A verdade é que Florentino Ariza estava certo de que ela não tinha voltado, até que o telegrafista de Riohacha lhe confirmou que havia embarcado sexta-feira na mesma goleta que não chegara na véspera devido aos ventos contrários. No fim da semana esteve tentando divisar qualquer sinal de vida na casa dela,e a partir do anoitecer de segunda-feira viu pelas janelas uma luz ambulante que pouco depous das nove se apagou no quarto de dormir da sacada. Trânsito Ariza se levantou com os primeiros galos, alarmada porque não voltara o filho que saíra ao pátio à meia-noite,e não o encontrou na casa. Tinha ido errar pelo cais, recitando versos de amor contra o vento, chorando de júbilo, até que acabou de amanhecer. Às oito estava sentado sob os arcos do Café da Paróquia, alucinado pela vigília, tratando de descobrir um jeito de fazer chegar seus votos de boas-vindas a Fermina Daza, quando se sentiu sacudido por um abalo sísmico que lhe dilacerou as entranhas.
Era ela. Atravessava a Praça da Catedral acompanhada por Gala Plácida, que carregava os cestos para as compras, e pela primeira vez não trajava o uniforme escolar. Estava mais alta do que ao partir, mais perfilada e intensa, e com a beleza depurada por um domínio de pessoa mais velha. A trança lhe havia crescido de novo, mas não lhe pendia mais pelas costas, atirada agora sobre o ombro esquerdo, e esta simples mudança a despojara de todo traço infantil. Florentino Ariza permaneceu atônito em seu lugar, até que aquela aparição acabou de atravessar a praça sem afastar a vista do seu caminho. Mas o mesmo poder irresistível que o paralisara obrigou-o em seguida a se precipitar atrás dela quando dobrou a esquina da catedral e se perdeu no tumulto ensurdecedor das ruelas do comércio.
Seguiu-a sem se deixar ver, descobrindo os gestos cotidianos, a graça, a maturidade prematura do ser que mais amava no mundo, e que via pela primeira vez em seu estado natural. Assombrou-o a fluidez com que abria caminho na multidão. Enquanto Gala Placídia ia aos encontrões, e se embaraçava com os cestos e tinha de correr para não perdê-la de vista, ela navegava na desordem da rua num espaço seu e num tempo diferente, sem esbarrar em ninguém, feito um morcego nas trevas. Tinha estado muitas vezes no comércio com a Tia Escolástica, mas eram sempre compras miúdas, pois o pai em pessoa se encarregava de abastecer a casa, e não só de móveis e comida mas inclusive de roupas de mulher. Por isso aquela primeira saída foi para ela uma aventura fascinante, idealizada em seus sonhos de menina.
Não prestou atenção à insistência dos ambulantes que lhe ofereciam o jarabe, o xarope do amor eterno, nem às súplicas dos mendigos atirados às portas com suas chagas ao sol, nem ao falso índio que tentava vender-lhe um jacaré amestrado. Deu uma volta grande e minuciosa, sem rumo calculado, com paradas que só tinham como motivo um prazer sem pressa diante do espírito das coisas. Entrou em cada portal onde houvesse alguma coisa a vender, e por toda parte encontrou alguma coisa que aumentava sua ânsia de viver. Deliciou-se com o hálito de vetiver dos panos nos arcões, enrolou-se com sedas estampadas, riu-se do próprio riso vendo-se fantasiada de madrilenha com sua travessa e o leque de flores pintadas diante do espelho de corpo inteiro de “O arame de ouro”. (…)
Brincava de fazer compras, sme dúvida, mas aquilo que de verdade estava precisando comprava na hora, com uma autoridade que não deixava ninguém pensar que o fazia pela primeira vez, pois estava consciente de que não comprava para ela só e sim para ele também, doze jardas de linha para as toalhas de mesa dos dois, o percal para os lençóis de bodas que teriam ao amanhecer o orvalho dos humores de ambos, o mais delicioso de cada uma das coisas que desfrutariam juntos na casa do amor. Pedia abatimento e sabia fazê-lo, discutia com graça e dignidade até conseguir o melhor, e pagava com moedas de ouro que os lojistas testavam pelo puro prazer de ouvi-las cantar no mármore do balcão.
