Sou um tipo mais de bem com a vida. Mesmo! Posso reclamar mais do que deveria, mas não fico me fazendo de coitado o tempo todo. Mesmo sendo um cara normal, há situações que nos fazem chegar à beira do abismo. Ou seja, de ser um emo! Aquele constante chorão, que acha que nada vai dar certo e sente prazer nisso. E, em alguns casos, até está certo. Este é um relato de três dias que não foram do condor, mas de pombos cagando na minha cabeça.
Sexta-feira.
How soon is now? ” The Smiths
Passei no sebo para pegar uns livros de vampiro que tinha reservado. Enquanto pago, converso com Andréia, a atendente. Para minha surpresa, ela me diz que está de saída do emprego. “Pois é, né, tenho que tentar coisas novas, porque ainda tou na idade, senão depois não dá…” Em um misto de choque e ligeira tristeza com as notícias, fugi do assunto. “À por isso que tá escutando Morrissey í s três horas da tarde?” Ela ri e depois me aponta o livro que estava lendo. “Conhece? Carson McCullers. À uma mulher que escreve sobre a depressão americana.” “Então, você tá ouvindo Morrisey a tarde e lendo sobre depressão americana enquanto escuta?” Neste momento, entra um sujeito na conversa que resolve falar sobre John Steinbeck. “Não, As vinhas da ira é terrível, mas não é tão desesperador quanto Ratos e homens.” Ficamos quase 10 minutos (não sei quanto tempo foi realmente, mas foi mais do que costumo ficar nestas conversas de balcão) falando entusiasticamente sobre a representação de misérias humanas na literatura, cinema e música. Aí, percebi que nada havia nada de errado com ela. Foi uma conversa realmente agradável. “Cara, pior é o Perrault, quando o Lobo Mau come não só a Vovozinha como a Chapeuzinho! Muito cruel!..” “À, mas angustiante mesmo é quando aquele nazista arranca os filhos da Meryl Streep em A escolha de Sofia…” “Mas A hora da estrela é que é foda. A mulher não tem nada e se fode mais ainda…” Neste dia, entendi plenamente o ditado : Pimenta nos outros é refresco. Abracei Andréia, desejei boa sorte com a depressão e saí com um sorriso no rosto. Cara, preciso ler mais sobre calamidades! À realmente divertido. Mas tudo a seu tempo. Estava atrasado.
Sábado.
Love will tear us apart ” Joy Division
Fui na Casa da Matriz. Assim que entro, “Dead Souls”. Não foi nesta ordem, mas, após, tocou The Cure, New Order, Bauhaus …! A Paradiso é sempre a mesma coisa, mas, devido ao Halloween, parecia que eles pegaram todas as músicas pseudo-suicidas de sempre e juntaram num mesmo bloco. Pensei se na Pista 3 não estaria passando “Fome de viver” no telão… Depois de algum tempo, fiquei cansado de mexer meus braços apenas num canto na apertada pista de dança. Subi e abri a porta da sala de fumantes. À incrível como a nossa percepção muda quando ficamos sóbrios! Antes, eu chegava trêbado e não percebia nada de errado. Agora, notei a assustadora realidade da qualidade de ar daquela sala: São Paulo elevado a n! Juro, fumar um cigarro lá dentro equivale a tragar o resto da caixa junto. Sem filtro. Mas é ainda o único lugar onde se pode tentar abordar uma garota com mais calma.
Como dizia, acendi o cigarro e senti no sofá. Uma garota morena magrinha se senta ao meu lado com uma amiga e tira um cigarro da bolsa. Antes mesmo que pudesse pensar em dizer “Oi”, um australiano pergunta se poderia filar um. Ela cede e reclama, o que o gringo percebe mesmo que não tenha entendido uma palavra. Acho. Mas, milagre! Arrumei uma abordagem! “Muito escroto esse pessoal que fila, né, cara? Por que não trazem de casa e blá, blá, blá…” Ela era bonitinha e pequena (tenho especial atração por mulheres mignon). Ela ria das minhas piadas e comentários sardínicos (vou comer!). Aí, a amiga a puxa pelo braço, cochicha algo em seu ouvido e elas se beijam. Das duas uma: ou tinha dado uma baita sorte ou um senhor azar. E, como sempre, foi o segundo. “Cara, foi muito legal te conhecer!” Sorriso amarelo (e não pela nicotina) da minha parte. “Tchau.” E se foram. Bebi o resto da minha água mineral, paguei e sai pela primeira vez da Matriz sóbrio. Ainda não sei o que achar disso.
Domingo.
The beginning is the end is the beginning ” Smashing Pumpkins
Descobri no domingo por que a Drinkeria Maldita (ênfase na última palavra) tem este nome. Primeiro, porque fechou a boa Drinkeria em Botafogo. Segundo e principal, porque o lugar é o inferno na Terra. Se sua ideia de diversão é ficar num espaço lotado, com um monte de criaturas desafinadas destruindo suas músicas favoritas em alto e muito alto som, não perca tempo. Caso você tenha algum resto de bom senso, corra. Simplesmente corra e não olhe para trás. Até este domingo, eu realmente não sabia o quão as pessoas estão dispostas a se humilhar na frente de dezenas de desconhecidos. Entre garotas que miavam canções (nunca senti tanta pena do ABBA) e os criativos imbromations (destaque para conversão de Can”t buy me love para Bá bá mi ló), nunca me se senti tão deslocado. Em alguns casos, literalmente, pois não conseguia me encostar em uma parede ou balcão sem esbarrar em algum casal se beijando. Juro, era o Templo da Ejaculação Precoce ou do Ginecologista Júnior…
Por que eu fui neste buraco? Era aniversário de uma amiga de infância e ela estava lá. Não a minha amiga aniversariante, mas outra amiga. Por anos, fui apaixonado por ela, mas nunca correspondido. O normal na história da minha vida… Não nos víamos há mais de um ano, quando ela retornou a Suíça. Ela estava linda, como esperado. Estava namorando um conhecido meu, sujeito muito legal. Mas, devido a este relacionamento, não passávamos muito tempo juntos quando ela vinha ao Brasil. Então, sabendo de que ela estava lá, me enchi de coragem e fui. O problema é que tinha ingresso para uma peça em São Conrado. Bem, atrasou, esperei uma eternidade por um ínibus que deu uma volta enorme… Cheguei na Drinkeria com mais de duas horas de atraso e tive de esperar na fila. Quando finalmente entrei, nos abraçamos e começamos a conversar. Como sentia falta de conversar com ela… Mas como escutar o que ela ou eu dizíamos ou manter um papo enquanto uma garota esgoela Here comes your man no palco? Eu não conseguia pensar e ficava cada vez mais nervoso e apreensivo com aquele karaokê bizarro (Bizarro no sentido Super-homem bizarro). Finalmente, nenhuma palavra saía de minha boca e ela decidiu ir embora. Para a casa do namorado. Eu a acompanhei até a saída, lhe passei meu telefone e combinamos de fazer alguma coisa, em algum dia, em alguma hora. Enquanto ela se distanciava, sorrio: “Algum dia…” Eu esperarei.
Finalmente, minha amiga aniversariante cantou (e muito bem, aliás) e corri para pagar a conta. Os outros amigos dela vieram em seguida e me fizeram companhia. Ao meu lado. Tudo bem, eu uso o mesmo método para furar fila.
Ando até o ponto de ínibus, me fazendo a pergunta usual: Por que Deus ri de mim? Não ouço resposta. Mas foda-se! Que venha segunda-feira!
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1 resposta
Kara adoreii, sei la é tudo tão bizarro, mais adorei.
Bjuss continue assim
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