Baseado, bate-papo e sexo livre. Tudo que um jovem sonha. Era admiradora a vida daquele casal. Amor sem o ditador e autoritário sentimento de posse. Para se amar alguém não é necessário haver exclusividade sobre o seu corpo. Podemos até amar uma pessoa cujas curvas nos são vedadas (amor não correspondido ou fraternal), então por que a busca pela exclusividade? Não faz sentido. O ciúme é um sentimento mantido pela sociedade burguesa para conservar a tradição “família e propriedade”. Para se atender conjuntamente aos mandamentos “crescei-vos e multiplicai-vos” e “não cobiçais a mulher do próximo”, criou-se a mais perniciosa e ignóbil castração à liberdade humana e afronte à sua essência de todos os tempos: a monogamia. Tudo por causa de mandamentos supostamente revelados. Não caiamos na esparrela de que Deus escreveu essas baboseiras numa tábua e a entregou a um sujeito no alto de uma colina. Esses preceitos, como todos os demais de todos os tempos e sociedades, foram moldados pelos que estavam no controle e estes certamente tinham as melhores mulheres e não queriam competi-las. Fizeram, pois, os mandamentos que, claro, eles não teriam problema em burlar quando quisessem, afinal, através das eras poder significa imunidade.
A burguesia se apropriou dos mandamentos milenares. E todas as classes dominantes farão o mesmo enquanto a história marchar. Cabe às pessoas esclarecidas, portanto, contestá-los, desrespeitá-los, desta forma combatendo-os. Eis a desobediência civil.
Clamo que podemos e devemos praticar a doutrina de Ghandi nas nossas vidas pessoais. Condutas anárquicas na vida privada são grandes atos políticos. Era o que Júnior e Lúcia faziam. Com freqüência um fumava maconha e trepava com amigos num quarto enquanto outro fazia o mesmo em outro. E depois, ao que se comenta, dormiam abraçados, como qualquer apaixonado casal. A admiração pelos dois era grande. Que desapego! Que vanguardistas! Que subversivos! Que evoluídos!
“E aí, deu o cuzinho?”
“Por que a pergunta?”
“Oi? Ah… Ah, deixa eu dormir.”
“…”
“Júnior, você tá com ciúme?”
“Claro que não Lúcia, você sabe que nunca fui disso.”
“Desconfio que dentro de você habita o Bruno, o César, o Paulo, qualquer um menos o Júnior.”
“Tá me chamando de hipócrita, Lúcia, que porra é essa?”
“Não, não é hipocrisia, mas… Simplesmente eu sinto que você fica incomodado toda vez que deito com outra pessoa. Mas isso é incompatível com os valores que você prega, então você fica se remoendo por dentro pra manter o seu discurso e sua prática alinhados.”
“Ah, Lúcia, a essa hora? Me deixa dormir.”
Lúcia bufa, pensa, e conclui.
“Tá bom. Se não quiser conversar agora tudo bem, mas cedo ou tarde esse assunto vai vir à tona. Sua alma tá angustiada. Sua cabeça pensa de uma forma, pensa certo, mas seu coração sente diferente, sente errado, se é que existe sentimento errado, né?”
“Sente porra nenhuma, me deixa dormir que eu tô numa lombra sinistra.”
“Boa noite.”
No final de semana seguinte o ritual se repetiu. Maconha e bacanal. Mas sempre eram dois quartos de orgia: o do Júnior e o da Lúcia, cada cônjuge em um. Alguém, entretanto, no quarto de Júnior, sugeriu que migrassem para o outro aposento e imediatamente partiram todos para lá, com corpos em riste, seguidos pelo anfitrião, que não teve como controlar a monomassa ou negar participação. Assim que chegaram, o primeiro androceu a entrar no quarto deparou-se com o oferecido gineceu de Lúcia e o polinizou. O marido desta, que fora o último a entrar no quarto, ao ver tal cena (e sua esposa fazia questão de encará-lo com expressão prazerosa enquanto era penetrada pelo amigo de Júnior) recuou e, discretamente, saiu do recinto. Ficou andando de um lado para o outro, nervoso e perturbado, com a mente anuviada. Foi, neste momento, tomado por um lancinante ciúme. Conscientizou-se dele e tentou controlá-lo, mas uma voz não parava de ressonar em sua mente: “vadia, vagabunda, safada! Dando pro João por puro prazer. Ela nem gosta muito dele. Dando só pra gozar, vadia, vadia, vadia. Cachorra. Vadia. Cachorra. Vadia. Cachorra. Vadia” e assim por diante.
