
Texto de apresentação do volume “Nosferatu” da série de “Livros do Clã”, um dos títulos de RPG (da linha “Vampiro: A Máscara”) publicado pela Devir. Foi lido originalmente no Clube da Leitura por Rafael Pinho, na noite de 15 de setembro, quando fizemos a primeira edição especial dedicada à literatura de horror. Teremos um repeteco no próximo encontro, do dia 17 de novembro, quando Martha Argel e Humberto de Moura Neto mais uma vez elegerão os textos mais horripilantes escritos ou apenas lidos pelos participantes.
Perfeito. Sorrio para o espelho. Dentes perfeitos, cabelos pretos, olhos castanhos, um sorriso que pode ser encantador e perverso. O cabelo meticulosamente penteado para parecer que não está. Casaco de couro, jeans pretos, prataria, botas pretas, maquiagem bem leve. Àculos espelhado para fazer tipo, embora já seja quase meia-noite. Um belo bárbaro à solta na cidade.
Ainda sorrindo, deixo cair a máscara, forçando-me a olhar enquanto o reflexo no espelho se deforma. O sorriso escorre como água, dando mais curvas que um rio de montanha. A roupa bacana volta a ser o que estava na caixa do Exército da Salvação quando a peguei há 18 meses. Ela cobre um emaranhado de membros contorcidos em várias direções, formando uma massa que faria Quasímodo escalar para a torre do sino e rezar por mim. Um dia, aquela coisa ali – essa pilha de cascões gotejando pus por todas as fendas – foi meu rosto. Então sinto o cheiro – um perfume muito diferente do que eu estava usando quando era mortal. “Eau du Nosferatu” dá náuseas até em mim. Fico parado ali e conto até 10, lentamente, como faço todas as noites quando levanto. Para manter as coisas em perspectiva.
Basta. Já estou deprimido e irritado. Ponho a máscara novamente – o Amante Infernal reaparece no espelho. À hora de ir à cidade. Eu sei o que estou procurando, e onde encontrar.
Levanto a tampa do esgoto e escorrego para os túneis adjacentes ao meu refúgio. Os meus dedos cavam o limo, desenhando uma linha na parede. Rastejando na escuridão, ocasionalmente pisando em alguma coisa que esguicha entre meus dedos ou se esquiva. Não demor amuito até que eu ouça o ritmo eletrínico do Clube Nocturne, pairando acima de mim, como música celestial… Ou alguma coisa do tipo. Eu sei que você está em algum lugar aí em cima, pulando na pista de dança como um peixe ferido. Posso sentir seu cheiro.
Há um túnel de acesso para a sala de manutenção da Nocturne, uma que apenas eu e outros Ratos conhecemos – e os malditos Toreador, que pensam que dirigem o lugar. Escalo, como satã arrastando-se para fora do inferno, e emerjo entre fios e detritos. O som me cerca – o ritmo martela a minha cabeça e me irrita ainda mais. Checo a minha máscara – quero parecer bonito para você. Isso. Estou encantador, como fui um dia. Minhas botas inexistentes brilham sob a única luz do teto, e meu também inexistente ankh de prata contrasta com minha camiseta preta com os dizeres “Dead Can Dance”, que aliás também não existe. Minha expressão de asco certamente parece um biquinho pretencioso e sedutor.
Encoberto pelas sombras, saio do almoxarifado, passando direto pelos leões de chácara, que não me vêem porque não quero. Caminho – ou melhor, desfilo – pelo corredor adjacente, saindo na pista de dança, coberta por névoa artificial.
Procuro por você pelas manchas de cores, mudando uma centena de vezes por minuto. Meus inexistentes óculos espelhados refletem púrpura, azul, verde e branco radiante, ao ritmo de “Christian Zombie Vampire” – essa porcaria, e os imbecis dançando ao som dela, me dão ânsia de vímito. Mas, para você, minha reação parece sexy.
Passo por um “mauricinho” miúdo, uma raspa de caixão pálida e envolta numa mortalha negra. Seus cabelos negros, penteados para trás, estão endurecidos com gel fixador, e seu rosto espinhento está coberto com maquiagem branca. Não dá para saber se ele quer parecer com Robert Smith ou com o Coringa. Ele está com uma bebida em cada mão – quando passo por ele, deixo cair a máscara por menos de um décimo de segundo – tão rápido que a informação é passada quase subliminarmente. As bebidas voam pela pista de dança e o rosto do garoto contorce-se em choque. Tomara que tenha mijado nas calças. E aqui estamos nós, Amante Infernal de novo. Volto-me para o garoto e, com um sorriso encantador, confronto seu olhar beatificado. Ele nem reparou os olhares de desaprovação das pessoas ao redor.
