Nasci com um coração singular. Desses que aparecem raras vezes a cada geração e que estão sempre destinados à infelicidade. Ou, ao menos, dos que não estão destinados à felicidade completa. Pois meu pecado é querer tudo ” sem termo, limite ou medida, como poucas vezes se quis.
Não confundam meu querer com a mistura de nostalgia e dúvida que dá na maioria dos seres ao pensar nos caminhos diferentes que poderiam ter tomado, aquela de quando você pensa que se tivesse feito isso ao invés daquilo, teria mudado sua vida totalmente e teria feito com que você fosse, hoje, mas feliz, mais bem sucedido, possivelmente mais rico e mais de bem com a vida. Essas são indagações que uma hora ou outra todos fazem, quando questionam suas escolhas e seus rumos. Eu não me questiono. Não mudaria nada da vida que ia escolhendo pra mim a cada dia, ela toda sempre foi vivida da melhor forma possível. O que sempre me agonizou não era pensar em quem eu poderia ter sido, e sim querer estar em muitos lugares ao mesmo tempo, viver muitas vidas ao mesmo tempo, conhecer todos os idiomas, presenciar todas as cenas, sentir todos os gostos, amar todos os canalhas e sofrer como sofrem todas as mães, as dos bons e maus filhos.
Verei se posso explicar melhor. Sempre olhei as pessoas na rua, sempre fiquei fascinada por elas. Cada uma, uma vida diferente. Experiências que podem até serem contadas pra mim, eventualmente, em uma noite qualquer na qual os corações se abrem diante da chuva. Ou que eu posso passar a vida sem saber. E aquele garoto ali com o olhar perdido, gosta do que? Ama a quem? E as pessoas que foram deixadas em outros lugares? Como é possível para mim estar lá e cá? Viver minha própria vida, e viver a vida que também seria boa se eu tivesse ficado. Sentir na pele a sensação do vento contra o rosto as sete da manhã de um dia cinza e o sol passando pelas folhas em dois lugares opostos do globo.
Vivi com a sensação constante de que nada nunca seria o bastante. Se me era dado sorrir, eu queria saber como seria estar chorando. Se me era permitido sofrer, eu queria também festejar. Quando dormia com um homem, sabia que nunca poderia sentir o que ele sentia. Quando passava por grupos barulhentos na rua, queria fazer parte deles. Ao mesmo tempo, eles nunca fariam parte dos meus grupos. Parece bobo. Não é. Querer tudo e nada ao mesmo tempo ” querer o que é seu e querer o que é meu. Talvez mais cruel ainda seja ter consciência disso. Saber que o mundo nunca será o bastante. Que uma vida nunca será o suficiente.
Busquei respostas aos meus desejos impossíveis. Sabia que não seriam me dadas perguntas se eu não fosse capaz de lhes achar a resposta. Primeiro tentei procurar em pessoas, em proclamados gurus ou silenciosos sábios. Erro tolo, achar que a paz do meu coração poderia estar nas mãos de outros tão limitados quanto eu. Depois busquei religiões, ordens secretas nas quais a princípio nem poderia entrar, livros com símbolos secretos que eu não tinha permissão de ler. Mas todas as ditas revelações eram, ainda, intermediadas por homens. Cuja sede não era a mesma que a minha ” eles queriam poder. “Poder” como substantivo, como algo palpável que você ganha de presente, pendura em volta do pescoço e protege para que ninguém roube. Idiotas. Eu queria viver, queria poder não como objeto, mas como verbo. O poder de realizar o que quisesse. O poder se sentir. O poder de viver. Experimentar.
A resposta não estava em homens, não estava em deuses criados por homens, não estava em ilusões feitas de areia. Mas o que era o mundo além de homens controlados por criações próprias e que governavam ilusões? Não sabia. Ainda assim, continuei. Sentia que haveria uma resposta. Em algum momento, em algum lugar.
Até que eu tive um certo sonho.
Foi na noite de véspera de ano-novo. Logo antes da virada, dormi. O sonho se passava numa floresta. Grande, escura e silenciosa. Eu andava descalça e meus pés sentiam as fibras de cada folha seca ou úmida na qual eu pisava. Uma trilha quase inexistente levou-me a um lago, onde um ser maior que eu andava pelas bordas lamacentas. Era humano na forma, mas de uma cor azul-escura, com uma cabeça que se dividia em três faces ” uma olhando para a direita, outra para a esquerda, e a do centro olhando para frente ” e com inúmeros braços. Cada braço segurava uma romã de cor forte, que era mordida por uma das bocas de dentes afiados que, em seguida, cuspia as sementes em direção à terra. Onde elas caíam havia uma luz, um barulho como um estalinho de São João, e logo a semente era engolida pela terra. Só a face do centro cuspia sementes.
Olhei para o ser, mas não tive medo. Ele percebeu minha presença. A face do meio parou de morder romãs e virou-se para mim:
“O que faz aqui, criança?”
