Jesse e Celine se conheceram numa viagem de trem quando chegavam a Viena, em meados dos anos noventa. Jesse iria pegar o avião na manhã seguinte de volta aos Estados Unidos. Celine iria continuar no trem até Paris onde morava. Mas Jesse a convenceu a saltar e acompanhá-lo enquanto esperava seu vôo. Tinham pouco mais de vinte anos. Durante algumas horas, entre o entardecer e o amanhecer, caminharam, conversaram, se descobriram, acharam que talvez estivessem apaixonados um pelo outro. Fizeram amor e dormiram abraçados sobre a grama de um típico parque vienense. No entanto, na manhã seguinte, tal como esperado, Jesse pegou seu avião de volta, não sem antes combinar com Celine de se encontrarem seis meses depois naquele mesmo lugar.
Jesse cumpriu com o combinado, mas Celine não apareceu. Então, desolado, Jesse voltou para os Estados Unidos, se casou, teve um filho e escreveu um romance contando a história do frustrado encontro. O livro foi um sucesso e vendeu muito. Em 2004, sua editora resolveu lançar o romance na Europa, em várias línguas e depois de uma turnê de divulgação, Jesse foi para Paris para uma noite de autógrafos e uma pequena conferência na famosa livraria Shakespeare & Co. Jesse ansiava se encontrar novamente com Celine, mas não tinha nenhuma referência de seu paradeiro, uma vez que jamais trocaram endereços. Por um lance de acaso ou de sorte, Celine esbarrou com o livro, estranhou o nome do autor e reconheceu a história narrada como sendo a sua com Jesse, naquela afortunada e inesquecível passagem por Viena.
Celine foi à noite de autógrafos e lá, ela e Jesse voltaram a conversar. Ela explicou que não havia ido a Viena, conforme combinado, pois na véspera de sua partida sua avó falecera. Então, Jesse convidou-a mais uma vez a caminhar pela cidade, enquanto novamente esperava por seu vôo de volta. Porém, desta vez, ele não tinha mais do que duas horas disponíveis para estar no aeroporto. Assim, a partir do Quartier Latin, caminharam ao longo do Sena, fizeram um passeio de barco, enquanto as palavras jorravam da boca de um e de outro, atualizando o que havia sido a trajetória de cada um, a vida que tiveram e aquela que poderiam ter tido. Ele estava casado com um filho, ela namorava um fotógrafo sempre em viagem. Ambos estavam insatisfeitos com os rumos tomados por seus destinos, ambos achavam que o encontro de Viena havia sido um momento definitivo de felicidade, um verdadeiro acontecimento. Celine, afinal, convidou-o para visitar seu apartamento parisiense.
Foi lá, ao som de Nina Simone, que fizeram amor furiosamente, tentando numa mesma noite tirar o atraso de 10 anos. Mas era impossível com tão pouco tempo e Jesse permaneceu em Paris mais duas semanas para selar com Celine a sina inseparável dos verdadeiros amantes. Então, Jesse resolveu voltar a Nova Iorque para divorciar-se de sua esposa, decidido a fixar-se em Paris. Celine, por sua vez, rompeu definitivamente com o namorado bissexto. Mas Jesse não retornou…
Na verdade, Jesse não teve coragem de deixar sua esposa com um filho tão pequeno. Ele não era um homem particularmente valente e se considerava um “cínico”. Jesse havia se apresentado inicialmente a Celine como “um rapaz tão tedioso como outro qualquer” e sua falta de coragem e decisão apenas confirmava este veredito. Celine não reatou com o namorado fotógrafo, mas decidiu que, após Jesse, se tornaria igualmente uma cínica e não mais se apaixonaria por homem algum. E assim foi.
Celine, ao se aproximar dos quarenta, se tornou uma caçadora de homens e teve variados, rápidos mas tórridos relacionamentos. Em 2014, aos quarenta cinco anos, decidiu que precisava afinal conhecer os trópicos e resolveu vir ao Rio de Janeiro, acompanhar a Copa do Mundo de Futebol, esporte de que era fã. Seu interesse, no entanto, era menos o esporte bretão do que o atletismo genésico. Sabia, por amigas, que o Rio era o principal centro de destino de solteiras européias e veio à dita Cidade Maravilhosa no intuito de encontrar um homem que fosse moreno, forte, sensual e morador de favelas, um autêntico malandro, o que estava de acordo com seu trabalho de missionária ambientalista.
Mal sabia ela que Jesse, que havia se tornado um fanático admirador do soccer, também viera ao Brasil, com sua família – mulher e filho- acompanhar a promissora campanha do time americano que pela primeira vez era um real candidato ao título. Infelizmente, o time ianque não jogou, nas primeiras fases, no Rio de Janeiro, e Jesse se deslocou em itinerância pelo país – primeiro em Cuiabá, depois em Fortaleza, em seguida em Brasília. Afinal, o time do Tio Sam teve um desempenho fantástico e se classificou para a grande final contra o Brasil, na cidade carioca.
No dia 21 de junho de 2014, Celine estava no estádio do Maracanã, vestindo uma camisa canarinho, acompanhada de seu novo namorado, Ricardinho Linque Lôko, morador do Vidigal, motorista de van, pagodeiro e ator de teatro para assistir a grande final entre Brasil e Estados Unidos. O estádio estava completamente lotado. Celine ficou impressionada com a grandeza monumental do Maracanã e estranhou que naquele tumulto de gente, barulho ensurdecedor de samba e de fogos, com o coração batendo de adrenalina, as mãos fortemente agarradas ao de seu namorado, tivesse pensado subitamente em Jesse. Há emoções que não se repetem, ela concluiu. Se Jesse houvesse retornado de Nova Iorque para viver com ela, dificilmente estaria ali, naquele momento. Não teria passado pelas 2 semanas de sexo ardente desde que conhecera Ricardinho, um fenômeno sexual. Não teria ido à praia no Arpoador, não teria conhecido a Lapa, não teria andado de bondinho em Santa Tereza, não teria participado de um autêntico churrasco na favela entre traficantes armados com fuzis disparando para o alto.
Celine tinha razão. Os acontecimentos nunca se repetem. Foi o que pensou também Jesse, abraçado a sua esposa e a seu filho, comemorando com uma pequena torcida de turistas, saindo do estádio cercados por policiais fortemente armados, diante de uma torcida furiosa, incluindo um possesso e descontrolado Ricardinho Linque Lôko, o primeiro campeonato mundial de futebol ganho por seu país, numa inesquecível vitória de 3 a 0 sobre o Brasil, em pleno Maracanã, sob a luz avermelhada de imediatamente antes do mais fugidio entardecer.
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1 resposta
Guilherme, prefiro acreditar que Jesse e Celine tiveram o bom-senso de ficar juntos!
Assistí os dois filmes muitas vezes, adoro o diálogo verborrágico, aguçado e bem humorado entre os dois.
Bem, o conteúdo me é tão caro que quase esqueço da forma, e a sua forma de contar está clara e fluente. Só não gostei deste final desiludido que talvez seja um terceiro filme que desconheço.
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