
E ele caminhava pela rua calada e lúgubre, estava sozinho, parte de sua vida morria, e se parte da vida morre, o que resta não é toda vida. Finda morte, finda!
Ele caminhava pela rua, e a cada passo se distanciava, e consequentemente se aproximava, um único movimento que significava tanto. E o vento? Quanto vento. Uma rajada forte o fazia se curvar, reverenciar o vento, naquele momento com tanto significado. E se ficasse ali parado, o instante pararia? Não, nem persiste nem pode ser reproduzido, nem na memória, que perde uma palavra, perde um sorriso, um movimento, que perde um olhar. Não conseguiria agarrar o momento, prende-lo, aprisioná-lo, por entre seus dedos escaparia o instante, se perderia, e o vento com tanto significado voltaria a ser simplesmente vento. Finda vento, finda!
Doze horas, horas cinzas e ele caminhava pela rua, calada, lúgubre, pálida, sequaz tristeza. A luz das doze horas castigava seu corpo, e enchia de vida as ruas, o tumulto, a pressa, as cores, as flores de plástico. E o sol? Quanto sol. Certo e claro sob sua cabeça, como se algo pudesse ser certo e claro sob sua cabeça. O instante lhe fugiu, lhe escapou seco e rápido, porém seus rastros são suficientemente fortes para fazer crer que não foi sonho, que não era loucura ou alucinação provocada pelo sol e sua luz inexorável. E o que haveria de fazer? Se já não havia mais o que ser dito, se já não havia o que ser negado, já não havia o que ser pedido, só restava caminhar, seu pensamento indo e vindo, atrapalhado pelo sol e sua luz. Finda sol, finda!
Foi um dia em que não acordou, há dias não acordava, não poderia. Como acordar se seu sono não existiu? Se com uma paciência quase imortal, perpétua, acompanhou com indiferença cada nuvem, cada tom de céu, de um azul claro despretensioso, do branco que desprezava sua dor, à uma luz amarela num céu de cor púrpura. Tentaria levar consigo algum pedaço daquele céu, daquela manhã, daquela tarde, daquele eterno hoje. Seria a última tarde que se lembraria, depois, todos os dias seriam noites. Aquele céu cobriria tudo que para traz ficava. Finda céu, finda!
E veio outra vez a noite, e com ela veio o frio, incomum para aquela época do ano, veio toda dor do mundo, que estava em toda parte, em toda direção, o desespero, a incerteza, toda cidade chorava naquela noite, era de se esperar que chorasse, mas não chorava, e ele também já não chorava, a insônia forçada era tudo que lhe restava. Não sabia o que doía mais, se o cansaço do corpo, ou saber que logo dormiria e todo o cansaço passaria, não conseguiria agarrar o cansaço, não conseguiria por muito tempo escapar do sono, que como todo processo natural era inevitável, logo toda dor em seu rosto, por maior que fosse, seria vencida pelo sono, seria subjugada pelo tempo, seria substituída por um semblante leve e tranquilo, logo dormiria, e contra isso não podia fazer nada.
Forçava a insônia, tentava agarrá-la, dominá-la, subjugá-la, porém mesmo a insônia, patológica ou forçada, alimentada por pensamentos, dores, rancores e modernas drogas sintéticas, era superada pelo sono, inexorável sono. Estranho era pensar que desde garoto esperava por isso, alguma tragédia que desse sentido a tudo, que o fizesse emergir deste espaço vazio onde todos se encontram, que tornasse amarelo o girassol, solene o vôo das aves vespertinas, que desse a cada imagem, som e calor. Mas as tragédias acontecem, de três em três segundos as tragédias acontecem, todas em vão, pois o sono vem, nos rouba as noites não dormidas, nos desliga e nos afasta das cores e dos instantes raros e solenes.
As estrelas iam sendo apagadas uma a uma pela aurora inexorável, e, dormir, agora, como todo processo natural, era inevitável, o sono desprezava sua vontade, seus olhos piscavam cada vez mais demoradamente, sua respiração perdendo força, fraco assim era presa fácil e indefesa, e os traços de dor iam sendo subjugados em seu semblante. O sono não vinha assim! Não depois do que aconteceu dias atrás. Não vinha decidido e arrogante, pelo contrário, vinha sutil, irresistível. Seu corpo ia caindo leve e vago, quando percebia o sortilégio de seu inimigo, balançava a cabeça, como se negasse veemente o que lhe era oferecido, arregalando os olhos, como se quisesse não perder o que lhe era escondido.
Três segundos, talvez tenha sido esse o tempo que durou estes últimos dias, uma fração insignificante de tempo, que ninguém lamenta ou questiona se foi desperdício, três segundos são apenas isso, uma insignificante fração de tempo, que não persiste, nem pode ser reproduzido, nem na memória, e eram as mesmas roupas que vestiu dias antes, e seu inimigo o abraçou com calma e carinho, como a morte abraça o velho, o pousou sobre uma superfície confortável, da forma como o abraçou e o pousou, qualquer superfície seria confortável, tentou fazer ainda mais uma ponderação, já não restava tempo para ponderações, o sono inexorável veio e lhe roubou o instante, o sono inexorável veio e lhe roubou a tragédia. Finda sono, finda!
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3 respostas
O nome é “Antonio Junior”, sem acentos no “o” e no “u”. Rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs
Nossa, que texto chato! Ninguém merece uma chatice dessas.
Valeu Eduardo, obrigado pelo comentário. Você pode ler outros textos (iguais ou até mais chatos que este) no blog http://www.prosaefilosofia.blogspot.com
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