Quando meu pai, uma imagem fotográfica para mim, bateu as botas, minha mãe, com a pensão do ministério, que nos criou. Dois garotos, Paulo e eu. Foi ele que me ensinou a tragar base, foi ele que me apresentou para a Renatinha, dizendo que eu tinha dezessete quando tinha treze. Ele me botou pra ouvir Clash e Pistols. Paulo é o meu pai. Paulo foi.
Depois, o Paulo conheceu a Augusta. A Augusta já pertencia aos esquisitinhos da Igreja e levou Paulo pra lá. Hoje em dia, ela até pega mais leve que o Paulo. Os dois se casaram. Paulo, cansado de levar bomba no vestibular de Medicina, entrou em Biologia. Ele dá aula, mas não em escola ou universidade, ensina criacionismo pros padrecos e os beatos. Sacaram, né? À dessa dupla que nasceu meu pobre sobrinhão, Pedro Tiago, Petê. Pelo menos é Flamengo.
Meu irmão e minha cunhadinha implicam paca comigo. Enchem porque nunca têm tempo de lembrar o nome das minhas namoradas. Porque eu não apago o bode que eu tatuei perto do umbigo. Falo muito palavrão. Porque eu não arrumo emprego fixo. Eu sou músico, pí! Só se trabalhar na banda dos bombeiros. Por causa da minha moto, não me deixam passear com o Petê. Dizem.
Eu não devia ligar. Devia esquecer. O filho é deles. Foda-se. Mas aí, eu fico pensando. O Paulo é mulher da mulher dele. Se as coisas continuam assim, o Petê vai, no mínimo, ser mulher dos amiguinhos. Meu sobrinhão, não.
Foi que os dois, com um financiamento que vai ter custo e duração de uma aposentadoria, foram para a Terra Santa e Roma. Deixaram o moleque com a Dona Teresinha, avó materna do menino. Telefonei e deu certo. Os carolas estavam nervosos porque, até então, só tinham viajado na lua-de-mel em Aparecida do Norte. Esqueceram de avisar sobre o perigo da péssima influência da ovelha desgarrada.
Eu sou o salvador do pirralho. A providência será tomada. Disse que levava pruma pecinha infantil. Pecinha, um catzo. A gente vai é pro Maraca. Petê já tem quatro anos. Até hoje não foi lá. Vai ganhar um manto sagrado, uma fita dessas grossas de amarrar na cabeça, um boné e um chaveirinho.O garoto vai comer hot dog frio, Chicabon derretido, coca-cola sem gás e biscoito Globo vencido. Vai ficar do meu lado na Falange. Se bobear, até vai ver um futebolzinho. São estes os primeiros ingredientes para virar homem.
“À, o tio vai comprar o ingresso. Não larga a minha mão, hem!”
O que vocês acham que aconteceu? Pí, fiquei loucão. Petê! Petê! Petê!
Não tínhamos entrado ainda. Ouço um choro de criança. Um berreiro ensurdecedor.Ta lá ele, a cabecinha vermelha, parecendo que vai explodir. Está no colo de um sargento da PM. de botões da camisa que parecem que vão pular a qualquer momento e braços mais grossos que minha coxa. Eu me identifico e levo um esporro federal do estadual.
Com esta desmoralização, já não dava para ensinar mais nada. Fomos para a pecinha onde conheci a Adriana, uma dessas gostosas divorciadas, mãe dum pentelinho cujo nome não me lembro mais. Se o Petê for um pouco observador, alguma ele aprendeu.
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