Leia outros contos da Vivian em seu blog, o “Vaga Noite”:
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A primeira vez que aconteceu aquela ausência, haviam se passado alguns meses desde o começo de seu cansaço, que começara sutil e fora se alastrando pelas alamedas do corpo. De fato, subitamente, Verínica começou a achar que seus comportamentos eram todos programados de acordo com o que esperavam que fizesse e que fosse. Nada parecia surgir a partir de sua livre e espontânea vontade. E começou, inclusive, a se questionar, na mudez das noites em que o sono se atrasava, se existia aquilo de “livre e espontânea vontade”.
Em busca de encontrar um território onde pudesse ancorar um novo eu, começou a dar longas caminhadas, quando voltava da faculdade. Inicialmente percorria as ruas de seu próprio bairro, e olhava tudo com avidez: pessoas, postes, árvores, asfalto, lojas, movimento de carros, com o fito de reconhecer, quando acontecesse, aquele território que pudesse propiciar alguma coisa inteiramente nova e quiçá de outra ordem. Estava realmente cansada de si e era claustrofobia o que sentia quando pensava que teria de ser sempre a mesma Verínica, presa sempre ao mesmo corpo, enquanto durasse a sua vida. Um pensamento trouxe uma nódoa à sua visão, certa vez: se vivesse oitenta anos, estava fadada a ser Verínica até o fim? Por que não podia acordar, um dia, como Viviane, a melhor amiga, e ter as experiências dela, como se Viviane fosse? Suas idéias, suas idiossincrasias, sua subjetividade dilatada ou contraída, sua experiência sensorial, com todos os incímodos anexados que talvez ela, enquanto Verínica, não sentisse, mas com todas as outras vivências diferenciadas que, como Verínica, não poderia ter? Por que era a princípio impossível desligar-se, temporariamente, da Verínica que costumava ser e daquilo que obrigavam, tacitamente, que fosse? E no dia seguinte voltaria a ser a Verínica costumeira de sempre, descansada como se houvesse tirado longas férias, com saudades de sua pele e do tato que só ela proporcionava. Às vezes sentia câimbras só de imaginar que estaria sempre presa a si mesma, ainda que mudasse de casa, de amigos, de país e de sexo. Não adiantaria inclusive mudar o nome.
Verínica passou a estender as caminhadas aos bairros adjacentes e foi numa delas que teve a primeira ausência. Só soube o que de fato ocorreu quando voltou a si e se viu sentada em um banco de praça, com uma senhora ao lado, abrindo uma garrafa de água. E ela lhe explicara o que acontecera, dizendo que estava caminhando, quando de repente avistou Verínica escorregando em si e desmaiando em seguida. Por sorte aquela velha mulher tinha uma filha que sofria de uma tal de epilepsia tipo 3 e que gerava aquelas “ausências”, com as quais estava acostumada. A mulher perguntou: “Você não sentiu nada de estranho antes do desmaio?”. E forçando a memória, Verínica lembrou-se de um formigamento subindo pelas juntas e espalhando-se pelo corpo e era gostoso o que sentira, até a total escuridão.
Após o ocorrido, Verínica continuou a sentir uma exaustão tão grande que os questionamentos começaram a vir com mais força. Perguntava-se se os telefonemas que dava aos sábados para Viviane eram por vontade própria ou se porque o certo era telefonar. E se deixasse que a resposta viesse com franqueza e rapidez, talvez se desse conta de que estava farta da voz da amiga. E diga-me (ela se questionava), essa faculdadezinha morna de ciências sociais que fazia era porque realmente queria ou porque seu pai era cientista político, engajado, erudito e entusiasta da reflexão social? E tudo isso a deixava extremamente melancólica. Queria saber desenhar a tristeza, com a esperança de assim expurgá-la de dentro de si. Matriculou-se então em uma oficina de artes, com o objetivo de aprender técnicas que permitissem que pudesse dar forma colorida ao seu cansaço, que era imenso, imprimir textura à sua estafa, esculpir o seu tédio. Concretizar, enfim, em algo do mundo o que reverberava em bolo interior e atínito lá pelos espaços do tórax.
E um dia teve uma segunda ausência, dentro de casa, e quando voltou a si sentia-se leve e píde ficar alguns dias em paz consigo mesma. Pois, de fato, era difícil que deixasse de ser a Verínica que sempre era. Continuou caminhando e pintando sua agonia. E quando nada disso ajudava e parecia não haver soluções plausíveis para aquele formigamento que a empurrava a expelir-se de si sem saber por onde ao certo, voltava a sentir o entorpecimento leve e hospitaleiro. Ia então esquecendo-se do que era e de onde estava, agachava-se í s vezes de modo robótico (o que impedia que batesse com a cabeça no chão, já que o inconsciente era sábio por natureza) e quando voltava de sua ausência acolhedora – daquele momento de nada tão espaçoso e convidativo – mesmo que durasse pouquíssimos minutos, era tranqí¼ilidade e um enorme alívio o que sentia.
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7 respostas
Vivian escreve muito bem. Seus textos são sempre marcados pela riqueza de vocabulário e pela forma como encadeia palavras e sentimentos de forma absolutamente musical. A leitura dos contos de Vivian é sempre muito fluida, muito gostosa. Parabéns.
Adorei!! Eu também gostaria de saber “desenhar a tristeza”. Grande sacada. Parabéns
Que texto! Sinto muito orgulhbo de comentar e elogiar o conto de minha filha. Esse final, esse jogo de palavras, o “desenhar”, o “esculpir”… sensacional! Vivian é mestra em desenhar, eculpir, brincar com as palavras. Meus parabéns, Vivian. Mais uma vez.
Estava lendo o conto e me veio um haicai do Millor Fernandes tirado do twitter:
“Eu sofro de mimfobia
Tenho medo de mim mesmo
Mas me enfrento todo dia”
Viiivian, você é demais! Que texto! Disse ao Felipo: “ela sabe o que está fazendo e faz muito bem!”. Parabéns! Isso mesmo, a narradora narra com conhecimento de causa, que escola de arte e de vida maravilhosa essa em que se pode “dar forma colorida ao cansaço, imprimir textura à estafa, esculpir o tédio…” Vivian, artesã das palavras e conhecedora da alma! Um grande beijo!
Lindo, lindo, lindo, minha amiga! Somente uma pessoa assim, simplesmente maravilhosa, pode dizer do trabalho artezanal que o ter que viver sendo requer. Beijos da Ana
simplesmente incrÃvel !!!
todos os seus contos dão o que pensar em vários aspectos e momentos…
reafirmando o que foi dito nos outros comentários,
está cada dia mais perto de fazer uma perfeita sinestesia
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