Há quanto tempo? Estranho… Quanto mais paro para pensar, menos consigo chegar à uma data. Foram dois meses, três meses, cinco meses? …um ano? Passo a mão no seu lado da cama, ainda morno. Estava dormindo quando você saiu, provavelmente para o trabalho. Você se despediu de mim? Me deu um beijo antes de sair? Nem no rosto?… Um ano? Caramba, quanto tempo se passou? Há quanto tempo fiquei dormindo e ele foi embora?
Quando nos conhecemos, você era um cara engraçado. Ninguém me fazia rir tanto. Suas histórias de vida, opiniões sobre filmes e literatura e seu jeito peculiar me seduziam como o canto de sereias. Era tudo novidade. Era mais do que prazer. Era amor.
Fizemos amor pela primeira vez e foi muito bom. Apesar do desconhecimento de nossos corpos e da típica falta de jeito da primeira vez da comunicação entre os corpos, foi ótimo. Em algum momento, encontramos nosso ritmo e caminhamos juntos. Quando alcançamos, mais do que um grito do fundo d’alma, foi a sensação fluída de que éramos feitos um para o outro. Todas as nossas partes se comunicavam e se fundiam em uma. Você era meu ídolo. Meu homem.
Que horas são? Já passou do começo da manhã. …nove horas? Há quanto tempo estou deitada nesta cama? …um ano? Quando você foi embora? Saiu de mim sem se despedir. Onde eu estava quando isso aconteceu? Estava dormindo?
A vida seguiu. Fizemos planos, viagens, desejos e trocamos carícias e segredos. Nossas noites não eram mais constantes. Nossas caminhadas não terminavam mais juntas. Seus olhos fechados não pareciam querer se concentrar em mim, mas fugir. Eu olhava para você, respirava forte em seu rosto, mas nada te abalava. Onde você estava? Queria dormir? Queria estar em outro lugar? Outra pessoa? Deixar o seu lado da cama? …morno…
Víamos muitos filmes. Séries de TV. De preferência, sitcoms. Seinfeld, My Name is Earl, The Office, … Toda noite. Após o trabalho. Fins de semana. Com amigos. A sós. Abraçados. Separados. Atentos. Automáticos. Nossos risos talvez soassem forçados. Era como conversávamos nesse momento. Entre episódios. “Quer ver mais um?”, “Que horas são?”, “Como foi com seu chefe hoje?”, “Viu a conta?”. Em seguida, pingue-pongue: “Não”, “Meio tarde”, “Mal”, “A gente tem que economizar”.
Nossos amigos nos salvavam do tédio. Com eles, jogávamos, víamos filmes e conversávamos sobre amigos em comum e cultura geral. Na verdade, eu olhava para eles e sentia o mesmo cheiro enjoativo que invadia meu relacionamento. Talvez não fôssemos pessoas procurando se distrair das outras pela diversão, mas pela distração. Aquilo começou a parecer um grupo de auto-ajuda para solitários. Uma sitcom trágica sobre seres que tem algo engasgado na garganta, mas, por conveniência, mantém aquele bolo lá. E riem alto para esconder a enorme nódoa deformando seus pescoços.
Que horas são? Meia noite? Eu sinto você, meu amor. Sim, você é ainda meu amor. É? Não é preguiça ou falta de vontade. É que não estou a fim. Mas do quê? De sexo? De você? Por alguma razão, prefiro dormir. Permito que você imponha seu amor em mim. Ou seria maneira de amar? Ou de demonstrar amor? Seria falsa? Por que, apesar de todas essas perguntas, ainda alcanço o clímax?
Eu mantinha meus olhos abertos e minhas mãos gentilmente colocadas na parte superior de suas costas. Antes eu afogava em seus ombros largos, agora eles me sufocam. Fazemos o mesmo trajeto, mas escolhemos trilhas diferentes. Eu sei! Você não está comigo. Mas isso não importa durante o sexo.
Quando você saiu? Nem me deu um beijo de bom dia. Ao menos, comprou o pão? Pagou as contas? Você não está comigo. O que eu farei sem você? O que eu farei com você? Nada disso faz sentido… Há quanto tempo vivo apenas do prazer? Cinco meses? Um ano?
Ele me abraça. É uma noite boa. Eu sinto. Acho que ele não sabe, mas caminhamos juntos mais uma vez. Há noites assim. Agora, fico por causa disso e da segurança. Ele é uma boa pessoa. Ainda consegue me levar a plenitude quando quer. Não era mais amor. Era prazer.
Era tudo que precisava naquele momento.
Ela passa a mão no lado dele da cama, ainda morno. Ela não se levantar ainda. Fecha os olhos, leva a mesma mão para o sexo e faz amor. Assim passou a fazer todas as manhãs, antes de ir para o trabalho. Seria uma traição? Encontros com o homem que foi, para, à noite, se envolver nos braços do homem que está? Em algum lugar, ainda resta um pouco de seu ídolo nele. Afinal, ao contrário do que ele acreditava, ela não ficaria apenas pelo prazer. Ninguém vive sem amor.
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1 resposta
Incrível sensibilidade. Muitos não conseguem chegar a essa conclusão porque é difícil reconhecer,mas é verdade. Parabéns pelo texto!
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