
(É possível participar das reuniões do Clube da Leitura mesmo à distãncia. Anna, por exemplo, nos enviou sua colaboração por e-mail, já que a agenda não lhe permitiria estar em Copacabana na noite de 12 de janeiro. ENTRETANTO, nós, livreiros, não somos muito fãs da tecnologia. Às vezes passo dias sem acessar minha caixa de e-mail. Ou seja, infelizmente não vi o e-mail a tempo do conto ser lido no salão da livraria e concorrer na segunda rodada. NUMA PRÓXIMA, peço aos compadre ou à comadre que dê uma ligadinha pro sebo – 2256 8634 – e avise alguém da equipe a respeito do conto enviado por e-mail. Para que eu não cometa outro destes vacilos. Ok? Um abraço, Maurício.)
Plantado em seu espírito o demônio do ciúme, nada mais lhe resta senão procurar indícios que justifiquem suas crescentes suspeitas. Seus pensamentos são como pequenas pragas que espalham a dor do amor de uma forma admirável. Quanto mais sofre de ciúme, mais aflito fica e, quanto maior a aflição, mais forte o ciúme.
Desde que conheceu a vulnerabilidade característica de quem deseja alguém em excesso, em seus breves momentos de lucidez Josué trava intermináveis diálogos internos para tentar descobrir quem está certo – se ele ou a sua paranoia. Debate-se no meio de uma história inventada, que só serve para reforçar o seu ciúme e, no exato momento do desfecho, na hora em que deve tomar uma decisão – dar em Idalina um fora, um tapa ou um beijo – a história é interrompida, obrigando-o a voltar ao início. Coitado do Josué. Sem perceber, acaba se emaranhando ainda mais na teia da qual, como um desesperado, tenta se livrar.
Ninguém percebe. Entre amigos, Josué é um cara confiante, amoroso, descolado. Mal suspeitam que em volta do seu pescoço há uma corda invisível, estrangulando-o ao poucos, sempre que pensa em Idalina sorrindo para o vendedor de frutas ou conversando animada com um colega do trabalho. Ignoram que todo o seu corpo treme sob a suspeita de imaginá-la se divertindo sem ele. Ao lado de Idalina, Josué chega a fazer o tipo meio cafajeste. Olha para mulheres na rua, responde com evasivas quando ela pergunta onde esteve, tentando perceber nela uma ponta de ciúme. Nada. Se ele olha para outras mulheres, ela não nota. Se ele não responde onde esteve no dia anterior, ela não liga. Coitado do Josué…
Idalina é mulher de generosas curvas. Seu jeito expansivo o apaixona e o devora. A primeira vez que se encontraram, Josué disse:
“Meu corpo dói só de pensar que você não viria.”
Josué não sabia que naquele momento todos os seus projetos de vida, até então cuidadosamente arquitetados, começavam a ser desfeitos. Ele, que julgava conhecer o amor melhor do que a palma de sua própria mão, pois já se apaixonara algumas vezes, tivera várias namoradas e até fora noivo, ele, Josué da Silva, ignorava o tormento em que sua alma estava prestes a se perder. Coitado do Josué…
Ah! O amor! Tudo parece estar no lugar. Josué tem a seu lado uma mulher ma-ra-vi-lho-sa, fogosa, inteligente, bonita, querida pelos amigos. Querida até um pouco demais para os padrões dele, mas, fazer o quê? Carioca é assim mesmo, expansivo, carinhoso, cheio de abraços e beijos. Ele nem entende o motivo daquela pegação toda. Para falar a verdade, essa bolinação é um exagero, pensa Josué, sentindo um mal estar esquisito tomar-lhe de assalto. Mal recuperado do efeito que aqueles pensamentos causam em seu espírito, Josué ainda tenta desfazer-se do desgosto que começa, naquele instante, a tomar conta do seu corpo. Mas agora é tarde. Ele já não consegue mais sufocar a dor em que a mágoa se transformou. Está sozinho em seu desterro, abandonado num inferno particularíssimo, lutando contra os demônios que ele mesmo criou. Coitado do Josué.
Ao mesmo tempo em que fica tomado de puro encantamento ao ver a amada, reprova-a intimamente por ela ser… Idalina. Tão linda! Então ele a pune, punindo-se: promete nunca mais esperá-la e não atende aos seus telefonemas, embora se morda de desejo quando ouve o toque dela no celular. Quando ela não liga, sente ódio de si mesmo por querê-la tanto e empenha-se em ignorá-la. Mas os minutos de liberdade são logo estraçalhados por imagens de Idalina passando as mãos no cabelo ao conversar, rindo e jogando o corpo para trás, com aquele gesto sedutor todo dela. Josué se corrói de desespero imaginando Idalina olhando outros homens na rua, desejando algum desconhecido ou ouvindo com atenção a história sem graça contada por alguém que acaba de conhecer. Tudo para destilar o charme que tem de sobra, aquelazinha. E o filme que se passa na cabeça dele culmina com imagens de Idalina e algum cara transando loucamente nas ruínas de Machu Picchu – exatamente as mesmas que ele viu em fotos na revista de turismo e para onde programam ir nas próximas férias. O sofrimento que o pensamento lhe causa o faz prometer se ajeitar. Onde já se viu? Mas também, Idalina não ajuda. Quem manda ser tão… tão… tão Idalina? E novamente ela passa as mãos nos cabelos, joga o corpo para trás, e a história recomeça, mais ardente, com Idalina rolando com um homem nas areias de alguma ilha deserta em Paraty. Cachorra!
“Um dia ainda mato ela. E o cara que tá com ela. E depois me mato.”
