“Se eu fosse jovem, deixaria essa cidade.”
Todos os dias via aquele vizinho na varanda de sua casa, sentado numa acabada cadeira de balanço. Quando pequeno, mamãe pedia que deixasse o pobre homem em paz, enquanto me puxava pelo braço,afastando-me da escadaria de sua casa. O senhor de feições enrugadas a balançar na cadeira sempre me pareceu apenas uma peça de decoração – aos envergonhados pedidos de desculpas de minha mãe, a única resposta recebida era um leve aceno de cabeça, que pensava se tratar mais de um reflexo natural do para-frente-para-trás da cadeira do que propriamente um reconhecimento do outro ser humano que havia a sua frente.
Apenas aos meus 16 anos o ouvi falar pela primeira vez. “Se eu fosse jovem, deixaria essa cidade”, ele disse.
Levantei os olhos, encontrando os do dono daquela inédita voz. Tive vontade de perguntar por que queria deixar o lugar. Talvez a convivência diária com as centenas de estrangeiros que viviam em Santa Fé tenha contaminado seu jeito de falar (tinha um leve sotaque latino), mas também transmitido a urgência pelo novo que os cantores mariachi pareciam exalar a cada intervalo de suas serestas. Talvez ele risse de todas as histórias que passavam pela minha cabeça, talvez de decoração se convertesse em algo importante na minha vida, tudo porque ouvi palavras proferidas para o nada. Mas havia algo naqueles olhos castanhos que me suplicavam para esquecer o que tinha ouvido, como se o simples fato de outra pessoa reconhecer o desejo expresso naquela pequena frase fizesse de um fugaz desabafo uma agitação que o peito já cansado daquele senhor provavelmente não seria capaz de aguentar.
Afastei-me, enfim, deixando-o com sua cadeira.
Alguns meses mais tarde segui o exemplo dos itinerantes mariachi e saí pelo mundo.
Não voltei a ver meu velho vizinho. Acredito que um dia terei coragem suficiente de bater em sua porta e agradecê-lo. E, talvez, consiga contar a ele de quando eu era jovem, e deixei aquela cidade.
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14 respostas
para o clube!!!! parabéns!
Foi um susto abrir a MegaZine hoje e dar de cara com meu texto lá! Principalmente porque a versão original tinha quase o dobro do tamanho da que eu enviei, e acredito que “mutilar” um texto seja sempre doloroso para seu autor… Então mandei a versão menorzinha achando que não tinha muita chance…
Enfim, agradeço a oportunidade. =) Infelizmente não pude comparecer ao lançamento do livro hoje…
Aah, mas li alguns textos daqui do blog e gostei bastante! Uma honra poder figurar nesse seleto grupo, mesmo que por um dia.
Abraços.
Marianna, seu texto é tocante, gostei muito. Pequenas e supostamente insignificantes cenas ficam marcadas em nosso mapa emocional um pouco indefinidas ou com valores meio confusos, até que em algum momento conseguimos perceber com clareza cristalina as causas e efeitos que permeiam nossa história.
Gostaria de ler a versão completa do texto.
Marianna,
Cumpro nesse nosso fuzuê literário a função mais ou menos de editor – inclusive do blog. Caso se disponha a nos dar a honra, é com prazer que publicarei a versão completa do conto. Basta enviar pro meu endereço de e-mail, ok?
E novamente, parabéns.
Hum… Achei que o endereço sairia automaticamente. Pois bem:
baratosdaribeiro@gmail.com
Maurício,
muito obrigada pela disposição de publicar o texto inteiro! Só espero que a versão maior seja digna de figurar aqui…
Perdão pela ignorância, mas como eu vejo seu endereço de e-mail…?
Obrigada mais uma vez!
Abraços
Marianna, o email do Maurício é o mesmo da livraria e tem no site, é baratosdaribeiro@gmail.com
Ah, outra coisa: já que faltou ao lançamento, APAREÇA NO CLUBE! Tem semana sim, semana não, e precisamos — e adoramos– de escritores assim!
Maurício rapaz, bota o email dela na vossa tão providencial lista!
Ao abrir a revista Megazine daquela terca-feira, fiquei indignadíssima ao ver que o ganhador foi este texto. Sinceramente pensei que a revista escolheria alguma poesia, pois elas estão sendo cada dia menos valorizadas, e com certeza, são repletas de magia, diferente deste texto, que na minha opinião, é sem emoção.
Como cidadão petropolitano, devo concordar com a pessoa acima. Mandei um texto parecido com este, mas minha vontade era mandar uma poesia. Porém, sei que elas não fazem muito sucesso com o público jovem, e é uma falta de respeito desvalorizá-las. Mas, seria uma falta de espírito competitivo não parabenizar a vencedora, e ressaltar que mesmo não sendo o texto que eu esperava ver como ganhador, li frases que gostei.
Parabéns, prima! Continue assim! Excelente texto, quantas vezes já não ouvimos “Ah, se eu fosse jovem!”. rs
Olá Mariana, Parabéns!
Uma parte de um texto que escrevi quando tinha a sua idade ou um pouquinho mais..
…”O luar já vem por trás da mata,
Altas árvores deixam passar,
A luz de prata…
Dizem os poetas, que ela é demais!
Tocam no coração, elevam * os olhos,
E banham os sonhos e ilusões,
Mas eu vejo o luar,
Que passa entre as árvores,
E não vejo mais do que,
Uma luz prateada passando,
Entre os eucaliptos,
O contorno da montanha,
As silhuetas das árvores,
Faz-me lembrar os meus medos…
Existem poetas que são artistas,
Dão cor aos seus versos,
Tanto brilho sombra sepia,
Parece um pintor,
Dando vida a seus quadros,
É difícil caminhar e construir,
Por palavras pós-palavras,
Linha sobre linha,
Um soneto ou poesia, cadenciada,
É como montar uma arca de madeira,
Cada tábua boa fica,
Se empenada, retirada,
Mas que adianta construir,
Quando a única beleza é a terra,
O mundo embora mude as estações,
Está sempre bem, sempre belo…
Seu texto reflete sua alma como um arco-iris…
Um abraço.
Pedro Contarini
Parabens sobrinha. Não nega ser Salles nas habilidades artisticas literária.
Grande beijo e um dia vou lhe conhecer.
O texto me foi enviado por sua mãe.
Lindo texto… cheio de emoção nas linhas e entrelinhas!
Parabéns…
Jojo
Tita: você, e o Di, nos enchem de orgulho e alegria… Parabéns! Fão
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