Inspirado em um fragmento do romance “A última palavra”, de Carlos Eduardo Leal. Lido no encontro de 11/08/2009.
Amarrei a bicicleta num poste de luz em frente ao seu prédio, ainda surpreso pelo convite para subir. Você sempre foi o mais simpática possível comigo, e oficialmente não teria mesmo motivo para não ser. Na frente de todos, continuamos sendo os bons colegas que sempre fomos. Mas os todos nunca souberam como é quando a gente se encontra pelos corredores da faculdade, os dois namorando com outras pessoas, e a tensão que se forma entre nós, que embrulha meu estômago e que eu sei que também revira o seu. Por isso eu achava que, dessa vez, você viria me entregar o que eu vim buscar, dar dois beijinhos na bochecha e tchau.
Nas últimas férias você fez sua viagem dos sonhos, Japão. E, como ganhar dinheiro em cima dos adolescentes j-rockers cariocas não é difícil (você sabe pois foi um deles), trouxe vários souvenires e cacarecos de bandas e da cultura, que foram colocados à venda num álbum do orkut. Eu vim comprar uma dessas lembranças pra mim e outra como presente para minha namorada, na minha esperança de que ela passe a gostar tanto dessas bandas quanto eu. Começamos a conversar amenidades, e a conversa corre como o medo de deixar o silêncio tomar conta. Você, como boa anfitriã, me acomoda na sala, e eu sabia que não iríamos conversar no seu quarto. Não, nunca mais no seu quarto. Por causa da última vez em que estive lá e nós não conseguimos controlar o silêncio, porque eu não confio em mim mesmo quando estou ao seu lado e você também não confia – nem em mim nem em você.
O telefone toca e você sai da sala um instante para atender seu namorado que quer conversar alguma coisa. Não tenho ciúmes dele, nem sei dizer se tenho inveja. Ele está com você e isso, bom, deveria fazer com que eu me sentisse mal, você poderia ter sido a mulher da minha vida. Se eu não tivesse sido tão indeciso, se eu não tivesse sido tão fiel a um namoro sem amor quando você estava livre. Se não houvesse o peso da minha infidelidade pairando no teto do quarto, como uma camada velha de fumaça. Será que, então, você teria ficado? Eu perdi você, mas não a agonia que você me causa. Agonia dos olhares rasteiros enquanto ninguém mais está vendo, o peso da impossibilidade mesmo depois de tudo consumado, peso que parece que vai ficar nos meus ombros pra sempre.
Quando você volta e se senta de novo na outra ponta do sofá é como uma bomba de luz que me cega, e começo a tatear a mochila, atordoado, em busca de um remédio qualquer pro meu mal-estar físico. Só pro físico, já que sei que enquanto estiver no mesmo ambiente que você, o mal-estar nunca vai ir embora. Por toda aquela época, por tudo que eu nunca deixei passar. E, enquanto engulo comprimidos com um copo d’água que você trouxe correndo e me perguntando se estou bem, ganho consciência de que nunca mais entrarei na sua casa. E percebo que, na verdade, o que eu mais gosto em você é como você sempre me fez mal.
Artigos Relacionados
2 respostas
Muito bom.
concordo com ronaldo, ótimo conto, como sempre com um grande título. e mais valorizado porque escrito na perspectiva masculina, aliás perfeita.
Deixe seu comentário