Não soube lhe responder. Ao invés disso, perguntei:
“E você, faz o que?”
“Crio. À meia noite de um novo ano, o primeiro momento do que resolveram separar como vidas. Estou preenchendo essas vidas.”
Neste momento notei que no lugar em que cada pequena semente era engolida, um broto surgia, e de dentro desse broto vinham vozes. Cada voz era diferente e incessante, falando de planos, pessoas, vontades, memórias. Como num fluxo desordenado de pensamentos.
“Por que isso?” ” perguntei.
“Porque é a tarefa incumbida a mim. Assim sempre foi, assim sempre será.”
“Mas… como? Como você transforma as sementes em vida?”
Dessa vez, a face da direita me respondeu.
“Eu desejo.”
Agora, a do meio:
“Eu realizo.”
E a da esquerda:
“E eu me lembro.”
Agora, as três juntas:
“Sou um deus, e através do desejo, da realização e da memória, eu crio.”
“Como é possível para você criar, mesmo sendo um deus, se deuses são também criações de uma ou de várias pessoas?”
“Hah! Olha só… que surpresa agradável essa” ” a face do meio sorriu como quem sorri a um amigo que não vê a muito tempo. Me olhou de cima a baixo, e continuou. ” “Você questiona coisas interessantes, filha do mundo. Eu poderia lhe dizer que os deuses são tão reais quanto humanos, mas a verdade é que humanos são tão invenções quanto deuses. Só falham em perceber isso.”
” Tão invenções quanto deuses? Isso não é verdade! Se fosse, poderíamos ter os poderes que quiséssemos, poderíamos voar, poderíamos prever o futuro, eu poderia criar tão facilmente quanto você cria agora, cuspindo essas sementes de romã.”
Ele permaneceu calado. Olhou para o céu, e quando o fez, pétalas de rosas começaram a cair como uma suave neve perfumada. Estendi a mão para pegar uma. Ele me perguntou:
“Sabe por que está chovendo rosas?”
Silêncio.
“Porque eu quis.”
Silêncio. As pétalas tocavam meu rosto, caiam por meus ombros nus.
“Agora me diga, por que você está aqui?”
Eu olhei para o céu, sem saber o que responder. Mas as palavras me foram à boca antes que passassem pela minha mente. Vieram direto do coração, onde eu nem sabia que estavam. E o que, pensei depois, era até muito justo. Claro que a resposta só poderia estar em mim, nunca nos outros.
“Eu estou aqui porque eu quero.”
Ele deu um sorriso com o canto da boca. Foi caminhando sobre a água em direção ao centro do lago.
“Já passou da meia-noite. Os sonhos pro próximo ano já estão plantados. Vou embora.”
Fui correndo atrás dele, andando sobre a água também, o que no momento não me causou espanto algum.
“Não! Espera… e se eu esquecer disso quando acordar?”
“Quer uma lembrança, minha filha?” ” perguntou a face da direita.
“Quero… quero.”
“Mesmo que ela vá ficar para sempre como parte de você, mesmo que você saiba que nuca poderá se livrar do que virá com isso? Mesmo se doer saber que você será sempre incompleta?” ” foi a indagação da face do meio.
“Mesmo assim, assenti.”
“Então uma lembrança você terá.” E a face da esquerda fechou os olhos.
E uma das várias mãos segurou meu pulso esquerdo. Outra mão segurou o direito. Comecei a sentir que eles queimavam, uma dor desproporcional como um ferro quente. Começamos a afundar na água fria. Gritei o mais alto que pude, e quando estávamos quase totalmente afundados o rosto de três faces se inclinou em minha direção e me deu um beijo na testa, e a dor foi tão grande e insuportável que acordei, suando, com os últimos fogos lá fora ainda estourando. Meus pulsos e minha nuca formigavam. Quando olhei para os braços, vi que em cada pulso havia uma marca vermelha que ia enegrecendo. Na direita, o pulso envolto em um desenho de pequenas estrelas formando uma galáxia em miniatura. Na esquerda, uma delicada pulseira de flores azuis gravada na pele. Quando consegui olhar no espelho, havia uma serpente desenhada em minha nuca, na forma de um círculo e que devorava o próprio rabo, num ritual eterno.
Pros amigos eu disse que viajei no reveillon, fiquei bêbada e acabei fazendo essas tatuagens. Quando sugeriram a remoção com laser, disse-lhes que era melhor, no fim das contas, deixar como está, até que era bonitinho. Desde então também deixei de me perguntar como poderia fazer para viver todas as sensações que queria. Ao invés disso, vivo dentro da pele de quem bem entender e realizo os desejos que nunca poderei realizar na vida real. Porque sei que essa distinção é fútil. O que é real e irreal depende unicamente da intensidade com a qual eu vivo. Vou desejando, criando e me lembrando, e passo as noites escrevendo todas as vidas que meu coração quiser que eu tenha.
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