Mas refletiu. Qual era o problema? Se ele não sentia ciúme dela ter prazer com outra pessoa, por exemplo, rindo de piadas, por que esse sentimento o atacava quando o prazer era sexual? Vadia! Não, mas ela apenas fazia o que pessoas libertas das autoritárias tradições burguesas fazem. Aquela cachorra, vadia, piranha, estava certa. A puta estava certíssima. O corno é que estava errado. Claro, ela estava certa. Correta, corretíssima. E enquanto tornava a dizer para si essas palavras, Júnior vestia sua fantasia de Leatherface. Já fantasiado, continuava repetindo que ela estava correta no tempo em que pegava a serra elétrica no depósito próximo à casa do caseiro. E estava praticamente convencido da exatidão da atitude de sua mulher quando chegou à porta do quarto e ligou o equipamento de corte. Maquinalmente avançou brandindo a serra, enquanto continuava repetindo mentalmente que Lúcia estava certíssima. Todos gritavam para que ele parasse, mas ele prosseguia, como um robô que executa um programa. Ficaram todos acuados no canto do quarto, enquanto um dos convidados tentava abrir a janela, mas o nervosismo e a pressa causavam lentidão. E seguia Júnior, com sua ensurdecedora motosserra. Antes que se conseguisse abrir a janela ele acuou todos num canto e disse com voz retilínea: “ela está certa. Minha cabeça pensa certo. Meu coração sente errado.” Esticou os braços à frente do seu corpo, virou a serra elétrica para si e pôs-se a serrar seu próprio tórax. Diante de olhares incrédulos e enojados arrancou seu coração, caminhou com ele nas mãos até o banheiro, jogo-o na lata de lixo, voltou para o quarto, observou os corpos nus e quando se despiu já estava em impressionante ereção. Tomou, então, a iniciativa e reiniciou a suruba com espetacular disposição. Sem o coração a bombear o sangue, foi necessária a utilização de toda a sua energia vital para manter o magnífico enrijecimento de seu órgão. Contudo, junto com seu sêmen, foi-se embora o resto de vida que havia naquele corpo cujos sentimentos haviam sido descartados numa lixeira.
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1 resposta
O HOMEM DE LATA
ABORDA UMA TESE QUE AO MEUS VER NADA TEM HAVER COM NOSSA ESSÊNCIA NEM COM NOSSO PRÓPRIO CORPO QUE É NOSSO TEMPLO.
TEORIZAR EM CIMA DE LIBERTINAGENS É MUITO FÁCIL, ADOTÁ-LAS PARA NOSSA VIDA ATÉ PODE SER PARA AQUELES QUE SÃO DESPROVIDOS DE NOBREZA E SENTIMENTOS. MAS, NÃO PODEMOS ESQUECER O QUE MAIS DIGNIFICA UM SER HUMANO É RESPEITAR SEU SER, SEU CORPO E O “OUTRO”.
SEXO É SAGRADO.
O TEXTO É REFLEXIVO, PELO MENOS NOS LEVA A PENSAR QUE RACIONALIZAR COMPORTAMENTOS É MUITO FÁCIL, MAS VIVÊ-LOS É OUTRA ESTÓRIA MUITO DIFERENTE POR QUE DENTRO DE NÓS HABITA A DIGNIDADE DE SERES RACIONAIS QUE ESTÃO EM MISSÃO PARA EXERCITAR O AMOR. E… USAR PESSOAS, OBJETOS COMO BRINCADEIRINHA…
PORQUE NÃO BRINCAR DE SER LUZ, SER GENTE…
E OLHA QUE SOU AGNÓSTICA…
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