Foi nos tempos em que a gripe se espalhou e as pessoas passaram a usar máscaras. As autoridades haviam recomendado expressamente que se evitassem os lugares fechados e as grandes aglomerações. Eu estava sentado num banco de praça lendo um livro que iniciara um ano antes e cuja leitura interrompera. E, na verdade, estava sendo difícil continuá-la. Observava os transeuntes que passavam, com suas máscaras, que para alegrar mais o ambiente pesaroso de peste e de morte dos últimos meses, haviam ganho cores e desenhos espalhafatosos.
A gripe estava no ápice de sua virulência e o índice de óbitos se elevava semana após semana. Não tinha família que não havia sofrido alguma perda. As autoridades então aumentaram mais o nível das exigências sanitárias e haviam proibido os afagos, beijos e carinhos íntimos. Na semana anterior, um decreto suspendera, por tempo indeterminado, as relações sexuais e o controle governamental incentivava a denúncia imediata de possíveis cópulas clandestinas.
Eu estava alheio a todo aquele ambiente sinistro e necrófilo. Há um ano, pelo menos, eu me sentia já mais morto do que vivo, como um zumbi, de modo que pouco me importava ou amedrontava o desenvolvimento da epidemia. O que mais eu temia era receber a notícia que ela havia contraído a doença e sucumbira. Fulana pegou a gripe, não suportou e veio a falecer, eis o que mais me apavorava. Apesar de reconhecer ela como uma mulher forte. Mas nas últimas semanas eu havia imaginado tantas vezes receber esta terrível notícia, como de algum familiar gravemente doente cuja morte fosse iminente, que me perguntava se eu intimamente não desejara semelhante funéreo acontecimento. E afastava, com raiva e vergonha, tal pensamento infeliz de minha cabeça. Para me distrair e reviver, o livro me ajudaria.
Foi quando, inesperadamente, reconheci sua silhueta atravessando a praça. Com seus mesmos cabelos longos e portando uma máscara negra que deixava entrever seus olhos. Olhos que outrora haviam me fitado amorosamente e nos quais eu, tempos atrás, adivinhara uma súbita centelha, ao ouvir palavras que furtivamente havia sussurrado em seus ouvidos. Ela, em seu passo rápido e decidido, como era de seu feitio, virara o rosto em minha direção, e por um átimo parecera que seus olhos me fitaram como não se mira um estranho. Mas ela voltou o rosto à frente e continuou seu passo sem alteração na marcha.
Levantei-me rapidamente, deixando o livro sobre o banco, pois sabia que ele se tornaria um estorvo. Ela estava bem mais adiantada e a praça estava cheia, de modo que não havia tempo a perder. Não quis gritar nem chamá-la, quis apenas alcançá-la, sem saber muito bem o que faria em seguida. No entanto, havia muita gente, e eu esbarrava nas pessoas sem sequer pedir licença. Eu passava entre as pessoas como se passa entre gente morta, eu subitamente me sentia o único vivo ali. Eu e ela éramos aqueles únicos em que o sangue parecia continuar a fluir por artérias e veias. Repentinamente, ficou claro o sentido daquela peste. Que morra o mundo, a humanidade inteira, pois apenas eu e ela estávamos vivos.
Ela havia subido a escadaria que dava acesso à cidade alta, e eu sentira um certo desespero, pois sabia que se ela alcançasse as esquinas do centro antigo, provavelmente desapareceria entre suas ruelas estreitas e labirínticas. Galguei com velocidade os degraus desgastados e assimétricos, mas senti opressiva falta de ar, tal como um asmático. Tive que interromper por um minuto a corrida para respirar e ganhar fílego, quando percebi que havia a perdido de vista tal como temera. Então prossegui numa atabalhoada correria, o que levou talvez a uma pessoa da multidão imaginar, eis mais um que perdeu alguém.
A cidade alta tinha muitas passagens e entrei logo na primeira, mas não havia mais sombra dela. Dobrei a primeira esquina, entrei na segunda rua, mas nenhuma sombra dela. Prossegui subindo, já sem me importar mais com minha respiração ofegante, parecia que nada mais no mundo importava, a não ser aquela vã e insólita perseguição. Nada de estresse, nada de atividades extenuantes, as autoridades sanitárias haviam recomendado. Médicos apareciam na televisão para dizer que, naquele momento, as pessoas deviam evitar emoções fortes que pudessem trazer algum tipo de preocupação ou tristeza, pois era essencial se manter saudável e feliz para suportar melhor o curso da doença. Havia mínima chance de sobreviver em caso de se contraí-la, desde que corpo e mente estivessem sãos.
Pois eu imaginava que nada me faria melhor do que encontrá-la e poder, uma vez mais, mirar os olhos que outrora amorosamente me reconheceram. Lembrei do mirante que permitia ver a cidade alta de uma perspectiva favorável e para lá me dirigi com obstinada esperança. E foi justamente no caminho para o mirante que topei com ela, de costas, caminhando cidade acima.
Não gritei, não a chamei, apenas apressei o passo, me pus atrás dela, estendi minha mão e puxei seu braço, com decisão, mas sem agressividade. Ela se virou sem demonstrar surpresa nem oferecer resistência. Sua máscara era completamente negra, sem estampas, e apenas seus olhos, seus adoráveis olhos estavam à vista. Ao encará-la, foi com dolorosa consciência que não percebi rigorosamente nenhuma alteração em seu pálido semblante. Não pronunciou sequer uma palavra. Eu a fitei nos olhos, mas o que vi refletido em sua íris impassível foi apenas minha desolada e cadavérica expressão.
Artigos Relacionados
2 respostas
A história vale o final, muito bom.
Guilherme! Grande escritor!!!
Deixe seu comentário