Quem me contou sobre o indiano, o Dr. Banerjee, foi a Drica. Era a maior novidade. Você ia lá , ele te hipnotizava e você revivia o que você quisesse. Ela me disse que foi lá pra rever a Capela Sistina vazia. Sei!
Liguei pra marcar hora. A atendente perguntou se eu queria reviver um período maior que três meses. Maior é R$ 800,00, menor, R$ 500,00. Eu não precisava de mais dois dias. Melhor pra mim.
Ansiosa do jeito que eu sou, sempre chego um pouco mais cedo nos meus compromissos. Desta vez, exagerei. Cheguei uns quarenta minutos adiantada. A sala de espera, luxuosa como um hospital público e enorme, estava repleta. Bem ao fundo, atendendo a uma fila de umas oito pessoas, a recepcionista. Ela contrastava com a decoração num chiquérrimo conjuntinho lavanda. Chegou minha vez.
“Oi. Boa tarde. Eu sou a Camila das quatro e quinze. Esse pessoal todo vai ser atendido pelo doutor?”
“ Vai, mas não se preocupe, cada sessão não dura mais que cinco minutos. Além disso, ele atende a dez ao mesmo tempo.”
“O Doutor tá rico, hem? Também, com esse nome de banco.”
“Se ele for charlatão eu mato a Drica. A televisão, pequenininha, diga-se de passagem, passava um filme sobre um cachorrinho achado por um menininho que na verdade era um E.T.zinho. Voltei à recepção.”
“Tem alguma coisa para ler?”
No outro extremo da sala, uma pilha de “Caras” e outra de “The American Hypnosis Journal”. Eu preciso ler “Caras” de vez em quando. Meus clientes vivem pedindo sofás iguais ao da piranha ou do veadinho em evidência ou fora dela.
A recepcionista chamava os clientes com um desagradável microfone anasalado. Nos levantamos, eu e os outros nove otários das quatro e quinze, e fomos para a salinha ao lado. Lá havia dez cadeiras destas de cursinho pré-vestibular e um ar-condicionado excessivo. O Doutor, que podia ser um galã se não fosse pelo tom roxo de sua pele e o bigodâo, nos deu boas vindas cumprimentando cada um de nós. Nos sentamos e ele não perdeu tempo.
“Boa Tarde. Por favor, olhem para esta mandala fixamente e contem até cinco.”
Um, dois, três… Estou diante de um espelho e com o corpo lindo que eu odiava nos meus dezesseis anos. Como eram ridículos os biquínis naquela época. Dr. Banerjee é um gênio.
“Camila! Vamos!”
É a minha colega de cursinho argentina, Mirella. Estamos em sua casa em Búzios. Eu sei muito bem o caminho que devo seguir até encontra-la no Bugre de seu pai, Mariano. Se ele disser “Vamos a la playa” eu completo “Ô,ô,ô,ô,ô,ô!”. O sol está forte. Vamos pra Geribá. Nunca tinha ouvido falar. Mariano, há poucos anos, havia comprado uns casebres de uns pescadores de lá e acabara de revendê-las para um milionário. Filho da puta! Deve ter enchido a burra. Chegamos naquela praia selvagem. Mi e eu corremos até a água gelada. Não sei como suportava esse gelo. Queria poder sair não agüento o frio. Não tenho controle. A cabeça não quer pensar o que eu penso e minhas pernas não me levam aonde quero ir. Este negócio de hipnose é muito louco. Como era gostoso poder sentir prazer nestas condições. Mariano estira-se numa toalha evidenciando seu peito robusto. Lembro-me bem: “Tio Mariano, no, por favor!”
Hora do almoço. Mariano tirou a churrasqueira do bugre e fez um “asado” de primeira. Nossa, isto era muito bom. Mariano, com seus quarenta e pouquinhos, é um gato, eu só o achava, então, um coroa bem conservado. Ele não está muito concentrado no seu churrasco. Mastiga o “ojo” como se fosse a mim. Não tira o “ojo” de mim. Dos velhos sem vergonha que até então se engraçaram comigo, era o mais bonitinho. Mi sugou o espetinho limpando os últimos vestígios de sangue. Boceja.
“Ai, comi muito. Tô com sono.”
Vai para uma das casinhas que já não pertencem ao seu pai. Mariano vem logo. Sorri.
“Tava gustosso, gatinia”
Argentino dando uma de surfista carioca é sempre muito engraçado. Eu teria rido do mesmo jeito, hoje em dia. O frio da água ainda faz efeito e eu bato o queixo. Vou ao bugre e pego a minha toalha. Mariano só de butuca. Estiro-a e deito-me sobre ela e pegar um sol. Espanto o frio e pego um bronze.
É agora. Estou de olhos fechados. Sinto que há uma sombra. Não é uma nuvem. É Mariano se jogando em cima de mim.
“Gustossa!”
Até então, minhas únicas experiências foram com dois inaptos e um insolvente. Tentar com alguém mais experiente não me parece má idéia. “E eu disse “sim””.
Espera aí. O que são estas lambidas? Meu cachorro é melhor lambendo os dedos dos meus pés. Porra, que argentino de merda. Aposto que fala “clítoris”. Que é isso? Que bruto. Como ele é pesado. Que barba grossa! Como é que eu consigo gozar assim? Goza logo!
Acho que matar saudades é isto.
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1 resposta
ótimo, ainda mais pensando o andré nesta perspectiva feminina…
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