A primeira vez que Pedro viu o tempo parar foi mais ou menos assim. Ele era vocalista de uma banda e, à sua frente, cerca de duzentas pessoas cantavam junto com ele:
“I can”t get no…”
Foi como um soluço. Pode-se dizer que pareceu ter sido um breve momento, embora não fosse possível raciocinar em termos do que conhecemos por tempo, já que, com o tempo parado, nossa referência havia se perdido. Pedro achou que havia bebido demais, piscou os olhos, ouviu o acorde seguinte e continuou:
“Satisfaction…”
“I can”t get no…”
E de novo aconteceu. Dessa vez foi como se estivesse se afogando. Como se voltasse ao primeiro momento em que respirou fora do líquido amniótico. Sabia coisas que antes ignorava, percebia pensamentos tão breves que durariam apenas aquele instante e depois pareceriam esquecidos, até serem novamente trazidos à memória como se fosse a primeira vez. Olhando os rostos desconhecidos, descobriu seus nomes e soube mais do que eles próprios sobre seus desejos.
Conheceu Gabriela. E viu seus longos cabelos pretos parados no ar. O pé direito levantado enquanto o esquerdo tocava levemente o chão sujo de latas de cerveja e pontas de cigarro. Gabriela sempre quis agradar o novo namorado. Antes de começar a música, queria ter tido tempo de retocar o batom, limpar o suor. Mas naquele instante, Gabriela esquecera o namorado, a maquiagem, o cabelo. E queria que esse esquecimento durasse para sempre.
Os olhos de Gabriela estavam cravados em Carlos. E Carlos tinha os dois braços levantados, o rosto contraído, gotas de suor na testa. No intervalo entre as músicas, Carlos quase chorou porque queria dançar e não podia, queria pular, porém era seu próprio corpo que o impedia. Mas naquele instante, Carlos esqueceu sua doença, esqueceu que suas pernas não o obedeciam, esqueceu todos que pulavam à sua volta. Levantava os braços e queria que esse esquecimento durasse para sempre.
Pedro viu também Felipe. E os filhos de Felipe que dormiam na casa da ex-mulher. O pensamento de Felipe fixou-se nos dois filhos pequenos. Pensava se daqui a cinco anos gostariam das músicas que ele ouvia, se daqui a dez anos os levaria a algum show que permaneceria em suas lembranças para sempre.
E assim Pedro viu Elena tentando sentir a vibração das caixas de som porque não podia escutar a música. Viu Osmar e a esperança de arrumar trabalho. Viu Clara, olhando fixamente para ele, no preciso instante em que decidiu não tirar o bebê que carregava em sua barriga há quatro semanas.
Foi nesse ápice, em que o tempo deixou de correr, que aconteceu uma coincidência formidável: todos que odiavam alguma outra pessoa estavam dormindo, desmaiados ou, de alguma forma, inconscientes. Nenhuma briga, discórdia ou crime. Pedro soube que era um momento único em toda a história da humanidade. E que foi por isso que o tempo havia parado justamente nesse instante. As leis da física foram transgredidas para que o homem tivesse finalmente um descanso. Para que em algum momento de nossas vidas nos recordemos daquela idéia esquecida e fugaz que surge se passando por original: sim, há esperança.
Pedro percebeu tudo isso com a clareza de um cientista à frente de seu êxito. Viu um menino criando estradas e construções, uma menina montando um gigantesco quebra-cabeça que formava um mapa do mundo. Viu um bebê. Um bebê que era a Clara, que o olhava, ou o filho da Clara, que haveria ainda de nascer, ou até mesmo seu próprio filho que sequer havia sido concebido. Um bebê que era qualquer um ali, ou qualquer um que vive, já viveu ou ainda viverá. Percebeu que esse bebê era a própria humanidade num intenso suspiro primitivo que renascia em cada Clara, em cada Gabriela, em cada Carlos, em cada Felipe.
Viu isso naquele, se assim podemos dizer, breve instante. Ali. Em que o tempo parou. Pedro, ao ouvir o estrondo produzido pela continuação da música, caiu, confuso e atarantado, enquanto Cristinas, Fernandos, Cátias, Luísas, Gustavos, Lucianas, Alexandres, Déboras, Carmens, Danielles, Mauricios, Guilhermes, Tatianas, Rudás, Márcias, Marias, todos eles com seus fracassos, conquistas, desejos, cantavam juntos:
“Satisfaction…”
E ele, no chão, tentando assimilar o que havia acontecido, não sabia se aquilo tudo não passava de um surto, um delírio, um descuido.
Ou foi apenas um soluço.
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