Faltavam poucos minutos para o sol sair de gêmeos. Nenhum signo é pior do que este. Geminianos são indecisos, imprevisíveis, inconstantes… enfim, insuportáveis, quando não perigosos. Está certo que os cancerianos com freqí¼ência são piegas, mas nada é pior do que um geminiano. Certa feita, vi uma geminiana ficar cinco minutos em frente a uma prateleira de supermercado repleta de latas de molho de tomate decidindo qual delas compraria. Tal irresolução e incapacidade de iniciativa faz com que todos os geminianos que conheço sejam uns fracassados. E não pensava de outra forma aquela mulher prestes a dar à luz.
“Força, força!”, gritavam. Ao contrário, ela distendia todos os músculos e respirava profundamente, estufando ainda mais a enorme barriga. Nada de respiração cachorrinho. E os olhos no relógio. Não parava de perguntar à enfermeira ao lado que horas eram. A profissional ficava chocada. Não entendia como alguém prestes a parir podia estar tão preocupada com o horário e tão alheia à situação.
Quando a dor feria sua determinação, a parturiente pensava nas qualidades dos cancerianos e nos defeitos dos geminianos. Lembrou-se de uma canceriana sua conhecida que enriqueceu lendo a aura das donas de casa do Leblon.
Eis, então, que o obstetra surgiu ao seu lado, exasperado, mas controlando a altura da voz: “o que tá havendo!?! Você fica indiferente a tudo que acontece! Eu falo pra fazer força, você relaxa, eu digo pra respirar rápido, você parece estar na aula de ioga. Você tá achando que isso aqui é alguma palhaçada? Saiba que sem o adequado atendimento médico as chances de morte no parto são muito maiores. Então, colabore, se não quiser arriscar sua vida e a do seu filho!”. Ela não obedeceu. Preferia dar à luz a um cadáver do que a um geminiano. Este débito ela não carregaria para sua cova.
Mas o bebê, cansado de esperar a ajuda materna, impulsionou-se para fora, e a cabeça começava a despontar, quando sua progenitora sentou-se e num rápido golpe empurrou-o novamente para dentro, estarrecendo os presentes.
“À o estado puerperal!”, gritou o médico. “Bota pra dormir!”. Em instantes o anestesista deu-lhe uma agulhada.
O pai sabia das crenças da mulher. Ouvindo aquela ladainha por nove meses, acabou por ficar parcialmente convencido. Contudo, presente ao nascimento, agoniou-o vê-la empurrar seu filho, que queria respirar o mundo, de volta para suas entranhas. Terminado, com sucesso, o parto, foi ter com o médico. Explicou-lhe as razões da esposa e disse que apenas vinte minutos separavam o sol da constelação de Câncer quando o neném nasceu. Se ele colocasse o horário no prontuário vinte minutos mais tarde, faria uma mulher feliz. O médico negou-se. Disse que aquilo não era ético, mas o valor de sua ética era de mil reais por minuto.
Raul era o nome do novo canceriano, bradava a orgulhosa mãe. A soberba era não só pela beleza e saúde de sua prole, mas pela sua coragem e força de vontade em segurar o máximo que lhe permitiram, em prol de trazer ao mundo um homem melhor. Contudo, a envaidecida mamãe desconfiou que algo tinha saído desconforme o script quando, perguntado sobre qual presente queria para seu quinto aniversário, Raul, tal qual um geminiano, respondeu que estava na dúvida: não sabia se uma bola ou uma boneca.
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