O telefone toca. Ele treme. Idalina o convida para ir a uma festa, ele hesita, ela tenta convencê-lo: será uma oportunidade para conhecerem gente nova, interessante, mas ele recusa. Não se sente bem – justifica. A imagem dela na ilha deserta ainda o incomoda. Combinam de se encontrar depois da festa na casa dele. Ele bate o telefone com a força da raiva escondida nas ruínas de Machu Picchu e com a potência do ódio encrespado pelas ondas do mar de Paraty.
Josué sai da empresa na hora de sempre, mas não vai para casa. Quer se distrair, quem sabe conhecer alguém “interessante” que não o faça sofrer tanto. Vai para o bar para tentar se esquecer de que ela pode estar dançando com uma das pessoas “interessantes” que encontrou na festa, mexendo no cabelo, jogando o corpo para trás, transand…
“Josué!” – grita um conhecido lá do fundo do bar. “Chega mais, cara!. Chope?”
Depois do décimo quinto, Josué revela ao amigo:
“Eu não aguento mais. Sabe a Idalina? Ela me trai, aquela vaca. Me trai com a cara mais lavada desse mundo, em qualquer lugar, com qualquer um. Sabe onde ela está agora? Em uma festa cheia de pessoas “interessantes”, nos braços de algum bonitão, jogando os cabelos para trás, contando uma das suas histórias, confidenciando seus interesses mais íntimos e o cara, ah!, o cara deve estar ouvindo ela cheio de interesse, só pra ir pra cama com ela. Você não acha que homem só ouve com atenção uma mulher quando quer levar ela pra cama? “
“Não acho não, Josué. Sabe o que eu acho? Que você tá viajando. Travelling, sacou? Vai pra casa, descansa um pouco, dorme, cura esse porre. Amanhã, tudo vai estar normal de novo.”
“Que normal? Que normal? Você sabe o que é normal? Normal é Idalina me chifrar na praia; jogar charme pra festa inteira; transar em Machu Picchu com um cara local. Você quer apostar que ela não chega antes de amanhã de manhã lá em casa? Bitch!”
“Não aposto quando estou bêbado. Ainda mais quando o adversário está mais bêbado do que eu. É covardia. Esquece isso, é paranoia, vai pra casa que ela já deve estar lá te esperando cheia de amor pra dar.”
“O que você não sabe, cara, é que ela já deu. Na festa, na praia, nas ruínas!” – grita Josué, segurando o amigo pelo colarinho desfeito.
E cai no choro.
Coitado do Josué.
Idalina procura a chave na bolsa, abre a porta e entra. Traça uma reta em direção ao centro da sala e tropeça no espaldar alto do sofá, caindo deitada nele. Tenta se levantar, mas as doses de uísque pesam como dez elefantes e ela adormece.
O corredor do prédio está escuro e Josué não vê sinal de luz saindo por baixo da porta do apartamento. Sabia! Não disse? Depois dizem que é paranoia! Ah, mas se ela pensa que amanhã qualquer desculpazinha esfarrapada vai colar, está muito enganada.
Ele pega o celular no bolso e liga para ela.
Oi. Agora não posso atender. Deixe seu recado que eu ligo assim que puder.
Josué sente que vai ter uma síncope. É bem a cara dela mesmo aquele recado. Não quer nem saber quem é e já vai dizendo que liga assim que puder. Ô mulherzinha fácil!
NÃO PODE ATENDER POR QUÊ? POR QUE HEIN, SUA VAGABUNDA? TÁ OCUPADINHA É? TOO BUSY, É? OU TÁ ESGOTADA?
O vizinho grita um CALA A BOOOOCA, BEBUM! Josué enfia a chave na porta e não se lembra de tê-la deixado destrancada. Essa mulher ainda vai enlouquecê-lo. Josué vai cambaleando direto para o quarto, cai na cama e adormece.
A noite já começa a ir embora. Josué, cabeça pesando umas trinta toneladas, se vira na cama. Dá de cara com Idalina dormindo de boca aberta. Sente o bafo de birita e começa a imaginá-la sendo servida de uísque pelo garçom bonitão da festa, mas não tem forças para continuar a história. O porre da noite anterior deixou seus neurônios em frangalhos. Depois pensaria nisso. Ele se vira na cama e ela o abraça por trás, encaixando as pernas nas dele. E ela que nem tente arrumar uma desculpa esfarrapada porque dessa vez não vai colar.
Os braços de Idalina estão gelados e ele ajeita a coberta em cima dela. Mas deixa estar, deixa estar que, dessa vez, ele resolve tudo, definitivamente. Assim que o dia clarear.
Josué suspira e cai no sono.
Coitado do Josué.
Artigos Relacionados
7 respostas
A-d-o-r-e-i Calomênica !!
Muito criativo ! E muito real !
Ri muito!
Parabéns!
um beijão
Michellovsky !
Fala, Josué! Adorei também! Beijos, LETL
Belo conto….tem moviemnto,rico em emoção…vai em frente…vc é uma escritora Boa…e uma Boa escritora…Ray
Pois é, amor e bicho matreiro, gosta de fazer ventania, vadear na enxurrada e saltar muros. E, de quando em vez se veste de mulher, e aí, haja Josués. Como essa menina sabe disso? É mesmo uma diabinha, sabe e sabe contar, parece que, graças a Deus, tem parte com o demo pra escrever bonito assim. beijos
Ah, por que há tão poucos Josués neste mundão de Deus? Por que? Por que?
Conto G-E-N-I-A-L!
Eita mulher pra escrever bem. Dá até raiva! rs Sou seu fã, você sabe disso, né?
Abjs!
ai meu deus, porque eu li isso? To na bad.
Muito bom, parabéns!
Deixe seu comentário