Conheceram-se na boemia. Ele era Marcos. Ela, Rebeca. Cinco horas da manhã e já era domingo. O encontro ocorreu após Rebeca vivenciar quatro conversas descartáveis, três caipirinhas e n cervejas, dois churrascos de gato e uma crise de riso com a amiga fiel escudeira. Quando se viram, Rebeca e Marcos, após rápida conversa, já não tão descartável, beijaram-se no meio da calçada, que era ampla. Foram tomar uma última cerveja, enquanto a amiga acompanhava todo o processo. Despediram-se í s oito da manhã e ela deixou seu telefone. Às 8h40 ele ligou, querendo saber se o número era real ou fictício. Real, ela disse. Combinaram um encontro para três dias depois. Ela achou que ele não telefonaria mais, mas manteve o celular ao lado de si o dia inteiro. Três dias depois ele ligou e voltaram ao bairro de origem. Chovia forte. Eram duros aqueles dois e peregrinaram de bar em bar, até não haver soluções, e pararam, enfim, no ponto de ínibus, onde se sentaram, conversaram, se abraçaram. A proporção era mais ou menos a seguinte: uma hora de conversa para cada quinze minutos tórridos de pegação. Despediram-se í s sete da manhã, no metrí: ele tomara um café forte e tecia mil questões sobre física quântica, inconsciente coletivo, suicídio e arte. Ela dava corda, pois apreciava questões quaisquer.
No dia seguinte, ele ligou, dez da manhã, e se viram à noite. Multidões no bairro boêmio pelo qual zanzavam, à deriva. Riram de si mesmos e falaram sobre o eu e o não-eu, a razão e a loucura, além de cantaram juntos músicas do Chico Buarque. Lá pelas tantas, quando a barriga dela começava a roncar e a amiga envolvia-se em processos paralelos, Marcos disse: “Você me completa”. Aquela frase viera inserida no meio do discurso, não era um recurso de sedução: tinha tese, antítese e síntese, ainda que ele não soubesse o que aqueles termos significassem. Ela só escutava. Avaliava. Analisava. Acumulava ceticismo e algumas partículas amolecidas de contentamento. Mas eles discutiam de vez em quando, e a coisa ficava feia. Às vezes, era inevitável brigar e naquela noite, ela foi embora num rompante, sem olhar pra trás, sem se despedir. Na noite seguinte, ele ligou, indignado, dizendo que só voltara a procurá-la porque valorizava sua amizade e porque a considerava digna.
Encontraram-se e, mais uma vez, conversaram sobre infinitudes, amplidões, abstrações, paralelismos. Ele era cinco anos mais novo e falava errado, porém sua inteligência a assombrava, e sua marra também. Altas horas, ele falou, impressionado: “Ontem eu decodifiquei em palavras coisas que eu só havia pensado, antes, por imagens, sons, cheiros”. Ela sorriu, sabendo-se responsável por aquela decodificação, e com isso agregando mais partículas de contentamento e diminuindo o grau de ceticismo. Um quinto de beijos tórridos e quatro quintos de conversas ilimitadas talvez se igualassem, de certa forma. Nos intervalos daquelas frações, eram as músicas que ele iniciava e ela, por sorte, sabia completar. (Ficava a estranha sensação de que os homens, com pose de juízes, estão sempre testando as mulheres, estabelecendo critérios de inteligência e cultura, nos quais elas passam ou não.) Despediram-se de manhã. No domingo, ela chegou a sentir saudades.
Por tudo e algo mais, ela sabia que aqueles encontros tinham prazo de validade. Tentou dizer-lhe: “é melhor não nos vermos mais.” Ele retrucava: “não quero que você fique fria comigo”. Na semana seguinte, ainda se falaram várias vezes pelo telefone e se encontraram quando ela já julgava que não devia vê-lo de novo. Havia ali alguma coisa que talvez ela identificasse como afinidade? Quando estavam juntos, ela chorava de rir, ele a imitava, ouviam música juntos.
Mas de repente a estranheza resolveu adentrar a cena: ele a convidou para o cinema, pedindo que telefonasse tal dia, tal hora. Era perto do natal. Ela telefonou tal dia, tal hora. E, de repente, ele não atendeu. E sumiu. Rebeca encontrou a amiga fiel escudeira, com quem passou a tarde, fazendo compras natalinas e conversando horrores. Tudo o que ela queria era que ele ligasse para se desculpar: ela, então, usaria todo o repertório de palavrões que conhecia. Ela achava que ele tinha essa habilidade: desculpar-se. Mas de repente, ele não era nada daquilo que ela imaginava e não deu mais sinal de vida, nem no dia 24 de dezembro. Em 25 de dezembro, ela sabia que não podia mais acreditar em ninguém que encontrasse pela frente, em nada que lhe dissessem, pois as palavras, descobriu, são líquidas. Restava-lhe uma festa, com a amiga. Bebeu uma cerveja, duas cervejas, três. Dançou um pouco. Sentiu-se estranha no meio daquela gente toda. Achava-se absurdamente deslocada de todo aquele contexto. Tudo era silêncio, quando, de repente, deu de cara com Alex.
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5 respostas
aê Vivian, muito bom, como sempre !!
gostei mesmo
haha, ótimo! tem desespero e humor, sarcasmo e ternura, urgência de amor, de flor, de beija-flor, de elevador, hehe… fora que é muito bem escrito, envolvente e… no final você tem a sensação de que valeu a pena chegar lá, não foi em vão, o final revela todo o sentido do texto… issaê, vivian… vai em frente (que atrás, certamente, vem gente)
Valeu Viviam. Legal mesmo,é de lembrar as melhores “historinhas de amores” que todo mundo,se nao as tem, deveria. Pois coisa de gente, e, da vida, o que há de melhor.
ae, rainha da lapa!
mto bom! retratando tao fielmente as coisas tao volateis e fugazes. jah fui rebeca varias vezes.
e seguimos nesse infinito rebecar… rs
MUITO bom, Vivian!
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