
Mamãe e Papai sempre quiseram que eu fosse especial, justo, defensor de todos que precisassem de algum tipo de defesa. Eles mesmos davam aulas sobre ética em casa enquanto eu aprendia judí na escolinha, porque afinal alguém sempre se precisa de uma proteção contra os terríveis bandidos. Minhas festas de aniversário eram sempre com temas de super-heróis. Me davam gibis do Super-Homem e alugavam os filmes do Batman. Queriam que eu fizesse pelo menos uma boa ação por dia, e toda noite antes das histórias com moral que eu ouvia antes de dormir, eu tinha que contar a eles qual fora a boa ação de hoje. Do mesmo jeito que alguns pais consultam uma palavra por dia no dicionário e tornam aquela a “palavra do dia”. “Altruísmo: ajudar sem querer nada em troca”. “Bom: moralmente correto em suas atitudes”. “Coragem: falta de medo, audácia”. Essas interpelações noturnas só não eram completamente inúteis porque me faziam pensar e inventar coisas novas dia após dia ” meu grande segredo era que, no fundo, eu estava é me lixando pra tudo isso. Quando crescesse, queria mesmo é ser arquiteto.
Claro que Mamãe e Papai não podiam nem pensar nesse caso. Conforme ia crescendo, comecei a me perguntar como poderia fazer pra explicar pros dois que seu filho tão bem criado na moral e bons costumes para defender o Bem Maior queria pura e simplesmente desenhar casas. Talvez eu pudesse dar um ar mais heróico à arquitetura? Dizer que eu planejava casas para desabrigados e lhes proporcionava um melhor modo de vida? À. Quando mais pensava em soluções, mais achava que elas não iam colar. Eu me desesperava pensando no que faria quando finalmente chegasse a hora de dizer a verdade, mas esse problema Papai e Mamãe resolveram eles mesmos.
Porque não me entra na cabeça que não foram eles que planejaram tudo isso. Vocês podem dizer que é absurdo, mas não conheceram Papai e Mamãe do jeito que eu conheci. O que eu acho que aconteceu é que eles percebiam que eu não me interessava tanto quanto deveria me interessar, porque afinal eu tinha uma infância feliz e tranqí¼ila. Aonde já se viu sede de justiça surgir de uma vida tranqí¼ila? Então deram a cartada final, o supremo ato de auto-sacrifício em nome do Bem Maior. Eu já tinha uns quinze anos, era domingo e eu jogava videogame na casa de um amigo, quando a mãe dele entrou com uma cara de preocupada e disse que precisava falar comigo. Eu não estava entendendo muita coisa, porque geralmente ela só falava comigo com um sorriso no rosto e de preferência perguntando se eu queria ficar para o jantar. Até que ela começou e tudo que consegui entender naquele momento foi algo sobre meus pais, um assalto, uma arma e um “sinto muito”. Fui morar com uma tia, em outra cidade. Tudo que ouvia dos familiares era que Papai e Mamãe tinham sido muito corajosos e nessa época eu fiquei muito triste, mas no fundo também ficava puto. Como assim? Como eles ousavam? Primeiro irem embora, depois irem embora desse jeito ” sendo heróicos e corajosos diante do Mal? Aquilo me irritava profundamente. Mas eu também não contava pra ninguém.
Dois anos depois eu tive que fazer vestibular. Prestei arquitetura e me formei como um dos melhores da turma, e senti muita falta de Papai e Mamãe na formatura, mas não tanto quando imaginei os olhares ” seriam de alegria, de reprovação ou de decepção? Bom, mas afinal, eles queriam o que? Que eu jurasse vingança a esse mundo injusto em que vivemos e começasse a combater o crime vestindo uma máscara e procurando gangues no meio da noite enquanto arrumava um trabalho de meio período? Ah, me poupe né.
Me formei, arrumei um trabalho decente, comprei um pequeno apartamento. Tudo ia bem até que, um dia, achei ter visto de relance um par de olhos no espelho do banheiro. Era um par de olhos usando óculos iguais aos de Mamãe.
A coisa foi piorando. Depois comecei a ver os olhos do meu pai, com aquele olhar reprovador que ele me dava de vez em quando. E em algumas semanas, eu via os olhos dos dois ao mesmo tempo. No espelho do banheiro, no do quarto, nas panelas limpas da cozinha, no reflexo de uma vitrine na rua. Os amigos diziam que eu parecia cansado, que andava trabalhando muito, mas não percebiam que eu trabalhava muito pra poder pensar em outra coisa que não fosse aquela acusação muda. Em pouco mais de um mês, eu já estava exausto. Fui a um médico, que me repassou a uma psiquiatra. Ela disse que eu estava paranóico e precisava relaxar, e eu tive vontade de perguntar pra ela qual era a novidade. Falou que a culpa estava me consumindo, por não ter cumprido o dejeto dos meus pais, e que eu só precisava superar isso. Mandou que eu usasse o carnaval pra aproveitar pra descansar e pensar no passado. Como se fosse fácil.
Além de tudo, eu sempre detestei carnaval. Não via a menor graça. Mas, já que era pelo bem da minha já parca sanidade mental, resolvi bolar uma programação qualquer, pedindo dicas aos carnavalescos de plantão que desde dois meses antes já estão saindo em blocos pelas ruas. Consegui arrumar alguns lugares para ir, imperdíveis segundo eles. Ainda me falaram que, já que eu estava aproveitando esse ano pra me divertir, devia entrar mais no clima e comprar uma fantasia, arrumar uns apetrechos, sei lá.
Fantasia e apetrecho já é demais, pensei. Mamãe e Papai não podem ter feito tanto estrago assim no meu eu interior. Na véspera do primeiro dos dias do que seria, segundo meus amigos, “o melhor carnaval da minha vida”, eu voltava do trabalho e vi pela primeira vez uma loja que estranhamente sempre esteve no meu caminho. No manequim lá dentro, uma fantasia de Super-Homem. Parei. Aquela fantasia ficou me olhando, me olhando… e eu fiquei me debatendo. Não ia fazer uma coisa dessas, não tinha cabimento, era meu pensamento enquanto assinava o papel do cartão de crédito na loja. No dia seguinte, pensando no absurdo, saí de casa em rumo à minha primeira experiência carnavalesca.
Estava lotado, cada pessoa com uma roupa mais esdrúxula que a outra, e em cada rosto um sorriso mais gostoso de ver que o outro. Alguns bebiam, alguns tinham crianças, outros jogavam serpentinas, mas todos brincavam. E riam. E se apertavam, mas pareciam felizes. Comecei a esquecer tudo e ir com a galera. Um cara vestido de garçom passou pelo meu lado, três garotos vestidos de ajudantes de Papai Noel pararam e apontaram pra mim, gritando. Eu não entendi nada, mas ri junto. Um dos garotos chegou mais perto e perguntou se eu queria voar. Perguntei como, ele me disse que só esquecesse os problemas e relaxasse. Pode ser? Pode. E depois que fechei os olhos, quando os abri de novo estava acima de todas as cabeças, fazendo pose e pronto para atacar os bandidos, ainda que só naquele dia e só naquele momento. Mas deu certo. Eu ri tanto que os problemas ficaram pra trás naquele carnaval e me ajudaram a aceitar que eu sou quem eu sou. Os olhos de Papai e Mamãe nunca mais me assombraram.
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