
Quando abriu sua mão que estava cerrada com força há algum tempo, o brinco de pérola rolou e caiu no chão, um pouco sujo de sangue da ferida aberta pelo machucado feito pelo pino da jóia. Passou as mãos sobre o rosto, para secar as lágrimas que escorriam. Levantou-se da cama, foi até o banheiro, olhou-se no espelho e assim ficou a encarar-se. Seu rosto estava muito inchado e seus olhos demasiado vermelhos de tanto chorar.
Estática, confrontando-se a si mesma, sem saber o que fazer, por onde começar. Incrédula. Sem forças. Esperando, daquela ali a sua frente, uma explicação, uma resposta, uma solução. Tentando reconhecer-se. Aquela, ali no espelho, quem seria agora?
Abriu a torneira e deixou a água escorrer, enquanto apoiava-se com suas mãos na pia, com todo peso de seu corpo. Queria largar-se, porque não estava conseguindo suportar aquele fardo. Não se deu conta do tempo que havia passado, quando lavou com as mãos seu rosto. No peito uma dor, como se algo estivesse o apertando, lenta e incessantemente e sem fim.
Foi até a sala, passando pelo corredor, onde um aparador expunha um porta-retrato com a foto de sua mãe, tirada em Campos do Jordão há um ano, em um colorido jardim de flores. Sua vivacidade transcendia o retrato e era como se ela ainda estivesse ali e pudesse entrar a qualquer momento pela porta.
E sentariam, e tomariam um chá, e conversariam. Ela lhe perguntaria como estava o trabalho, lhe perguntaria sobre os netos e lhe aconselharia a ir ao médico para saber do que se tratava realmente aquela dor constante na coluna, ao que lhe responderia que não era nada, que não havia porque se preocupar; falariam dos últimos acontecimentos, da relutância de seu tio em buscar uma ajuda psicológica para o seu primo, das últimas notícias dos amigos, do novo curso de pintura que se inscrevera.
Lembrou-se que no dia anterior ela estava ali, sentada na mesma poltrona de sempre, folheando um álbum com as fotos antigas da família, com uma certa nostalgia, porém deixando transparecer também um ar de vida vivida, de dever cumprido, de satisfação, de aceitação de eventual fim, porque tudo já fora feito e devidamente feito. Uma leveza. Um desprendimento.
Recordou-se que ontem, por ter marcado um cinema com seu marido, acabou por não dar muita atenção para sua mãe, apressando a conversa para que ela fosse logo embora, já que o que estava a ser dito, poderia sê-lo no dia seguinte, como sempre faziam.
Tanto que não deu a devida importância quando sua mãe, ao se despedir, lhe entregou o brinco de pérolas que há pouco segurava em suas mãos. Aquele brinco que sua mãe ganhou de seu pai no dia em que este lhe pedira em namoro e que quando criança gostava de pegar escondido para brincar, porque achava glamouroso, parecido com aqueles usados pelas atrizes dos filmes de época. Aquele brinco que sua mãe conferia um enorme valor sentimental.
Queria ter desistido de assistir ao filme com Marcos. Queria ter dado um abraço apertado nela, sem nada dizer. Queria ter conversado mais. Queria escutar suas reclamações sobre o novo vizinho barulhento. Queria lhe contar a mesma história que contara ante ontem, porque ela já não lembrava mais. Queria ter lhe dito para não ir. Queria ter lhe dito que não saberia andar sem ela.
Com o porta retrato na mão sentou no sofá e ficou a olhar a foto. Tinha ainda que lhe dizer que o Beto havia passado na faculdade de comunicação, que Priscila ia se casar, que talvez fosse ganhar mais um neto, tinha que lhe levar um presente, tinha que ligar para contar da promoção no trabalho, porque ninguém ficaria mais orgulhosa do que ela, tinha que lhe convidar para um passeio no calçadão da praia. Tinha tudo isso e muito mais. E agora não tinha. E agora não teria. E agora não sabia como. E agora não sabia porquê. E agora não sabia se saberia. Como e quando. Se conseguiria. E agora não sabia mais nada. E agora não queria mais nada. E agora aquela dor.
Ficou assim, parada, por um longo espaço de tempo. Sentada no sofá, com o porta-retrato apertado em suas mãos com toda sua força, como se pudesse. Fechou os olhos, apertando-os também com força e os abriu logo em seguida, como se pudesse.
Ficou assim durante um bom tempo e, de repente, viu que eram quase 18:30, mais ou menos a hora que sua mãe costuma chegar. Então levantou-se, foi ao quarto, pegou o brinco caído no chão, lavou e o guardou na caixa de jóias. Pegou o porta-retrato deixado no sofá e o colocou novamente no aparador, retirando de cima deste os objetos que ali estavam jogados, já que sua mãe apreciava quando a casa estava arrumada, para o caso de. Foi até a cozinha e preparou um refresco de abacaxi com hortelã, o preferido de sua mãe, para o caso de. Passou as fotos da última viagem para o computador, já há tanto tempo na máquina, para o caso de. Esborrifou pela casa o odorizador de ambientes, com cheiro de pêssego, que sua mãe gostava, para o caso de. Arrumou as roupas que sua mãe deixara em sua casa, em uma parte do armário, para o caso de. Outra vez foi a sala e arrumou a manta e a almofada em cima da poltrona que sua mãe sempre sentava, para o caso de. Pís um cd do Frank Sinatra, que sua mãe adorava e sentou-se no sofá, para o caso de.
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1 resposta
Adoro este conto. A narrativa sutil da situação e dos hábitos da personagem cria um clima de intimidade comovente. Muito bonito…
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