
Publicado no livro “A Cabra Vadia”.
Um dos momentos mais patéticos da minha infância foi quando ouvi alguém chamar alguém de “canalha”. Note-se: – era a primeira vez. Teria eu que idade? Cinco anos, talvez. Ou menos. Vá lá: -cinco anos. E me crispei de espanto. Minto: – de medo. Foi medo e não espanto. Para mim, uma palavra estava nascendo, era o nascimento de uma palavra.
Paro de escrever. Por um momento, repito para mim mesmo: – “Canalha, canalha”. O som ainda me fascina como na infância. E pergunto a mim mesmo se “o canalha” é uma dimensão obrigatória de cada um. Pode haver alguém que não tenha um mínimo de canalha? Um santo, talvez, ou nem isso. Disse não sei quem há santos canalhas.
Eis o que eu queria dizer: – o medo dos cinco anos perdura em mim até hoje. Ainda agora me pergunto se alguém tem o direito de chamar um semelhante de canalha. Poderão objetar que pulha é um insulto equivalente. Ilusão. Vi um sujeito ser chamado de “pulha”. Retrucou ao outro: – “Pulha é você!”. E o incidente morreu aí. Dez minutos depois, os dois pulhas estavam, na esquina, bebendo cerveja.
O sujeito pode ser pula e como tal beber cerveja. Não há incompatibilidade entre o pulha e a cerveja. Mas ninguém pode ser canalha. A simples palavra constrói uma solidão inapelável e eterna. Eis o que eu queria dizer: – o canalha é o pior solitário. Esse destino de solidão é o seu, eternamente.
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