Quando ele a viu, esqueceu das coisas em que pensava, que eram resumidamente as seguintes: precisava comprar adubo para a terra, precisava procurar o endereço do neto que estava na Nova Zelândia para mandar-lhe uma carta, precisava aprender a usar o computador para não precisar mais escrever cartas e passar a escrever “imeios” e precisava mais uma coisa que era… era…
mas o que precisava a partir daquele instante – e disso ele não esqueceu mais – passou a ser somente continuar olhando para ela.
E assim ele ficou por cerca de cinco minutos inteiros. Parado junto a uma árvore, estacionado no único pensamento que era: “como ela parece interessante e bonita”. E ficou observando seus cabelos brancos envoltos por uma presilha e caindo levemente sobre os ombros cobertos por um cachecol vermelho, cor que parecia exaltar ainda mais a tristeza que ele facilmente percebia em seus olhos. Via, de longe, a melancolia expressa pela imobilidade contida, pela postura acanhada, pela solidão que sobressaía de seu corpo como um invisível fantasma, um espírito quase independente e autônomo que flutuava sobre sua cabeça estática.
Não. Não ficou assim por cerca de cinco minutos. Foram quase dez, tentando imaginar o que ela pensava, o que ela sentia, tentando refazer sua vida inteira até aquele instante, como havia desembocado ali, os dois rodeados de outros tantos que, como eles, relembravam dia-a-dia mais de oitenta anos de vida, arrependendo-se de algumas coisas que fizeram, lamentando profundamente coisas que não fizeram, esquecendo-se ainda de outras e desejando a juventude de novo.
Depois de dez minutos, ele a olhando e ela olhando o chão, subitamente ela levantou a cabeça em sua direção, seus olhares se cruzaram e ele, não tendo outra alternativa porque não parava de pensar nela, dirigiu-se até o banco branco rodeado de flores roxas e sentou-se ao seu lado.
Nada falou de início e depois, porque ela o olhava esperando alguma reação, ele disse apenas:
“Quando eu cheguei aqui, não queria falar com ninguém. Por isso eu entendo se você não quiser falar comigo. Depois passei a plantar essas flores roxas. Por que roxo é uma cor triste, muito triste. Podemos só ficar assim um pouco, olhando o jardim”.
E eles ficaram alguns segundos olhando o jardim, que ele cuidava, até que ela sorriu e ele notou que a havia atingido de alguma forma
porque ela havia sorrido –
Simplesmente por isso. E quando ela olhou para ele, disse:
“Você cuida desse jardim, não é? É como gostaria que cuidassem de você?”
E ele disse que cuida do jardim sim, mas que não, não é assim que gostaria que cuidassem dele. Isso porque, na verdade, não gostava de precisar de cuidados. Ao que ela replicou dizendo que todo mundo precisa de cuidados, não importa a idade. Todo mundo, inclusive – e principalmente – os mais jovens. Não, não era coisa de idade, ele continuou, e disse que nunca gostou que ninguém cuidasse dele nem quando ele era apenas uma criança. E isso faz muito muito tempo, ele completou, sarcástico, e ela riu de novo, momento em que ele ficou feliz por conseguir afastar a melancolia fantasmagórica de seus olhos.
A partir desse riso breve, eles entabularam uma conversa que foi de cinema a culinária, passando por música e tango, também descobriram que gostavam de fotografia, além de flores, flores vermelhas e também as roxas, claro, e descobriram também que ambos não conseguiam lidar com isso de computador e celular. Já entardecia e uma enfermeira gorducha os chamara para jantar, quando ele percebeu que não sabia seu nome e perguntou, ao que ela respondeu, enternecida:
“Me chamo Luíza”.
E ele disse, “como na música”, e passou a cantar assim: “vem cá Luíza, me dá tua mão…”
Nesse momento, enquanto ele se entretinha na canção, algo em seu rosto,
mais precisamente na maneira como seus olhos se fechavam –
algo ali em seus olhos cerrados fez com que ela se lembrasse de um homem a quem havia amado há muitos anos, quando ainda nem existia a Luíza da música, quando a segunda guerra eclodia e quando, pela primeira vez na vida, se sentiu realmente triste e traída. A primeira vez de tantas outras, não pôde nunca esquecer.
“É você, Joaquim?”
Ele parou de cantar e olhou para ela novamente, desta vez vendo mais do que seus olhos haviam visto até então. Viu a Luíza de mais de sessenta anos atrás. Viu seu rosto fino e desesperançado. Viu sua melancolia eterna e sua saudade extrema. Viu sua decepção.
E viu só isso que a tomava por inteiro – sua decepção.
Ela ficou muda, esperando uma resposta. Ele disse, sim, sou eu, Joaquim e lamento tanto o que houve que não sei o que dizer. Ela também não sabia e resumiu simplesmente falando o que havia acontecido – como se ele não se lembrasse.
Ela falou durante alguns minutos seguidos que não conseguiam abarcar aqueles anos todos. Ela falou do súbito abandono, de não ter entendido absolutamente a razão daquilo, de não tê-lo encontrado mais.
Queria falar da decepção, ela pensou, mas se calou, e como ele nada falasse, ela olhou para a enfermeira que os chamava novamente para jantar com um aceno, levantou-se e saiu andando, sem olhar pra trás, como ele havia feito há sessenta anos.
Ele continuou sentado, vendo-a distanciar-se, sem conseguir parar de observá-la, como se pudesse ali, vendo aquele caminhar trôpego, imaginar “o que teria acontecido se”.
E o que aconteceria agora se ele tentasse se redimir e começasse tudo de novo.
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1 resposta
Puxa,
Gostei da crônica. Tem um quê de triste, mas é muito boa!
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