Inspirado em um fragmento do romance “A última palavra”, de Carlos Eduardo Leal. Lido no encontro de 11/08/2009.
Tarso fecha os olhos. À 1989. Ele e Camila estão deitados na cama, abraçados. O rádio toca “So far away” do Dire Straits. Está quente e uma tonalidade alaranjada os cerca, efeito do sol nas cortinas creme logo atrás deles. Eles estão vestidos. Camila dorme. Ele sorri, prestes a se juntar a ela em outro lugar. Em pouco tempo, a noite os envolverá, escondendo-os dos males deste mundo. Em algum lugar tão distante, ficarão juntos, para sempre.
Tarso abre os olhos. À 2009. Ele está sentado numa poltrona. Ao seu redor, pilhas de jornais, revistas, livros, tudo com toque de poeira. Há tempos que ele não se incomoda em arrumar o quarto alugado. No final do bloco onde mora, alguém escuta “Phantasie und Fuge” de Bach. O dia está nublado e uma brisa sutilmente fria, mas nem por isso, menos incímoda, insiste em entrar pelas frestas da janela. A sensação é uma lâmina fina e gelada fazendo pequenos cortes em seu rosto. Ele fecha os olhos, esperando que vá embora. Na escuridão, o frio cortante sumirá. Daqui a pouco, ele terá de sair. Para sempre, tão distante.
Você me ama?
Claro!
Tem certeza?
Sim, tenho.
Juntos. Para sempre.
O apartamento era novo. Seria o primeiro inquilino? Um quarto, cozinha, sala para visitas, mobiliado… Nada mal para alguém que estava na cidade há menos de um ano, pensou. Ainda tinha uma vaga na garagem! Nada mal mesmo! Enquanto o dono lhe passava a chave, Tarso perguntou se a história do suicídio era verídica.
Não, Tarso não era o primeiro inquilino. Antes dele, um casal ocupou o local por três meses. Eles eram jovens e pareciam felizes. Os vizinhos os consideravam simpáticos e prestativos. Um dia, por razões desconhecidas, eles ligaram o gás e cometeram suicídio.
Camila surge chorando. Tarso estava vendo o debate na televisão e se assusta com a porta batendo. Ele se levanta do sofá e vai em direção dela. Tenta beijá-la, mas é empurrado.
Sai de perto de mim!
Tão distante…
Opa, obrigado!
De nada!
Ela o olha, com um sorriso se formando no canto esquerdo da boca. Pergunta se ele é novo no prédio. Ele sorri, encantado, e responde que sim. Tarso. Camila. Por coincidência, ela também ia fazer compras no mercado. Ele pede sua ajuda, pois é novo no bairro e não conhece o comércio local. Ele procurava um lugar decente com preços idem, mas achou melhor não dizer nada. Seu salário era razoável, mas não permitia o luxo de gastos cegos. Ele não conseguia deixar de olhar o sorriso dela. Camila. Resolveu perguntar o que ela achava da eleição que se aproximava.
Tem certeza?
Sim, tenho.
Mas como foi…?
Uma transfusão de sangue. Para sempre?
Ele sai do elevador. O prédio está em reformas. Poeira no ar. Trovão. Chuva começa a cair, delicada e insistente cortina de lágrimas. Ele encara a porta. O corredor amplia a distancia, como numa ilusão de ótica cinematográfica, esticando o vertical e achatando o horizonte. Ele checa as horas no visor do celular. O analista abre a porta.
As sacolas de compras estão no chão, ao pé da mesinha do bar ao lado do prédio. Eles falam de política, o tempo e música. A conversa é absolutamente banal, mas o mundo parece ter congelado numa polaróide de leveza e felicidade. O casal não articulou desta maneira, mas sentiu. Enquanto bebiam cerveja, se encaravam como o atestado de que a inocência não morreu e um novo e maravilhoso mundo nascia. Eles eram o símbolo de uma mudança para tempos mais justos e prósperos. Eles se apaixonaram. O resto do planeta ficaria tão distante enquanto eles estivessem para sempre juntos.
Uma sombra bateu sobre o casal. Camila e Tarso estavam juntos há três anos. Agora, ela estava doente de uma doença que ele nunca imaginou que os alcançaria. Isso era coisa de pederasta, não deles. A doença da promiscuidade, infiltrando um organismo saudável, inoculado pelo amor… Ela iria morrer e matá-lo em seguida. Não assassiná-lo. Mas ele não poderia ficar sem ela. Não poderiam ficar separados. Sem Camila, não haveria mais mundo para Tarso. E ele não ficaria para vê-lo.
Ainda pensa nela?
Sempre. Juntos. Para sempre.
Foi em 88, não foi?
Tão distante…
À. Saiu em todos os jornais, não leu?
Se a vida em comum era uma noção moribunda, a morte conjunta era a única iniciativa. Um pacto de amantes, a maior prova de amor. Romeu e Julieta. Ficariam juntos. Para sempre. Eles se vestiram e deitaram na cama. Um lugar tão distante.
Juntos. Para sempre.
Eu rompi com o pacto!
O gás se espalhava pelo apartamento, uma correnteza gentil que os embalaria na saída deste mundo. Iriam para um lugar tão distante que seu amor seria preservado e nada os impediria de encontrar um tipo de utopia. Camila adormeceu. Ele a olha e sorri. Subitamente, algo estala no coração de Tarso. Para sempre… Ele não poderia. Não havia sequer chegado aos 30 anos, como faria isso? Tinha muito tempo pela frente! Ele se levanta, tonto. Bate no rosto para permanecer acordado. Consegue. Após abrir as janelas, vai em direção a Camila. Ela dormindo, ele desperto. Ele a beija com os olhos lacrimejando, ela, agora, tão distante. Camila… Tão distante…
Você me promete?
Para sempre.
Juntos.
Naquela noite, os vizinhos reclamaram de cheiro de gás vindo de um dos apartamentos. Quando arrombaram a porta, encontraram um homem nu, magro, de olheiras, morto em uma poltrona. Ele não tinha muitos pertences, exceto roupas, uma televisão, um computador e muitos livros. Dizem que ele se sentia culpado. Uma forte brisa assobia e chicoteia as pessoas, derrubando a foto de uma mulher.
… tão distante.
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