Mas chega de diversão. Meu assunto hoje é você. Atravesso a multidão que se amontoa em torno do bar, sentindo olhos famintos deitarem-se sobre mim. Eu poderia ter quem quisesse esta noite. A sua casa ou a minha? Oh, não repare nas pilhas de escremento e nos gatos podres.
Mas eu não quero qualquer um. Quero você. Eu sei que está aqui em alguma parte. Rejeito silenciosamente três olhares sedutores enquanto passo a vista pelo bar. E aí está você, esparramando-se sensualmente à luz estroboscópica.
Ah, você é perfeita. Deixe-me adivinhar. Você tem uns vinte e poucos anos, mas está cada vez mais perto dos trinta, embora finja que não. Durante o dia, trabalha no banco e finge que não, e é por isso que se produz toda como uma estrela de Hollywood, Sim, você é esteriotipadamente adorável, um sonho molhado do Neil Gaiman, uma linda bonequinha vudo banhando-se à luz estroboscópica tentando esquecer o que lhe aguarda – marido, emprego estável, dois filhos e meio, caminhonete, reuniões de pais e mestres e uma casinha de subúrbio onde passará o resto da vida vegetando diante da tevê. Mas vamos deixar isso para o ano que vem, tá? Hoje é dia de espetáculo.
Aposto que você também já leu muita coisa sa Anne Rice. Isso, já leu todos os livros dela! De vez em quando tem fantasias com Lestat, querendo que ele lhe apareça para carregá-la para a noite. Você adoraria ser uma vampira, certo? Isso que seria vida, certo? Sme emprego ou responsabilidade, sem ter que lidar com pessoas inconvenientes, sem rugas ou cabelo grisalho ou pés de galinha. Só uma maratona infindável de sexo em New Orleans, quando o sangue escorreria pelo seu corpo como comida sobre Kim Basinger em 9 e Meia Semanas de Amor.
Bem, essa é sua noite de sorte, meu bem. Você vai viver para sempre. Hoje descobrirá o que realmente significa ser um vampiro.
Espero até os primeiros acordes melódicos de “Tin Omen” para me posicionar à sua frente. Como previ, você fita meus óculos espelhados com um sorriso suave que tenta evocar mistério e revela apenas transparência. Converso com você e digo alguma coisa que não pode ouvir porque a música está alta demais, e você abre um sorriso e ri. Aproximo-me mais de você, e quando This Mortal Coil começa já estamos nos braços um do outro.
Tiro-a da pista de dança, nossos rostos juntinhos. Você já está um pouco tonta, e mais umas bebidas a deixarão bêbada. Não sou d emuito papo, e você simplesmente não tem nada de interessante para dizer, de modo que pulo as preliminares e a convido a sair do CLube e irmos para o meu camaro preto. Você dá uma risadinha e se apóia no meu braço, confiando em mim para guiá-la. Como você já está bem bêbada, e não é muito esperta, só bem depois de entrarmos num beco escuro se dá conta que o estacionamento ficava na outra direção. Quando o primeiro lampejo de alarme brilha nos seus olhos, decido que estou cansado do jogo. Não há ninguém por perto para nos ouvir, querida. Só os mendigos. À hora de tirar a máscara. O Amante Infernal é substituído pelo Inferno Encarnado.
Qual o probelam, querida? Não quer outro beijo? Um bem longo e lento? Ninguém vai atender aos seus gritos, mas eles são terrivelmente irritantes, o que me faz tapar-lher a boca. Empurro-a contra a parede do beco e me inclino sobre você. Quero que você sinta. Quero que tenha medo. Não quero que desmaie, mas que esteja bem consciente.
Você chora e golpeia meu peito com os punhos. Bobagem, querida. À como socar cartilagem. Mas eu não a entendo. Você parece uma vampira, veste-se como uma vampira, age como uma vampira, lê sobre vampiros. E agora eu a apresentei a um vampiro – um de verdade, bem morto. Não quer mais ser vampira? Igualzinha a mim?
Afundo meus dentes em seu pescoço – eu lhe concedo o luxo da mordida tradicional, porque sou um romântico – e os seus gritos abafados decrescem para sussurros. Então não há mais nada além dos seus olhos, como os olhos de um veado iluminado por faróis, olhando para mim com horror e confusão, gritando silenciosamente: “Por quê?”.
Por quê? Eu não sei realmente o porquê. Acho que é porque os babacas como você me deixam doente. E a dor adora companhia.

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