimes de bagatela” (trifle crimes)…
Audiência (em uníssono): oooohhh!
Promotoria: Meritíssimo, isto é inaceitável…
Meritíssimo Juiz (batendo o martelo): Silêncio no recinto! Prossiga Defesa.
Defesa: O preconceito (prejudice), o conservadorismo e, eu diria até, a hipocrisia, de nossa mui amada Preesall não devem nos cegar para a natureza concreta do suposto delito, na clareza indiscutível dos fatos: que o réu, na ausência de discernimento causada por sua enfermidade psíquica, realizou furtos de roupas íntimas já utilizadas, sem valor de uso comercial que são, conforme a mais contemporânea jurisprudência, ausentes de valor legal e punitivo. Senhores e Senhoras, o que é o furto de calcinhas usadas (used panties) comparado à milionária ajuda financeira que nosso Ministro das Finanças deu aos grandes bancos durante a mais recente crise econímica?
Audiência: Comunista! Comunista!
Defesa: E o que dizer de nosso infeliz ex-Primeiro Ministro que diante de toda a nação justifica da maneira mais hipócrita e ignóbil o apoio dado aos falcões americanos pela invasão ilegal de um país soberano onde morreram 130 de nossos jovens, inclusive nossos queridos conterrâneos? Poderemos nós, cidadãos de nossa mui querida Preesall, nos deixar levar por um pretenso puritanismo e não admitir que furtos de roupas íntimas são completamente irrelevantes juridicamente? Não estamos aqui confundindo princípios morais provincianos com códigos legais que absolvem os chamados crimes de bagatela? E agora, temos que fazer justiça ao nosso ex-Prefeito que durante seu curto exercício executivo tentou levar o progresso não apenas material, mas também cultural e espiritual à nossa mui atrasada Preesall, o que nos impede, caros conterrâneos, de sermos insensíveis ao sofrimento de doentes psiquiátricos incapacitados de discernir a diferença entre o crime passível de sentença e o delito menor, cuja punição, moral e psíquica já se abateu irreversivelmente sobre nosso infeliz réu. Tenho dito…
Promotoria: Disgusting (revoltante)!
Livremente baseado em fatos reais (freely based on a true story):
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