23 de junho de 2005
Fomos ao motel ontem de manhã. Mais uma vez o pau dele ficou naquela de vai não vai. Mas foi bom. Acho que ele fica um pouco constrangido comigo. Constrangido com tudo, com o fato de eu saber que ele tá traindo a mulher, com o fato de eu saber que ele quer ficar comigo, mas não quer deixar os filhos. Acho que ele pensa nos filhos na hora que tá comigo, por isso que é tudo sempre tão esquisito.
Depois foi normal, tomamos café, falamos um pouco de trabalho e fomos pro escritório. Tudo normal lá também. Tirando que eu tive que apresentar um layout totalmente novo pro brinde da parada, do nada, em cima da hora, e ainda ficaram reclamando comigo que eu tinha que conseguir cumprir o prazo! As pessoas deveriam entender que você só pode escolher duas opções entre as três: bom, rápido e barato. Ou é bom e rápido, mas é caro, ou é bom e barato, mas demora, ou é barato e rápido, mas é ruim. Os três não dá!
Almoçamos juntos, com a Júlia e a Carla também. O Pedro chegou depois e ficou insinuando que a gente tem alguma coisa. Eu fingi que não tava entendendo. Mas as pessoas todas já tão sacando. Não é um problema meu, eu não tenho nem mulher nem filho…
De noite, ele quis ir no Bar Lagoa. Falou “vamos tomar um chopp pra ficar mais tempo juntos”. Eu fui, claro, porque não tem nada que ele peça que eu não faça, porque eu sou uma idiota.
Aí, ficou tudo pior.
A gente tava chegando no bar, no carro, na curva, ele falou “eu não vou beber não, vou tomar coca-cola”. Como assim não vai beber? Foi você que disse “vamos tomar um chopp”. “À, mas eu não posso beber, tí tomando antibiótico”. Ué, por quê? O que você tem? “À, eu sei que eu devia ter te dito isso hoje de manhã, mas em tese eu também nem posso trepar”. Como assim?! “A Flávia tá com uma bactéria ginecológica qualquer, e o médico mandou eu também tomar o antibiótico, pra gente não ficar passando um pro outro eternamente”.
Eu quis matar ele. E quer dizer que passar pra mim pode, seu idiota?! “Não, claro que não, eu não pensei nisso”. Claro que pensou, pensou e deve ter pensado que a bactéria era minha!!! Porque claro, bactéria é coisa de amante suja, não é coisa de esposa limpinha. Sai do meu carro! “Não, não faz isso, a gente não ia tomar um chopp?”. Sai do meu carro agora, seu machista cretino! “Como é que eu ia adivinhar que a bactéria não era sua?” Porra, você se fodeu, eu só não vou te dar a triste notícia de que a sua mulherzinha tá te chifrando e tu é um corno porque ela pode ter pego essa porra dessa bactéria por qualquer motivo, porque ficou um dia de biquíni molhado até mais tarde ou o caralho. Eu fui na minha ginecologista semana passada e os exames deram tudo certo ” essa bactéria não é minha!!!! Ou não era, porque agora você, seu idiota, me passou essa porra!!!
Ai, que ódio. Como ele é idiota. Ele realmente pensou que eu tivesse passado a bactéria pra ele, que passou pra vaca da Flávia. Puta, que ódio. Acabou que ele me convenceu de ficar, porque a idiota na verdade sou eu e a gente tomou um monte de chopp. Eu obriguei ele a beber, pra mandar o antibiótico pro caralho. Agora que eu escrevi isso me dei conta de que não faz o menor sentido, porque se ele não se curar da bactéria, quem se fode sou eu. Mas tudo bem. A gente quase só trepa de camisinha mesmo…
25 de junho de 2005
Hoje de manhã tive análise. Contei o episódio da bactéria pra ele. Ele ficou calado, não emitiu juízo. Mas acho que no fundo ele também tava achando ele um idiota. Mas se fosse com ele, também ia achar que a bactéria era da amante, porque homem é tudo igual. Eu falei pra ele uma coisa. Eu tenho até vergonha de pensar isso, mas talvez tenha um fundo de verdade, ele falou que pode ser meio que por aí. Talvez eu fique tentando reproduzir a história dos meus pais, que eram casados com outras pessoas, se apaixonaram, tiveram um caso e depois ficaram juntos ” e estão juntos até hoje. Talvez esse ideal de romance, essa história linda tenha ficado na minha cabeça como um filme idiota (ultimamente pra mim tudo tá idiota)… Talvez eu queira com ele reproduzir essa história pra poder ter uma filha como eu, que vai refazer as minhas cagadas por mim. As pessoas são muito malucas.
De tarde ele veio falar comigo num canto. “Tá tudo bem?” Comigo tá, e você? Já tá livre da bactéria? “Não faz assim”, ele disse. “Não quero nem saber de bactéria. Quero saber de você.” Ele foi na rua e voltou com um Kinder Bueno pra mim.
Por que que ele sempre consegue resolver as merdas que faz? Por que que eu sempre fico com vontade de ficar com ele de novo? Por que que o que a gente pensa que é amor e paixão e relacionamento é na verdade tão diferente do que isso tudo é no dia a dia? Na vida real? Porque eu não dirijo a história da minha vida real? De que adianta escrever o roteiro, se não sou eu que dirijo? Preciso ter o controle. Mas o que será que eu quero?
O telefone tá tocando. À ele. Vou atender.
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1 resposta
Esse é fantástico, adorei! A personagem feminina foi súper bem feita, se odiando e se contradizendo, mas sempre fazendo o que o cara quer. Muito bom!
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