
A pólvora queima seus miolos. Sua cabeça estourada, vaza vermelho sobre a terra. Finalmente, o desgraçado está morto! Depois de todo esse tempo, aquele miserável não poderá mais me perturbar. Não mais terei de escutar a sua voz insossa em meu ouvido, seus comentários imbecis a me despedaçar, seus olhares miseráveis a me golpear. Tudo agora está acabado, com seu corpo ali jogado, coberto pela luz de uma lua desolada. Devo comemorar! Preciso de visões, preciso de corpos!
Sigo por um beco entre paredes de pedras grossas. No alto, janelas distantes me observam com sua escuridão sem respostas. Sob a terra, vermes correm maratonas. Uma neblina morta de fome toma o ar. O beco é infinito. Sem fim, sem início, esqueci o meio. Canso-me. Ao longe, o chiado estridente de um pássaro soa. Cada vez mais alto, cada vez mais perto. A neblina revela sentado contra a parede um mendigo, só de barbas, a ecoar os chiados, masturbando-se. Passo direto, mas suas barbas prendem em meu sapato e ele começa a rir descontroladamente. Nervoso, pego um pedaço de madeira e o acerto, só que suas barbas se enroscam na madeira. Levo o pau para o alto, para soltar, mas todo o mendigo vem junto enroscado. Luzes se acendem nas janelas acima, jogo o pau para longe e começo a correr. A neblina se torna mais densa. Tropeço, caio para frente. Estou em uma rua.
Ando pela rua deserta até avistar uma luz azul saindo da porta de um bar. Entro no lugar, uma torrente de vozes me toma. Milhares de pessoas, em volta de mesas, sentadas sobre caixas de bebida, dependuradas em cabeças de animais empalhados. Atravesso a multidão e sento na única cadeira vazia que encontro, na frente do barman. O homem é fino, esquelético e não tem mandíbula. Peço-lhe a bebida mais forte e mais barata. Serve-me uma bebida fervente púrpura e começa a me gruir algo com sua língua solta no ar. Não o entendo. “Disse que deve se limpar!” me fala uma voz e noto ao meu lado um homem gordo, bigode fino, cabelo curto dividido ao meio, camisa branca com grandes poças de suor. “Como?” “Você está sujo de sangue. Ele acha aconselhável que você vá ao banheiro se lavar. Esse não é o horário para se apresentar por ai com a cara toda suja de sangue.” Viro o líquido quente em minha garganta e vou até um banheiro. Lá, paro na frente de uma pia sem espelho e taco água em minha cara. Porém, após me lavar, me assusto ao ver uma figura estranha no reflexo da torneira. Viro rapidamente para trás, mas nada vejo. Não, não poderia ser o bastardo! Ele está agora com seu corpo a putrefar sobre a terra, a nunca mais me atazanar!
Saio do banheiro, olho para os lados, e do outro lado do bar, noto encostada num canto, uma ruiva suculenta de vestido branco, entre dois homens. Vou até ela e a observo sobre o ombro de um dos homens, ela me nota e responde com o olhar. Vem em minha direção, trocamos simples palavras e começamos a nos agarrar sob a cabeça de um urso bêbado empalhado. Beijamo-nos, mordemo-nos. E é aí que quando está a morder o meu pescoço, e a perfurar as minhas costas com suas unhas, que mais uma vez noto no reflexo de uma garrafa aquele vulto. Ele está vivo, e ele está vivo a mais uma vez me aterrorizar. Já estou a escutar seus comentários em meu ouvido. Tento me soltar da garota, mas ela em nada se afeta, continua a me morder e a me apertar. Nada que faço adianta, então a levanto no colo. Não mais o vejo, deve ter ido para fora, vou atrás do miserável.
A multidão do bar está a se estender pela rua, tenho dificuldade em atravessá-los, ainda mais carregando a garota. Paro no meio, pois não vejo mais vultos, olho para os lados, não sei o que fazer. Estarei ficando maluco? A sombra de um gigantesco lagarto vagarosamente vem e tapa a luz da lua. A multidão se cala. Sou tomando de um profundo desespero. Nem morto, ele deixa de me consumir! Grito. Nisso a ruiva para de me morder, se solta, desce do meu colo e começa a me olhar. “Eu sei de tudo, não sabe?” diz com um sorrido. E nisso o lagarto passa, a luz cai sobre sua face e em seus olhos posso ver nitidamente o reflexo do bastardo. Lá está ele, em cada um de seus olhos, olhando para mim com sua cara miserável. Desespero-me mais ainda e os dois reflexos vêm e me pegando pelos braços, me arrastam de volta para sua desgraçada companhia.
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