Há algumas semanas propusemos um desafio aos leitores do suplemento Megazine, do jornal O Globo. Eles deveriam escrever um texto literário (valia conto, crônica ou poema) inspirado em um dos artigos publicados naquela edição do caderno, e os melhores trabalhos seriam publicados aqui. Por uma falha na comunicação entre o pessoal do sebo, “Deglutição” não foi publicado na época. Mas estamos corrigindo isso agora, já. Mesa posta, bom apetite!
Primeiro dia de férias de Adriana. Quarto bagunçado, malas desfeitas, e tristeza. O que mais uma vestibulanda, futura caloura de história, poderia querer do que visitar ruínas astecas nas férias? Nada mais. E, no entanto, agora realizar seu sonho estaria fora de cogitação. Viagem planejada durante três anos, arruinada por uma gripe de porco. Porcaria!
Se fosse possível, juntaria ainda alguns cobres para rodar o mundo de táxi e fugir sem dar gorjeta ao motorista. Só de sacanagem! Ilusões, ilusões. Desesperança. Não se reconhecia mais com os objetos em suas malas e bolsas. Inutilidades. Era uma mulher sem face, sem coração, sem existência. Sentia-se só, com o palco em trevas, e uma luz fosca fraca que só a iluminasse. Estaria lá sentada, desolada, vítima de uma peça de Ésquilo, e seus olhos, as máscaras da tragicomédia.
Choro.
Choro mudo, gritante, descarado, fugidio. Talvez esse choro fosse resultado do background music no seu quarto – Elephant Gun, do Beirut, sua música preferida desde que vira Capitu e seus olhos de ressaca. Contudo, talvez fosse o tédio a dor dilacerante no peito, talvez a reflexão cronológica dos fatos que a conduziram a não viajar, talvez ambos fossem a causa do choro…
…Mais valia jogar xadrez xinês (com X mesmo, como dizia). Encher o saco produtivamente.
Ah!
E a noite boêmia que está lá fora? Aproveitá-la, sim.
O que não daria para beber e fumar com Mário de Andrade e discutir sobre música, ou, num papo de boteco descobrir o amor com Vinícius, ou mesmo, assistir uma aula de Einstein e perceber a relatividade, que não existem verdades matemáticas.
Ah!
O que fazer? Pode apenas esvoaçar-se ao vento com o senhor do bonfim ou esquecer-se no fundo de uma biblioteca, e não ver o nascer e morrer do Sol, tão essencial e transcendental para as culturas antigas? Só isso e nada mais.
Ah!
Agora era o puro tédio.
Tédio.
Tédio.
Desiste de tudo, desiste de ser, de pensar.
Prefere dormir, e sonhar que não sonha.
Dormir, como quem nada quer, como quem nada é.
Dormir…
Dorm…
Dor…
D…
….zzz
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1 resposta
obrigado por publicar meu texto. abraços libertários
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