E agora, você está indo embora. E eu tenho que te abraçar sem chorar, voltar pra casa sem olhar pra trás e sair com nossos amigos como se não houvesse esse pedaço vazio de um metro e setenta andando ao meu lado.
Eu não desejaria outra coisa, entretanto. É seu sonho, sua vida, e eu jamais seria capaz de fazer algo que não fosse te apoiar pra ir em busca dos seus desejos, assim como você sempre fez pra mim. Fomos assim desde o começo e assim seríamos no final. Você me ajudou a planejar, economizar nos jantares, escolher a vista e decorar os quartos do meu apartamento com varanda e eu te ajudei a organizar os documentos, ajeitar os papéis, traduzir as cartas de recomendação e escolher as roupas de frio pra você ir fazer seu mestrado na Inglaterra. Este sempre foi o certo nas nossas cabeças tão diferentes do resto do mundo, mas tão iguais entre nós. Nunca achei que encontraria alguém assim igual. Deveríamos viver nossas vidas e aproveitar ao máximo enquanto os nossos caminhos estivessem juntos, e vivemos e aproveitamos. Mas uma parte de mim, a parte de mim que nunca soube lidar com partidas e perdas, mesmo sabendo que a vida é feia delas, ainda tinha uma vaga esperança de que no fim das contas nossos caminhos acabassem sendo os mesmos por todo o tempo.
Não foram.
E eu sei tão bem quanto você que você vai embora pra não voltar tão cedo. Afinal, como voltar a uma vida comum depois de se ter provado, mesmo que pelo espaço curto de alguns anos, o paraíso? Eu não teria coragem de lhe pedir e não gostaria que você aceitasse por mim se eu pedisse. No fim das contas, o nosso problema acaba sempre sendo o tempo. Essa obsessão ridícula com a eternidade. Como se dois anos fossem muita coisa, como se nossas vidas fossem muita coisa. Sabe qual é a idade do universo? Sabe qual é a idade da Terra? E o universo e a Terra um dia também vão sumir. E então do que vai ter adiantado seus dois anos sofrendo por aquele amor impossível ou os vinte que você deixou de viver porque resolveu casar cedo demais? Uma vida de cem anos vai significar tão pouco quanto uma de vinte e sete. Instantes de brilho no piscar de olhos de uma estrela, momentos jogados pelo acaso, e nada mais. Podemos apenas cuidar para que nosso brilho seja forte. Para que brilhemos o suficiente para nos reconhecermos e nos reencontrarmos em algum lugar em que o tempo não vá mais fazer diferença.
Por isso eu deixo você ir por mais que me doa, por mais que outro qualquer possa pensar que nunca chegamos a pertencer um ao outro. Mas é preciso aprender primeiro a pertencer completamente a si mesmo. Só assim é possível se dar de forma completa, com todo o significado que uma doação assim deve ter. Sem querer mais nada. Só por querer se dar. Achando apenas que vale a pena.
Eu sentirei muito a sua falta. Deixo o carro na garagem e vou passando por todos os cômodos, recolhendo os restos de você deixados pra trás. O meu chinelo que você costumava usar jogado de lado na varanda. Um fio de cabelo longo deixado no travesseiro que você usou pela última vez algumas horas atrás. O gato vem miando atrás de mim, o que você batizou, e eu não sei se ele tem noção de que você acabou de ir embora. E, na minha mesa de cabeceira, eu encontro um anel. O seu anel. É, fomos assim desde o começo, com nossos carinhos velados e olhares silenciosos que sempre querem dizer mais do que mostram. Talvez um dia nossos caminhos se cruzem de novo. Talvez um dia você volte. Talvez não. Enquanto isso, dormirei com uma corrente com seu anel no meu pescoço, esperando que você sonhe comigo. E que em algum lugar, nos nossos sonhos ou depois deles, possamos ficar juntos sem o peso do “pra sempre” em nossas costas.
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