Florentino Ariza a espiava maravilhado, a perseguia sem tomar fôlego, tropeçou várias vezes nos cestos da criada que respondeu às suas desculpas com um sorriso, e ela havia passado tão perto que ele sentira a brisa do seu cheiro, e se nem então o viu não foi porque não pudesse e sim pela altivez do seu modo de andar. Ela lhe parecia tão bela, tão sedutora, tão diferente da gente comum, que não compreendia que ninguém se transtornasse como ele com as castanholas dos seus saltos nas pedras do calçamento, ou tivesse o coração descompassado com os ares e suspiros das suas mangas, ou não ficasse louco de amor o mundo inteiro com os ventos da sua trança, o vôo das suas mãos, o ouro do seu riso. Não perdera um gesto seu, nem um indício do seu caráter, mas não se atrevia a se aproximar dela pelo medo de desfazer o encanto. Contudo, quando ela se meteu na balbúrdia do Portal dos Escrivães, ele descobriu que se arriscava a perder a ocasião que aguardara durante anos.
(…) Fermina Daza, pouco perita no uso da rua, mete-se no portal sem muito ver por onde andava, buscando uma sombra que aliviasse o sol bravo das onze. Afuncou na algaravia quente dos engraxates e dos vendedores de pássaros, dos livreiros de segunda mão e dos curandeiros e das doceiras que anunciavam aos berros por cima da bulha as cocadas de pinhas para as mocinhas, de cocos para os loucos, de panela para Micaela. Mas ela ficou indiferente ao entrondo, cativada de pronto por um papeleiro que fazia demonstrações de tintas mágicas de escrever, tintas vermelhas com a sugestão do sangue, tintas de reflexos tristes para recados fúnebres, tintas fosforescentes para se ler no escuro, tintas invisíveis que o pleno resplendor da luz revelava. Ela as queria todas para brincar com Florentino Ariza, para impressioná-lo com seu engenho, mas ao fim de várias experiências decidiu-se por um vidrinho de tinta de ouro. Foi depois às doceiras sentadas por trás de suas grandes redomas, e comprou seis doces de cada espécie, apontando-os com o dedo pelo cristal porque não conseguia fazer-se ouvir na gritaria: seis fios d´ovos, seis de leite, seis tijolinhos de gergelim, seus de iúca e amêndoa, seis de chocolate envolto em papel de sorte, seis piononos de biscoito, seis de tudo e os ia amontoando nos cestos da criada com uma graça irresistível, alheia por completo às grossas nuvens de moscas em cima do melado, alheia à algazarra contínua, alheia ao bafo de suores azedos suspensos no calor mortal. Despertou-a do feitiço uma preta feliz, com um pano colorido na cabeça, redonda e formosa, que lhe ofereceu um triângulo de abacaxi fisgado na ponta de uma faca de açougueiro. Ela o pegou, meteu-o inteiro na boca, saboreando-o, e continuou a saboreá-lo, a vista errando pela multidão, quando uma comoção a pregou no lugar em que estava. Às suas costas, tão perto de sua orelha que ela pôde escutá-la no tumulto, tinha ouvido a voz:
“Este não é um bom lugar para uma deusa coroada.”
Voltou a cabeça e viu a dois palmos de seus olhos os outros olhos glaciais, o rosto lívido, os lábios petrificados de medo, tal como os vira no tumulto da missa do galo pela primeira vez em que ele estivera tão perto dela, mas ao contrário daquela vez não sentiu agora a comoção do amor e sim o abismo do desencanto. Num instante teve a revelação completa da magnitude do próprio engano, e perguntou a si mesma, aterrada, como tinha podido incubar durante tanto tempo e com tanta ferocidade semelhante quimera no coração. Mal conseguiu pensar: “Deus meu, pobre homem!” Florentino Ariza sorriu, procurou dizer alguma coisa, procurou acompanhá-la, mas ela o apagou de sua vida com um gesto da mão.
“Não, por favor” – disse. “Esqueça”.
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2 respostas
Dos livros mais belos q já li. Garcia Marquez detalha tão precisa e delicadamente a estória a ponto de nos fazer sentir dentro dos personagens.
é td perfeito demais nessa história…já li e reli várias vezes…leio mto, variados autores, mas de vez em qd vou lá e releio algumas páginas…me perco nessa história…talvez pq tenho tb um amor assim, encarniçado…mas o meu é um amor sem jeito…
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