5 de maio de 2009, 7:48h:
Aguda e lancinante, a dor lhe desperta a consciência com tal arrebatamento que no mesmo instante a lança além, como se tivesse sido arremessada ao céu, em direção ao sol flamejante, e agora estivesse despencando de volta, para onde não queima, na vertigem acolhedora de quem, após um susto, se aninha no sono novamente. Não terá tempo de saber que a escuridão será definitiva e perpétua. Dos pensamentos que lhe restam, prefere o delírio. Miriam pensa na pancinha teimosa de Eduardo, nos pelos excessivos perto do umbigo, que permitiram ao seu corpo reconhecer o amante mesmo quando cometia a grosseria de entrar nela sem aviso, sem lubrificação, invadindo seu sono com odores e substâncias que haveriam de ser recepcionadas com festa, se sua afobação fosse um tiquinho menor. Em sua memória cai uma chuva torrencial de lembranças esparsas, e entre tantas alegrias, tão distantes, não é uma surpresa que o sorriso abobado de Eduardo seja das poucas imagens freqí¼entes o bastante para serem reconhecidas. A lhe oferecer conforto, no momento que ignora ser seu derradeiro.
5 de maio de 2009, 7:44h:
O pequeno Lucas respira com a maior discrição possível, pensando em ninjas na esperança de se misturar í s sombras do quarto, que ainda tem as cortinas fechadas. A grande faca de churrasco está suspensa no ar, e ele procura o ponto ideal, tentando imaginar onde está o coração debaixo do lençol.
5 de maio de 2009, 7:35h:
O pequeno Lucas tira a máscara improvisada, porque não está enxergando bem. Ele sabe que aquela gaveta meio emperrada é onde estão as facas proibidas. Ele sabe que prata e alho não machucam aquele monstro, porque vê Miriam comer pizza de alho e usar relógios prateados, mas terá que improvisar, depois do ataque dessa madrugada. Lucas demorou para sair de baixo da cama ” e teve que troca a calça molhada de xixi antes de tomar uma atitude. Mas aquela mulher-barro destruiu o batmóvel, e seu próximo passo podia ser fatal. A mulher que tomou o lugar da sua mãe acha que ele não conhece a identidade secreta de seu pai, mas as troças dos meninos da rua e do colégio lhe eu as pistas. Lucas não passou tanta humilhação no colégio em silêncio se já não estivesse treinando para ajudar ele mesmo na luta pela justiça. Ele até já viu uma foto, e por isso sabe que o uniforme do Homem Gafonhoto é verde-oliva ” infelizmente, o mais perto que encontrou foi a cueca verde-musgo que cobre sua cabeça.
4 de maio de 2009, 23:27h:
Miriam arremessa o telefone contra a parede, depois do Homem-Gafanhoto ter desligado em sua cara “porque estava de tocaia contra um dono de pastelaria chinesa que usa mão-de-obra escrava ” sem erro dessa vez”. Seu fixo está bloqueado para fazer ligações, por isso foi até a casa da amiga. Elaine já fez terapia reichiana, e isso somado à culpa por ter pago muitas das cervejas que dividiu com a amiga na esticada depois do expediente faz com que, ao invés de brigar pelo prejuízo do aparelho destruído, ela aconselhe Miriam a extravazar. Ela emprestará a marreta de Pedro para Miriam descontar o resto de sua fúria no objeto que foi o motivo da ligação. O Homem-Gafanhoto não pagou as prestações do “inseto-móvel”, e agora circula um mandato de busca e apreensão para o Toyota modificado. À por isso que descansa na garagem de Miriam o bisonho veículo, para que todos os dias ela se lembre de onde está o dinheiro que o ex-marido conseguira juntar naqueles meses trabalhando de dublê num filme de ação, e que deveria ter sido usado para tirar seu nome do SPC e do Serasa. Miriam passará as próximas horas suando e sofrendo escoriações acidentais, enquanto arrebenta aquela alegoria de escola-de-samba com tração nas quatro rodas, para depois desabar bêbada e exausta na cama.
