Não conseguia dormir. O barulho do circulador de ar me irritava. E mesmo quando, apesar da irritação, conseguia perder a consciência por alguns instantes, ficava acordando toda hora e tinha um sono inquieto e desconfortável em função dos enlouquecedores ruídos do aparelho. Tentando calar os insuportáveis sons, eu colocava livros em cima e embaixo. Pilhas. Criava verdadeira obra de arte contemporânea no meu quarto. Em certos momentos, entretanto, quando já me dava por vencido, ficava falando em frente ao ventilador e ouvia minha voz sendo picada. Duchamp puro.
Pergunta-se por que eu não desligava o ventilador. Passe um verão no Rio de Janeiro num apartamento sem ar-condicionado e terá a resposta. E eu sou um gordo fétido e, como todo obeso mórbido, extremamente calorento. Explicada a premissa, voltemos ao que interessa: o circulador de ar.
Como dito, quando reconhecia a derrota, ia para a frente do ventilador e ficava a repetir frases aleatórias. Numa certa data varei a noite como um autista repetindo: “caí do cipó”, “mamãe gosta de batom roxo”, “o Salgueiro é vermelho e a Mangueira é verde e rosa”, “namiorrorenguequiô”. Era interessantíssimo ouvir as orações picotadas como cabelo de mulher moderna.
No dia seguinte fui à padaria perto do meu apartamento tomar café da manhã. Havia acabado a comida de casa, era fim de semana, resolvi relaxar na panificadora. Aproximei-me do João, o balconista, e como de costume fui dizer-lhe: “me vê um café?”, mas saiu “ v fé?”. Tentei de novo, contudo disse a mesma coisa. Fui ficando nervoso, busquei frases semelhantes para pedir um café, mas todas saíram cortadas. Entrei num táxi, nem tentei falar qualquer coisa, apenas escrevi num papel: “Copa D`or”. Ao lá chegar redigi “psiquiatra”. Passei a tarde inteira com o doutor, tentando várias sentenças, até que notei que me faltavam os sons engolidos pelo ventilador. O “é” saía, pois, apesar de na forma escrita constar essa letra em algumas das frases ditas em frente ao ventilador, em todas as hipóteses ela foi pronunciada como “ê” ou como “i”. É que falamos “i” quando escrevemos “e” como conjunção aditiva, assim como em muitos outros casos escrevemos com uma vogal, mas pronunciamos como se fosse outra, como em “lobu”, “Iscolha”, etc. Portanto, a letra “e” com o som aberto era a única vogal que me restava. Passei, então, a utilizá-la, mesmo que forçando uma barra, sempre que possível. “Élé é léguél”. Essa frase, por exemplo, é compreensível, mas de fato não dava para ir muito longe, precisava encontrar alguma solução. No desespero, tentei uma manobra metafísica, como se o ocorrido fosse uma coisa mística e não fruto de um recente estado de loucura que havia se apoderado de mim. Chamei um técnico e pedi para que mexesse no ventilador e o fizesse girar no sentido oposto, trazendo-me as palavras de volta. Ele não entendeu a razão do contrato e eu não o expliquei, até porque minha limitação fonética não permitiria. Esperei que ele fosse embora, liguei o circulador de ar, fiquei primeiro na frente e depois atrás dele, muito concentrado. Podia sentir as palavras se reintegrando a mim. Até que, quando tinha certeza de que estavam todas de volta abri a boca e gritei: ” !” Tentei gritar “aaaaaaa!”, mas nada saiu. “Félhé dé éé!”, exclamei, então. Se não deu para entender, é “filho da puta” na minha língua.
Maldito ventilador! Não agüentava mais pesadelos por causa do seu barulho desgraçado. Levantei da cama em plena madrugada e fui até o recolhedor de lixo do meu andar. Joguei o circulador lá dentro. Depois de um pesadelo desse minhas banhas teriam que suportar o calor. Mas quando eu voltava para o apartamento a porta bateu, me deixando nu no corredor. Desesperei-me, faltaram-me palavras, mas dessa vez não sonhava.
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2 respostas
Achei muito bom, não sou expert, sou simples leitora, mas o texto me fez sentir calor e muita raiva deste ventilador. Valeu. Parabéns!
Adorei o texto, muito criativo! Parabéns!
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