
Não sou católico e não comemoro Natal. Caminho resignado em direção ao ateísmo darwinista, com inveja das crenças que tanto aliviam a galera por aí. Quando trabalhava no comércio, tinha todos os motivos para festejar o fim de ano e fazer um brinde rosé às vendas no azul, mas mudei o rumo profissional e me afastei do universo mercantil. De modo que a última semana de dezembro é aquela viagem no vácuo onde nada acontece; o tempo fica suspenso e tudo é deixado pra depois, quando enfim religaremos a máquina da praxe outra vez e até poderemos esquecer de que somos mortais.
No Natal não tenho filho para exigir minha atenção o tempo todo como um bebê dependente ou me afrontar com o ódio de um adolescente enfurecido. Ele fica com a mãe, minha ex-mulher. Também não tenho mulher. Meus amigos estão ocupados em dar conta da corrida de obstáculos que terá um prêmio compensador no final: o aconchego do encontro familiar entre o especial da Xuxa e a missa do galo. Não sou indigente nem órfão, família até tenho, mas nunca trocamos presentes. Só ausentes. Poderia aceitar convites generosos para curtir a ceia alheia daqueles que estariam dispostos a me acolher por solidariedade ou simplesmente porque um convidado “de fora” geralmente inibe brigas que rolam entre parentes com muita intimidade. Mas prefiro evitar constrangimentos e recolher-me ao território seguro do lar.
Ligo o computador em busca de uma companhia virtual qualquer, mas vejo que até os spams deram um tempo; pego o jornal sedento de informações que ocupem pelo menos uma hora do feriado sem fim, mas ele está um fiapo e é devorado em meros 15 minutos. Na cidade sitiada pela convenção social, supermercados, farmácias, bancas e até a padaria fecharam a porta na minha cara. Sem empregada, sou obrigado a preparar minha própria refeição e lavar a louça que esnobei o ano inteiro. No embate com a gordura, faço progressos; começo a sentir humildade e singeleza em minhas mãos. Corro na praia e lamento por todas as piadas de duplo sentido envolvendo rabanadas que não pude compartilhar, mas agradeço pelas calorias que não ingeri, principalmente os fios d’ovos. Tomo uma água de coco como brinde ao vinho quente de segunda que não fui obrigado a beber em pleno verão carioca. Penso em todos os produtos que não consumi, nas inutilidades que não recebi, nas embalagens que não descartei e sinto-me totalmente ecológico e consciente de uma atitude global. E começo a achar que posso gostar do Natal; é quando me vejo absolutamente sozinho e até um pouco capaz de ser feliz.
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