Isso tudo aconteceu há muito tempo. Não lembro qual era a contagem dos anos, mas foi algum tempo depois de meu pai morrer. Algum tempo depois de ter me tornado rei.
Sempre fui muito inquieto, sempre quis entender algo que até hoje não sei muito bem o que é. Como nunca soube, buscava entender tudo: dias e noites enfurnado nas vastas bibliotecas do palácio, ouvindo os que se diziam sábios vindos de longe, aprendendo as artes da física, matemática, astrologia, filosofia, religião, ciências ocultas. Mas nada me bastava.
Até que um dia, por um motivo estúpido ” e no final, todos os motivos pra se morrer são estúpidos ” meu pai se foi. Ele era amado, mesmo com eventuais problemas políticos, e posso dizer que a cidade sofreu com sua partida. Eu mesmo sofri muito, mas mal havia terminado o luto, o conselho veio com a notícia de que eu, como primogênito, deveria reger o povo. Protestei, bati o pé, disse para deixarem o cargo com meu irmão, ele era poucos anos mais novo que eu, mesmo que eu não o achasse tão inteligente. Ele passava os dias no campo, ou nas estalagens ou nos salões, sempre conversando com alguém, até mesmo com as crianças. Sempre achei conversar com crianças uma perda de tempo ” se eu sei mais que elas, elas não podem me ensinar o que quer que seja isso que está me faltando. E eu não me preocupava com nada além disso que não me dava paz de espírito por eu não saber o que era.
Não adiantou, mas eu também não agí¼entei muito. Não conseguia me concentrar, e as pessoas sempre vinham balbuciando como crianças ou implorando como velhos, não me deixavam ouvir meus pensamentos. Uma noite, deixei um bilhete embaixo da porta do quarto de meu irmão no qual o nomeava rei e vim para cá, para esta gruta escondida no meio da floresta. Ainda não havia descoberto o que queria, mas ao menos tinha paz para pensar. Ou tive, durante um tempo.
Um dia, enquanto eu pescava, surgiu não sei de onde um garoto. Devia ter uns dez, onze anos. Do meio do mato, sem a menor aparência de medo. Atrás dele, um cachorro marrom. Os dois, menino e cachorro, me viram e vieram em minha direção. O menino ficou me olhando, não disse nada. O cachorro parecia imita-lo.
“Oi”, ele disse.
“Oi.”
“O que você tá fazendo?”
“Pescando.”
“Ah…” ” fez uma pausa, como se pensasse em algo muito importante. ” “Eu e o Bisteca podemos sentar por aqui?”
“Eu não me importo, se vocês não se importarem.”
Havia algo de estranho naquele garoto sem pais, sem medo, só com uma roupa gasta e um cachorro. Mesmo assim, ele ficou lá, vendo as escamas de peixe brilharem contra o sol. Quando eu voltei, ele me seguiu para a gruta. No geral era silencioso, então não me incomodava muito, só de vez em quando ficava batendo papo com Bisteca, o cachorro. Um dia, lhe perguntei dos seus pais e ele disse que não tinha. Perguntei como fora parar na floresta, ele desviou o assunto. Um dia, me pediu:
“Você sabe contar histórias?”
“Ah?”
“À, contar histórias. Todo adulto sabe contar histórias.”
Eu nunca havia contado uma história antes, mas acho que na hora fiquei tão desconcertado que comecei a falar pra ele sobre as constelações. No dia seguinte ele me pediu de novo, e falei de mitologia grega. O assunto do terceiro dia foi a origem de alguns nomes comuns. Virou um costume. Aprendi a contar histórias.
No fundo eu comecei a gostar do tal garotinho ali. As vezes, contando histórias pra ele, eu me esquecia da tal busca que me atormentava. Outras vezes, quando pensar já fazia minha cabeça doer, vinham ele e o cachorro jogando gravetos e rindo um pro outro, e eu parava pra olhar. Fazia bem.
Até a madrugada em que, pela primeira vez, ouvi o Bisteca latir. Desesperado. Acordei ainda meio sonolento e ele insistia em me puxar. Quando finalmente chegamos, encontrei o garoto caído no chão, sangrando, atacado por alguma coisa que eu não havia visto, num estado no qual eu já não podia salva-lo. Ele estava de olhos fechados.
“Acorda… acorda…”
Nada.
“Não pode ser… você é tão novo, nunca teve nada…”
Nessa hora ele entendeu o que eu quis dizer. Soltou um sorrisinho com o que eu imaginei ser o resto de suas forças.
“Tive sim… tive o Bisteca, sempre foi meu amigo. Você também, virou meu amigo. O que quer dizer que… que você e o Bisteca são amigos de algum jeito. Diz uma coisa… cuida dele… cuida dele pra mim?”
“Fica quieto, descansa… cuido, cuido… você deixa eu cuidar dele?”
O sorrisinho fino de novo, ele cada vez mais fraco…
“Eu não me importo… se você… não se importar…”
E foi assim. A gente só descobre quando perde. Eu havia encontrado o que tanto buscava, e só percebia agora que acabara de perder. Eu já sou um velho, Bisteca. Mas você é novo. Vamos andando. Talvez, um dia, retornemos à cidade. Talvez ainda haja gente por lá. Amigos. Talvez eu ainda tenha muito o que aprender.
Artigos Relacionados
Seja o primeiro a comentar
Deixe seu comentário