Nossos agradecimentos à Poliana Paiva, que transcreveu este texto e o propís ao Clube no último encontro. Ah, ela também venceu a rodada competitiva – e ainda está me devendo seu conto campeão, para que publiquemos aqui no blog…
Uma professora de Dois Irmãos (RS) perdeu um dos brincos há três anos. Talvez em casa, talvez na rua, talvez no trabalho. Agachou-se no tapete da sala para ver se definia um sinal luminoso. Mexeu com as mãos por dentro das fibras, a exemplo de uma nuca, à procura de um caroço benigno. Não achou. Repetiu o procedimento na mesa do seu escritório. Insistiu e não encontrou, nem com ajuda de salve-rainha.
Extraviar a tarraxa, tudo bem, rouba-se de um outro brinco. Mas o brinco escapuliu de sua orelha de repente. Sem nenhum esbarrão e aviso. Ela notou bem mais tarde, antes de dormir, quando não lembrava da última vez que o vira e tocara. Não adianta comprar outro, pois, o que fazer com o que ficou?
Ainda hoje ela anda com o olhar enviesado ao chão, na esperança de completar o par. Carrega o brinco solteiro na bolsa. Nunca mais tirou dali ” nem pretende. Na conversa que entra, já traz a esperança de reaver o brinco. Como se fosse possível ele ressurgir em uma cidade diferente, numa casa estranha.
A professora é a encarnação de toda mulher que espera encontrar um namorado, um marido dentro do namorado, um amigo dentro do marido. Se tivesse perdido a fé, teria posto o brinco solitário numa címoda, numa gaveta do armário, para não mais costurar seus cabelos. Mas ela não desiste. Não se entrega. Carrega a peça como um santinho, um prendedor de cordão umbilical, um broche de família. Não que precise de um homem ou de um brinco, precisa de si mais um pouco.
Cada mulher tem uma jóia solteira na bolsa e vai conferir se não acha o conjunto pra concluir o rosto.
Até porque a orelha volta a fechar sem o brinco.
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