As histórias de amor começam com algo fortuito, uma espécie de fato inesperado e inevitável que aproxima duas pessoas.
As histórias de amor se vestem de acidentais para deixarem fluir uma série de desejos e frustrações com os quais as pessoas caminham pelas ruas diariamente, numa ânsia eterna de despejar tudo em alguém.
As histórias de amor envolvem uma troca de pesos e alívios entre duas pessoas vítimas do falso fortuito. Elas se veem, se falam, se mostram. Culpam o destino por ter encontrado alguém tão perfeito.
Elas chamam de destino um conjunto de decisões que elas próprias tomam e que as leva exatamente ao ponto em que elas estão. O destino é obra das pessoas, mas elas preferem vê-lo como algo independente do seu criador, talvez como os homens e Deus, talvez não.
As histórias de amor se concretizam em testes de afeto, como o beijo. O encontro das duas cavidades bucais, com possível esbarrões do músculo lingual, é a prova física de que as duas pessoas envolvidas se permitem trocar fluidos e venenos, carinhos e rancores, amor e ódio.
As histórias de amor envolvem nudez, corpos sem adorno e sem palavras, trajando apenas as marcas que outras histórias de amor já registraram.
As histórias de amor começam comigo, com minhas palavras, com meus olhares. Começam numa esgrima com minhas dificuldades, num balé com os medos que carrego dentro dos bolsos, protegidos por minhas mãos suadas. Começam com meu típico “olá”, com meu suposto ar de tímido, com meu esforço, com minhas auto-depreciações sinceras e irínicas, a um tempo espontâneas e pré-fabricadas.
As histórias de amor se desenrolam com minhas decisões, com as manipulações que imponho, com a ocupação precisa dos papéis que preciso desempenhar em cada momento. Prosseguem na força das palavras bem escolhidas, dos lugares mal iluminados, das canções bem executadas.
As histórias de amor possuem um ponto em que entram em modo automático e harmínico, apoiado numa suposta beleza da rotina.
A partir deste ponto lembro que as histórias de amor, como as outras histórias, têm um autor. E não me vejo com caneta alguma. O automático nada mais é do que o manual em mãos alheias.
As histórias de amor dependem de um bom autor, de um único autor, e é ilusório acreditar que é possível escrevê-las a quatro mãos, quando já há coisas demais pilotando cada uma delas.
Tiro os medos do bolso e enxugo as mãos.
As histórias de amor terminam comigo as conduzindo como se fosse um dançarino de tango pelas ruas, num jogo em dois por quatro de afastar e aproximar, afastar e aproximar.
As histórias de amor terminam com o fim da música que eu mesmo orquestro, com o pedido de aplauso a uma plateia vazia, já que ninguém gosta de assistir a histórias de amor se que acabam.
No fim das histórias de amor as luzes se acendem, as pessoas se levantam e saem. Todas. Eu fico lá, sozinho, orgulhoso do desfecho que, não sendo bom, pelo menos foi escrito por mim.
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