E então que essa garota, no auge dos seus catorze anos, num dia que pra ela não foi tão belo assim, perdeu seu brinco preferido. Não os dois, o que teria sido ainda mais triste mas talvez mais aceitável, mas apenas um. E ela não sabia se tinha sido culpa da empregada, se havia sido a própria bagunça do seu quarto ou se o gato num dia de arrelia jogara o pobre brinco pra detrás do armário, tudo que ela sabia era que a impossibilidade, aquele dia, estava na forma de um único brinco prateado. Não que o brinco fosse realmente de prata, ou que fosse caro ou que tivesse uma história muito importante ” era só um brinco desses de barraca de camelí, mas que ela adorava. E que, agora, não usaria mais.
Ela, como eu disse, era apenas uma garota, mas mesmo as garotas de quatorze anos já têm algo dentro de si que as faz completamente mulheres, assim como mesmo as mulheres mais sérias têm dentro de si uma garotinha que volta eventualmente numa risada no parque ou enquanto elas tomam um milk-shake. E a mulher dentro da garota a impediu de se desfazer do brinco viúvo. Da mesma forma que a impediu de se desfazer, mais tarde, do colar com pingente de estrela ganho do namorado e que arrebentou o cordão. Ou daquele prendedor de cabelo que ela pegou emprestado da melhor amiga da sétima série e nunca mais devolveu. Tudo isso e muitos outros pequenos souvenires, guardados dentro de uma caixa metálica de colomba pascal roubada antes da mãe jogar fora.
Não sei dizer o quanto isso influenciou no fato da garota crescer com essa mania de querer tanto se agarrar a tudo que escapava por entre seus dedos como névoa, ou se ela a mulher dentro dela já tinha esse tipo de nostalgia em que se sente falta das coisas antes mesmo delas irem embora. O fato é que o tempo passou e ela, dia após dia, pessoa após pessoa, tentava em vão achar algo ou alguém em que pudesse se agarrar no seu mundo que parecia, as vezes, preso à vida por um fio tão leve. Mais de uma vez, ela se viu presa à realidade por uma névoa fraca e fina, e enxergou com olhar aguçado como seria fácil desfazer tudo com quem puxa um fio solto de tricí.
Até um dia em que, enquanto esperava uma amiga pro almoço, ela ao invés disso viu dobrar a esquina um outro homem que ela não sabia quem era, mas naquela hora, só pode pensar um “ah, merda”. E nem sabia o porquê desse pensamento. E quando a amiga chegou, esbaforida, ela parou no caminho pra conversar com o tal cara, e durante o almoço que agora era a três, a garota-agora-mulher descobriu que ele tinha feito o colégio junto da amiga e que não se viam há muito tempo, ela não se incomodava dele ter sido chamado pra almoçar também, né?
E muito tempo depois, mas muito tempo mesmo, quando ele finalmente foi embora, ela enterrou no quintal todas aquelas coisas guardadas na caixa na qual ela já não mexia há anos, depois do elo mais importante que a prendia ao mundo foi enterrado numa cova profunda e cinza. E diante do vazio, tudo que ecoava agora dentro do alumínio já meio enferrujado era apenas uma voz grave, profunda como que vindo de muito longe, envolvendo-a enquanto ela fechava seus olhos agora cobertos de rugas. Uma voz que, incessante, repetia e batia nas paredes e voltava, ecoando no cérebro que por sua vez fazia vibrarem os tímpanos ao som de um tom imaginário. Repetindo sempre, sempre, sempre a mesma frase. “Até mais, meu bem…”
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