Olá! Meu nome é Nico e moro num lugar fenomenal. Na verdade, meus colegas, os outros roedores inumeráveis dessa cidade demolida (uma cidade que não se apercebeu fantasma e, de certo modo, náufraga), os ratos como eu, para ser mais direto, não dão muita bola para esse lugarzinho aqui que eu descobri e onde resolvi me instalar há alguns meses. Eles gostam de locais mais apetitosos do que este, preferem os bueiros das ruas e avenidas largas, preferem as redondezas de bares e restaurantes, esses são os lugares mais adorados pelos de minha espécie, mas não por mim. Gosto de sossego, comida e de uma coisa que meus comparsas de espécie não apreciam muito, não. Eu gosto de observar esses seres que se dizem humanos, as tais pessoas, que pensam que têm escrúpulos, que acham seguir filosofias, que acreditam em seus ledos enganos e que perseguem objetivos difíceis de compreender para quem está assim de fora, como eu. O fato é que, assim como existem exemplares dessa espécie longilínea e faladora que gostam de observar o que chamam de animais, eu sou um exemplo raro, mas que está aí pra provar a regra, entre os ditos animais, que gosta de observar esse seres, os tais humanos! E daí que vim parar aqui, nesse lugar entupido de livros por todos os lados, assoberbado de discos por todos os cantos, abarrotado de papeizinhos das mais variadas formas e com as mais indecifráveis mensagens em todos os vértices. Aliás, tudo aqui é meio indecifrável, tudo aqui é um apanhado de dizeres ininteligíveis que os seres humanos gostam de ler e reler e falar em alto e bom som e que, alguns deles, gostam até mesmo de obedecer! Isso eu reparo há muito tempo. Entre os meus, não há isso que chamam de livros. Não há isso que chamam de música. Não há isso que chamam de informação. O que há é um grande apetite que não acaba e uma grande camaradagem entre a gente, isso há! Mas livros-discos-e-nada-mais, isso não há, e nesse lugar colorido que encontrei posso ver as pessoas se deleitando com esses estranhos objetos de prazer. Porque o que digo a vocês é verdade, meus amigos: eles se deleitam com esses objetinhos retangulares sim. E muito eu aprendi só de observá-los meticulosamente, e inclusive sei usar as palavras que eles usam, sei o conceito de “retangular” e sei o conceito de “empoeirado”, por exemplo, mas não consigo ler nada do que eles lêem nessas finas camadas encadernadas com muitos simbolozinhos impressos, isso eu já tentei e não consegui. E sabe quando eu costumo tentar? Quando todos vão embora e apagam as luzes. À aí que eu posso me retirar de minha toca e caminhar à vontade por entre tanta coisa. E vejo umas amigas baratas e muitas colegas traças caminhando como eu e estão todas mais serenas pois o tumulto passou e ninguém foi pisado. Dou um “alí, meninas” a elas e vou para um canto, onde futuco esses objetos sagrados e nada entendo do que vejo. Por isso prefiro aquelas noites em que muitos deles vêm aqui numa balbúrdia acalorada que chamam de clube da leitura. E o chefe, aquele que organiza tudo e decide onde cada um desses objetos vai ficar, aquele que gesticula e sabe explicar tudo bem explicadinho, o que está sempre contando um caso e que í s vezes bota uma música que, no meu mundo de roedores não existe muito bem, o chefe é que dá uma dirigida nesse bando caótico que vem aí algumas noites, e é aí que eu posso aprumar a escuta e ouvir essas histórias magníficas que essa gente lê, escreve e conta. Não deixa de ser uma certa generosidade desse povo: eles lêem entre eles as coisas que gostam e repartem uns com os outros. Há todo um mecanismo que eu já percebi. Embora entre meus iguais não haja esse tipo de tecnologia ” livros e organização grupal ” eu sou capaz de entender e apreciar! O chefe, que é bem grande, geralmente começa lendo algo e, na seqí¼ência, dá a vez aos outros, que lêem as suas coisas e a noite segue, e então eu tento me concentrar ao máximo para sorver as imagens que são faladas de modo a não esquecê-las mais. Se eu fosse um deles, se eu fosse um ser que se entende humano, eu também gostaria de ler essas coisas todas e talvez até eu escrevesse tudo isso, como é prática nesse bando que vem aí invadir o meu reduto, pois eles escrevem suas próprias histórias, que, para mim, contêm a chave da felicidade. E depois disso tudo, quando a algazarra termina e todos vão embora, eu estou pleno e tranqí¼ilamente só. E posso deitar-me sonhando com todas aquelas tramas enroscadas naquelas idéias enrodilhadas naquelas palavras emaranhadas naquelas metáforas elaboradas naquelas opiniões desenfreadas e aí, durante uns quinze dias, sou feliz esperando a próxima reunião do bando que, por sorte, não me deixará dormir.
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