À que estava indo. Marília estava indo. O cachecol, a bota, o jeans, a bolsa. Estava indo e não sabia se devia continuar indo. A perna doía, ela indecisa seguia em frente no intuito de encontrá-lo, ela prosseguia pois sua meta, naquela noite, era encontrar o namorado, e então ela parou. Marília parou, deixou de ir, não sabia se era o melhor a fazer, girou o corpo e começou a voltar. Não, não sabia se deveria vê-lo. Não tinha certeza de mais nada e meteu as mãos nos bolsos, pois o frio era cortante demais e ela galopava para não congelar e acabava dando encontrões nas pessoas, “perdão!”. Eram seis e meia da tarde, anoitecia cedo no final do outono e o final do outono é definitivamente o final de alguma coisa.
Marília resolveu entrar num café, onde pediu um expresso. Eram 6:40h da tarde e Marília nem ia ao encontro dele, nem voltava. Estava se decidindo e percebendo o quão difícil é se posicionar na vida. “Se posicionar na vida”? Tipo de frase que não era ela quem dizia, mas o pai que havia dentro dela, apenas ele dizia sempre que as pessoas têm que se posicionar na vida. Ela ia contar ao namorado que estava grávida e queria saber se ele era capaz de se posicionar na vida, e se fosse capaz disso, poderiam se casar e o pai aprovaria a união, seria um sogro complacente e ajudaria no enxoval (e quanto a serem felizes para sempre, essa era uma outra questão). Agora, contudo, Marília não podia deixar de admitir que não sabia se queria ter aquele filho e não sabia se se empolgava com a idéia de comprar roupinhas e brinquedinhos de bebê. Então, ela tomava seu café expresso sem saber se ia ou voltava e lembrou da mãe, que gostava de pessoas que liam a sorte. Decidiu-se a ligar para a melhor amiga e quis o telefone do tarólogo que ela freqí¼entava em Madureira, e à melhor amiga só restou rir de Marília, porque não sabia que ela estava grávida e menos ainda que estava sem saber se ia ou vinha. Marília anotou tudo, ligou para o tarólogo e ele disse que ela podia chegar em sua casa í s 7:30h da noite. Foi aí que Marília, num rompante de iniciativa, pagou o expresso e resolveu mudar o rumo da prosa e saber sua sorte, antes de a sorte acontecer. Dirigiu-se aos confins de Madureira.
Marília estava no ínibus agora e pensou melhor sobre tudo que estava se passando, sem saber se queria mesmo conhecer sua sorte, seu destino ou seu futuro, e sem saber tampouco se precisava de conselhos. Aliás, um tarólogo não é algo que se deva levar a sério! “Não é algo que se deva levar a sério”? Mais uma frase que não era ela quem dizia, mas o pai dentro dela, tão convicto do que era bom e do que era ruim. Ela continuou no ínibus, que ia enchendo cada vez mais e se sentia amarrotada ali dentro, até que resolveu saltar em um lugar que não sabia em que bairro ficava e não sabia porque estava fazendo aquilo e nem sabia como voltar para casa. Novamente, estacou. Agora eram sete e quinze da noite e o tarólogo não ia entender nada se ela não aparecesse. Mas o que ele precisava entender? Era Marília quem devia entender. E não entendia absolutamente nada. Estava em apuros, na verdade! Informou-se sobre como voltar para casa e dali a dez minutos estava dentro de outro ínibus, inquieta, retornando. Retornando? Ela sentia que cada movimento que executava era inteiramente sem precedentes.
Agora podia novamente ir ao encontro do namorado, que ela não sabia se era digno da notícia. Mas ia contar que ele seria pai e esperar corajosamente sua reação. E se ele mandasse que ela tirasse o filho, ela o odiaria. Ou talvez pensaria que era uma boa idéia. E até fizesse isso mesmo. Tiraria o filho, secretamente, com o seu apoio. No entanto, depois, o que sobraria entre eles seria um aborto e o fim da relação. E ela, o que queria? O fim da relação? O aborto? Ou um enxoval com cores suaves e ursinhos sorridentes estampados para todo lado? Ela saltou do ínibus, sentindo a proximidade da vertigem e a companhia de uma náusea compacta, tonitruante, e novamente se encaminhou ao lugar onde encontraria o namorado, enquanto tentava e conseguia controlar suas vísceras com pensamentos lógicos, e agora já não sabia mais se era verdade todo aquele impasse, se era verdade sua gravidez. Marília novamente parou de andar. Olhou o relógio de pulso e constatou que eram quase 8 horas. A noite se avolumava e também seu suor, apesar do frio. O celular tocou na bolsa e era ele, o namorado. “Você não vem?” Ela não píde responder, pois ela não sabia se ia ou não ia. E não podia dizer que não sabia se ia ou não ia e nem que estava impossibilitada de verbalizar sua indecisão volumosa também. “Você vem ou não vem?”, ele repetiu insistente. E então ela foi. Como se estivesse de olhos vendados. Como se empurrada. Com dor no estímago e já prestes a parar outra vez.
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2 respostas
EXCELENTE!
gosto, neste conto, do tempo narrativo, o presente instantâneo, o leitor acompanhando a personagem no momento “agora” em q o futuro é uma nuvem só, em q vamos convivendo e dividindo o completo estado de incerteza da personagem, cuja única certeza, ou talvez nem essa, era sua gravidez. no fundo somos todos asnos de buridan, não sabemos se vamos ou ficamos e a decisão à s vezes fica como uma questão totalmente casual e q nos foge inteiramente de controle. um lindo conto.
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