“Para esse deus, a condição divina é uma situação sem saída e, tendo compreendido essa situação, entra em desespero. Sim, mas o deus desesperado não será o homem, meu caro Kelvin? Você está falando do homem… e essa não é apenas uma péssima filosofia, é também uma péssima mística” .
O autor, que passara o domingo inteiro lendo, exceto durante o almoço, momento em que conversava com a esposa sobre as notícias jornalísticas, fechou o livro e andou até a janela onde passou a observar as poucas pessoas que ainda caminhavam àquela hora da noite. A esposa já se preparava para dormir, e dando-se conta de que já era muito tarde, o autor sentou-se em seu escritório, determinado a proceder a grandes alterações em seu projeto.
Como um reflexo do familiar barulho das teclas do computador, a voz feminina ecoou do quarto de dormir, perguntando o que ele fazia. “Mudanças” ele gritou efusivamente, “estou trabalhando, querida”.
O autor estava decidido a matar Kevin, seu personagem. Na verdade, o autor tivera uma idéia melhor, não mataria Kevin, mas Kevin deixaria de ser Kevin. Kevin não seria mais um homem de quarenta anos, jornalista americano residente no Brasil, separado, que ocasionalmente saía com uma mulher chamada Alícia. Kevin também não seria pai de Ludmila, que, por sua vez, foi estudar desenho industrial em Oklahoma e arrumou uma namorada suíça que canta em bares americanos nos finais de semana. Kevin não seria mais Kevin. Kevin não teria mais nome e seria chamado apenas de “personagem”. Kevin poderia ser qualquer homem, que ora sai com uma mulher, ora com outra, ora com outra ainda diferente. Kevin seria agora vários personagens diferentes, no objetivo de expressar o pensamento de sua geração. Kevin poderia ser qualquer pai, pai de qualquer jovem americana ou francesa, brasileira ou italiana, hetero ou homossexual. Kevin seria a partir de agora o personagem emblemático de uma geração. E a história de Kevin não seria mais dele, seria a história de sua geração.
O autor teclava violentamente, exibindo um prazer quase sexual, tecla após tecla: delete, backspace, enter, Ctrl+U:
Localizar: Kevin
Substituir por: Personagem
Quando o ponteiro do mouse apertou “substituir tudo”, o autor ouviu uma voz saindo da caixa de som.
“ei”
O autor, a princípio, achou que fosse sua esposa, falou “querida?”, e prestou atenção na respiração pesada que provinha do quarto de dormir. Depois, ignorou o ruído como se fosse um defeito do Microsoft Word e continuou teclando sem parar.
“ei, autor”
O autor parou a digitação.
“ei, autor, sou eu, o Kevin, seu personagem”
O autor riu. Devo estar sonhando, pensou. Levantou, pegou um copo de leite gelado, olhou em volta da sala e sentou-se novamente em frente ao computador.
“autor, você não pode continuar com isso!”
“Kevin, é você?”.
“sim, sou eu. Depois desse tempo todo, veja o que você resolveu fazer comigo!”
“Kevin, isso é ridículo…”
“Ridícula é sua idéia de acabar comigo. Você sabe bem que eu sou você, na verdade, seu alter-ego. Que pretensão absurda escrever a história de uma geração”.
“Kevin, não é nada pessoal. Eu preciso fazer uma experiência. Não posso continuar escrevendo a mesma coisa seguidamente. Sou como Woody Allen, só falo de mim, de mim. As pessoas estão cansadas. Preciso acabar com isso”.
Kevin e o autor discutiram por horas sobre o romance tradicional e o romance moderno, pós-moderno, novo, velho, sobre o personagem e sobre a história. Kevin falou de grandes personagens literários, falou sobre Mrs. Dalloway e Virginia Woolf, Leopold Bloom, Stephen Dedalus e James Joyce, falou sobre o próprio Stanislaw Lem que o autor estava lendo quando surgiu em sua cabeça a idéia estapafúrdia de acabar com seu protagonista. Mas o autor, em resposta, citou Kafka, Beckett, e explicou as noções do nouveau-roman de Robbe-Grillet. Kevin disse que o autor sabia escrever histórias e criava bons personagens. O autor replicou que queria escrever uma anti-história e seu personagem teria que simbolizar qualquer homem de sua geração. Kevin disse que isso seria impossível porque ele não conseguiria dar conta de todo o pensamento daquela geração. Kevin estava triste. O autor estava aborrecido. E disse:
“Kevin, não estou agüentando. Já falei tudo o que tinha pra falar. Só estou me repetindo. Tenho necessidade de criar mas não sei mais o que escrever”.
“Você compreendeu essa situação e entrou em desespero. Você é um deus desesperado, autor”.
“E o que eu faço agora, Kevin?”
Kevin deu de ombros, e o autor nada ouviu.
“Kevin, o que eu faço? O que eu escrevo? Não sei o que fazer agora”.
Mas não ouviu mais resposta de Kevin.
Desesperadamente, autor clicou diversas vezes sobre o botão “desfazer digitação”, até que todos os “Kevins” voltassem à tela. Amanhecia quando sua esposa acordou para ir ao banheiro e encontrou o autor falando com seu computador:
“Kevin, Kevin, me ajuda, Kevin. O que eu faço? O que eu faço agora?”.
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A citação que inicia o conto é de “Solaris”, de Stanislaw Lem.
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1 resposta
Esse eu achei ruim.
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