O que surge não é um relato completo, mas algo composto às pressas, em meio à excitação da morte. Não pretendo ser fiel aos fatos, mas à vida interna dos mesmos… Como definir? Era um sentimento dividido em dois. Então, se tornaram um, depois se separaram, gerando outros seres, deformados pela brasa da vida, cicatrizados pela natureza do tempo. O que posso dizer é que houve vários começos, todos marcados pelo fim. Quando este jogo começou, logo em seguida se poderia saber aonde chegaria, embora não suspeitasse. As linhas surgiram escritas de maneira quase enigmática, só se deixando ser compreendidas após a releitura dos fatos. Talvez nem isso. Assim, o que surgiu anteriormente se tornou esta quimera que uiva internamente, sem esperança, sem medo, enlouquecida pelo instinto e ignorante do mundo ao redor.
Ela me olhava e perguntava: “Quem sou eu?”. Suava, sabia que não havia resposta aceitável. Ela me encarava furiosa: “Quem sou eu?” Eu gaguejei e fechei os olhos. “Você são nossos restos combinados…” Neste momento, selei meu destino. “Você é a…”
Quando o doutor me contratou, estava na ilha das possibilidades. Era jovem. Aventuras se anunciavam, com sabor de mel e imagens de virgens nuas. Ele me seduziu com a perspectiva de um pagamento justo e tempo livre para desenvolver minhas atividades autorais. Apertamos as mãos, sorrindo, ele menos do que eu. No dia seguinte, voltamos à civilização.
As naves partiam em direção ao profundo mar acinzentado que nos guardava. A superpopulação nas cidades levara a humanidade a viver em edifícios que ultrapassavam a barreira da poluição e adentravam camadas na terra. Quanto mais alto na cadeia, melhor era sua situação. O laboratório era localizado na periferia, ou seja, os níveis mais baixos. “O centro da Terra”, como era apelidado. Lá embaixo, os espaços eram mais baratos, discretos e povoados pelo tipo de pessoas que não gostavam de chamar a atenção para si: operários, traficantes, assassinos, malditos… Foi para lá que nós fomos. Refletindo, talvez fôssemos um pouco de cada.
A parte de coleta não foi difícil. Conosco, habitam os subterrâneos centenas de homens e mulheres descartáveis. Mesmo assim, a montagem levou um tempo considerável, pois muitas peças não se encaixavam. Tínhamos de jogar fora e reiniciar o processo. Uma dúvida engraçada foi quanto ao sexo do ser. No final das contas, decidimos que a junção das melhores qualidades seria o ideal para formar o que víamos como o próximo passo da evolução. Em nove meses, demos luz àquilo que seria o próximo passo da evolução, carne e tecnologia combinados harmonicamente.
“O que é isso?”, perguntava. “É amor.” “O que é amor?” Não sabia responder. Nos beijamos. Passei na mão em seu rosto, senti as diferentes texturas e passei meus dedos lentamente em suas marcas e respondi suave como uma brisa de verão: “Não interessa.” Foi nossa primeira vez.
“Pai?” “Sim?” O doutor caiu imediatamente em sua mesa. A cada facada, um novo jorro de sangue preenchia os papéis espalhados pela mesa de carvalho. Enquanto ele sentia a vida esvair, poderia jurar que ele percebeu que seu trabalho estava completo. A criatura matou seu criador e a tinta vermelha-escura assinava o atestado final de seu trabalho. Tinha sido um deus e, agora, pagava o preço inevitável para aqueles que sucedem na empreitada. Agora, o ser seria tão humano quanto inimaginável. E poderíamos ficar juntos, para sempre. Embarcava na aventura mais inesperada de todas: se apaixonar.
Não, não foi a androgenia… Não foi algo sexual, sabe? Como toda atração, foi um fator inesperado que fez nossos sentimentos aflorarem. Éramos feitos de retalhos, emocionais e literais, respectivamente. Ela (para mim, era uma mulher) era representação física, inteligente da mais pura beleza, algo só prevista em sonhos, delírios de um autor. Eu era Pigmaleão e ela, Galatéia. Prometeu + Galatéia. Prometéia.
Ela nunca ficava calada depois que fazíamos amor. Mas naquela noite, estava quieta. Algo acontecia. “Amor, você está bem?” “Sim…” “Você está calada…” “Penso nele…” “Não se preocupe. O rei está morto.” “Longa vida ao rei…” Eu lhe contei este ditado. Foi uma das primeiras coisas que disse quando a ensinamos a falar.
Ela não entendia as partes. Não poderia. Era formada por homens e mulheres, sem assumir por completo nenhum dos gêneros. Não teria como entender. Ela não se encaixava neste mundo. Foi o que pensei. Tentamos conversar a respeito enquanto a abraçava após fazer amor, mas, de alguma forma, não conseguia me explicar… Quando matamos o criador, acreditei que poderíamos viver tranquilos em nosso paraíso. Em meio a excitação por encontrar o par perfeito, entretanto, esqueci ainda rondam serpentes pelas florestas. O fruto proibido não teria sua mística sem o rastejar do animal peçonhento. Ciúme, inadequação. Ela era cada vez mais tomada por um chamado que eu não poderia corresponder.
“Estou grávida.” E então soube que algo fora de controle estava acontecendo.
As luzes da rua começavam a se apagar quando ela veio cumprir o resto do ritual. Era uma noite mais quente que o usual no subterrâneo. Assim como fizéramos com seu pai, ela deveria destruir o substituto para seguir em frente. “Quem é você?” Respondi que era seu amante. Ela me perguntou se eu não era seu pai também. Assenti. A partir desse momento, sabia que precisaria recomeçar e ela daria o golpe que me libertaria desta existência para explorar o desconhecido. Quis dizer para ela que, em breve, ela seria não mais minha, nem de outro. Tinha saído de nossas asas para buscar uma definição para si própria. Ela seria única, pois ninguém mais compartilharia o segredo de seu surgimento após nossas idas. Ela estaria à parte de todos, individua por méritos próprios. Ela seria a 3ª pessoa
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