A rua estava bastante lotada. Engraçado, nessa época a cidade fica vazia. Queria não ver ninguém, queria ter a companhia do asfalto, do silêncio e de sete ou oito fachadas modernas. Em vez disso, gente.
Gente igual entre si. Nunca entendi as pessoas que conseguem ver tipos variados caminhando por aí. Eu vejo sempre a mesma merda: casaizinhos sorridentes achando graça em supor que a falsa busca de um par na vida já cessou, pessoas velhas que precisam se convencer de que ainda precisam ir de um ponto a outro no vazio de suas horas. Algumas pessoas sozinhas; não completamente sozinhas, sempre acompanhadas de um celular ou de um iPod qualquer. Isso é bom, eu admiro essa facilidade em se fazer companhia que certas pessoas têm. Eu mesmo nunca consegui me satisfazer, me bastar. Sempre precisei de muita gente. Sempre quis ter muita gente. E nunca tive. E logo hoje, que uma multidão me cerca, eu não sinto o calor dessas companhias. Hoje eu não queria gente.
Talvez lá pelas nove e meia a rua esteja vazia. O chato é esperar até as nove e meia. Adiei ao máximo essa noite e, agora que decidi que ela chegou, quero que ela passe por mim, que ela aconteça ao meu redor, que ela me complete, que ela me defina. Mas sem gente. Por favor, sem gente.
As horas passam e as ruas continuam cheias. Os velhos se recolheram, os casais também, í s vezes vejo uma senhora ou outra. A rua é dos solitários agora. Sem celular nem iPod, sem amores, sem histórias, sem rugas, sem nada. Tudo o que têm neste instante é pressa, muita pressa. A rua não é um fim per se como para o público de uma hora atrás; é um espelho de dezenas de vidas isoladas, uma passagem, uma fatalidade, algo inevitável e razoavelmente doloroso.
Para quem essas pessoas fazem falta? Para quem eu mesmo faço falta? À o que gostaria de saber. Mas a única maneira de descobrir me impede de ver seus efeitos. Bem, paciência, alguém saberá. De repente serei uma foto na parede de algum outro menino solitário, ou um video na prateleira de alguns senhores revoltados. Me perdoem, solitários. Allah, me receba em teus braços. Cadê o cinto? Achei.
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