Para Guilherme Preger.
Era 1980 quando eu conheci Doris Previn. Eu tinha treze anos quando ela passou a me levar para a escola em sua Kombi amarela 76 com um remendão verde-água no pára-choque. Era uma americana, naturalizada brasileira, alta e bonita, que tinha, na verdade, quarenta anos, quando eu, com toda minha experiência adolescente, achava que ela tinha no máximo trinta. Quarenta anos, pra mim, estavam tão distantes quanto urano a olho nu. Meus pais tinham quarenta anos. Doris Previn jamais passaria dos trinta. Tinha acabado de se divorciar, fato este que, aliado à sua incontestável beleza, também causava certo mal-estar entre algumas mães.
Dimitrius era seu filho. Dois anos mais velho que eu, era de outra turma. Certamente graças a Doris Previn, ele era loiro, alto e magro, e tinha um inglês fluente. No final do ano, conseguira compilar uma lista no caderno de matemática das várias garotas que suspiravam cada vez que ele passava pelo corredor.
Eu, sendo o mais novo passageiro da Kombi 76 e sendo o último a ser pego pela manhã, sentava no banco mais desprestigiado do veículo, por estar ao lado da motorista e longe da bagunça que os meninos faziam. Ela sorria quando eu entrava e dizia “bom dia querido”, com um forte acento americano. Perguntava se estava tudo bem e eu assentia, obviamente sem saber o que falar em seguida. Ouvia os garotos mexendo com as meninas que passavam em carros do ano, ouvia seus risos abafados e gritos estridentes.
E foi no meio do trânsito que eu finalmente me perdi na beleza de Doris Previn.
Ela olhava as horas num relógio prateado, sem largar as mãos firmes do volante. Buzinou uma ou duas vezes. Perscrutou pela janela a fila de carros na rua da escola. Quando trocou de marcha a barra de seu vestido verde subiu, deixando à mostra uma pequena cicatriz na coxa direita. Ela ajeitou a roupa ignorando a minha presença.
Nos dias seguintes, me dediquei a aprimorar meu diálogo com ela, falando uma frase a mais a cada dia, sempre bem pensada e com algum objetivo em mente.
“Tudo bem com a senhora?”, mostrando que eu era educado e amável.
No dia seguinte:
“Hoje preciso rever um pouco de ciências”, abri o livro sobre meu colo. Assim, ela poderia deduzir sem muito custo que eu era responsável e estudioso.
Depois tentei mostrar que também era bem informado:
“Acho que o Reagan será eleito presidente, ham? O que a senhora acha?”
Também conversamos sobre artes em geral:
“A senhora gosta de Dire Straits?”
E ela não só gostava de Dire Straits, como me falou de Joy Division, Midnight Oil, Elvis Costello. Como sua vitrola tinha ficado com o ex-marido, ela acabou me emprestando quase todos seus discos. Passou a corrigir meus exercícios de inglês quando chegávamos cedo na escola. Me deu reportagens de jornais e revistas americanas que ela assinava.
Foi assim, com Doris Previn, que entrei na década de 80 pronto a enfrentar o mundo. Durante aquele ano inteiro, estudei pensando nela, ouvi músicas que me lembrassem ela, recortei matérias de jornais e revistas que achei interessantes, li mais, aprendi mais, escutei mais. Durante aquele repetitivo trajeto entre minha casa e a escola, nossos pequenos diálogos me ensinaram mais do que qualquer aula particular.
Numa manhã de sol forte, após o último dia de aula, Doris Previn tocou a campainha lá de casa. Eu estava embrulhando seu presente de final de ano. Queria continuar compartilhando o que estava vivendo com ela, ouvir o que ela tinha a me falar. Minha mãe me chamou, dizendo que ela me esperava na sala.
“Tenho um presente pra senhora”, eu disse, satisfeito com a minha decisão, estendendo o embrulho na sua direção.
Eu estava tão ansioso que nem estranhei o fato dela estar na minha casa, coisa que nunca havia acontecido antes.
“À a minha vitrola”, eu disse.
Ela olhou pra mim interrogativa.
“Vou comprar outra de um amigo. Não podia continuar ouvindo todos esses discos sozinho. Quero você os escute também.”
Ela disse que também tinha um presente pra mim e me estendeu uma pesada caixa de papelão.
“São seus discos”, eu murmurei, sem entender.
À, querido, ela continuou, vamos voltar para a América. Quero que você fique com esses também.
Seu sotaque carregado me levava junto com seu discurso. Ela disse que havia recebido uma boa proposta de trabalho por lá, e já que estava separada do pai do Dimitrius, nada a impedia de voltar novamente.
Eu não sabia o que falar. Fiquei calado.
Ela continuou falando que Dimitrius viria de tempos em tempos pro Brasil, já que o pai dele continuava morando aqui. Mas ela sabia também que eu pouco ligava pro Dimitrius. Ela continuou falando coisas que não me recordo agora, mas que deveria ter guardado na lembrança porque essa foi a última vez que nos vimos.
Minha mãe trouxe limonada e torradas. Falamos muito pouco.
Hoje eu tenho quarenta anos, a idade dela naquele ano de 1980. Meu filho tem doze anos e vai pra escola a pé. Ainda tenho aqueles mesmos discos, muitos deles com o nome de Doris Previn escrito à caneta na capa. Não creio que ela tenha ficado com minha vitrola por muito tempo. Possivelmente a vitrola foi para as mãos do Dimitrius, que a trocou por um aparelho de CD assim que esse virou moda. Sei também, é claro, que ela não sentia o mesmo que eu.
Ela estava aprendendo a viver sozinha num país estrangeiro. Eu estava aprendendo a viver. E naquele ano de 1980, nós nos encontramos por causa da inocência e do medo.
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2 respostas
i love doris previn…
Puxa, Dâni, que lindo! Que sensibilidade para descrever a alma masculina.
Adorei.
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