11 de setembro de 2008, 6:50h:
Lucas está em cima do telhado, gritando que se pudesse lançar teias para as casas vizinhas sumia dali e nunca mais voltava. Míriam poderia ser mais compreensiva, já que entende como é traumático mudar o filho de escolinha pela terceira vez no mesmo ano, mas já cansou de pagar pelos erros do ex-marido, e se os berros e palmadas delas traumatizarem o menino, ainda exigirá bem menos sessões de análise do que o mal que Eduardo já causou. Mas ninguém tem menos juízo que esses juízes, sentenciando um desempregado a pagar indenizações tão cheias de zeros. Não é porque discursa bonito e tem alto Q.I. que saiba o que está fazendo, e aliás o que ele pensa estar fazendo é salvando aquelas pessoas, por mais acidentes que cause ou danos que cause à propriedade. Miriam já tentou abandonar o ex-marido à própria sorte, mas no fim tem sempre um grilo falante em sua cabeça, a convencendo de que com uma grande história de amor ” mesmo que passada ” vem grandes responsabilidades. O último empréstimo que fez na Cacique tem até juros pequenos, e melhor um colégio particular chinfrim do que deixar o menino no antro de malfeitores que são essas escolas públicas.
4 de maio de 2008, hora do almoço:
A mãe do pequeno Lucas está errada em pensar que ele gosta de visitar o tio porque Daniel ainda ouve, apesar dos mais de 30 anos, seus discos do Motorhí«ad num volume escandaloso. Na verdade o pequeno Lucas acha aquilo tão ininteligível quanto aqueles violinos esganiçados que sua avó elogia tanto, as ganidos soluçantes da sua prima bebê ou os sermões da professora quando o flagra com os amiguinhos, fazendo ataque de cócegas nas partes das meninas que as deixa mais furiosas. Lucas pede pra Daniel colocar o CD das caveiras de capacete porque assim ninguém o ouve trepar no armário de ferro do tio, em busca dos gibis velhos que ele guarda numa caixa lá detrás dos troféus. Ele sabe que caveiras, múmias, lobisomens e vampiros são todos malignos, e não vai deixar essa corja ter informações sobre os defensores do bem. Lucas esconde o que pode dentro da calça, e um dia ainda tirará aquelas informações das mãos inimigas.
13 de outubro de 2004, 17:14h:
Miriam está no banheiro pela nona vez em 3 horas, dando descarga porque disse que iria urinar, enquanto lava o rosto para apagar a marca das lágrimas. Eduardo já deve ter terminado de colocar suas malas no carro, e ela tem uns vinte minutos para despachar o doido antes que a criança chegue da creche e testemunhe a separação dos pais. Sempre viu graça nos delírios do marido, mas quando o contador da firma telefonou para agendar a homologação da sua demissão, seu mundo veio abaixo. Eduardo, por sua vez, ficou sem ação quando o trunfo que tinha nas mãos foi usado pela esposa para desqualificá-lo, com aqueles argumentos que já nem o magoavam, mas apenas incutia nele o inédito desejo se sumir o mais rápido possível da vista daquela mulher de pensamento estreito. E daí que perdera o dinheiro do FGTS? E daí que havia prestações da casa a pagar? O dinheiro investido nas modificações do Escort e em armas não-letais o permitiriam começar sua cruzada por um mundo livre do crime. Miriam pediu até que ele levasse a bicicleta dada ao filho na véspera, porque a faria lembrar do mês em que ela estourava o limite do especial e o marido queimava o pé-de-meia do casal no esdrúxulo objetivo de abandonar o mundo real para viver nas histórias em quadrinhos.
27 de agosto de1995, 00:36h:
Miriam acende um cigarro, não porque goste de fumar após o sexo, mas porque achou que uma trepada tão espetacular merecia um fecho cinematográfico. Ela nunca saberá que Eduardo acabara de perder a virgindade, porque um homem de 29 anos não poderia admitir tal fato sem passar por aberração, e considerará a queda o tom mais trivial que o sexo assumirá na relação uma prova de desinteresse da parte dele. Ela pensará que ele se tornou patético com o tempo, quando na verdade é apenas a impressão daquela noite 4 dias antes que a faz idealizar um homem que ele gostaria de ter sido, mas nunca foi. Menos de 10 minutos depois eles também terão sua primeira discussão, porque Eduardo abomina o tabagismo. Mais 41 minutos depois, ele usará como argumento a disciplina espartana das mulheres da Ilha Paraíso, e ao ser comparada à Mulher Maravilha, inclusive nos seus atributos físicos, Miriam ficará tão lisonjeada que considerará jeitinho do futuro marido até que fofo.
23 de agosto de 1995, 21:11h:
Eduardo dirige muito devagar porque bebeu um pouco, o que para um abstêmio já é além da conta. Ele estudo eletrônica, entre outras matérias que nada tem a ver com sua profissão, porque sabe que um herói sem super-poderes tem de ter um pouco de McGyver tanto quanto de Bruce Lee. Como sempre foi desdenhado por seu jeito retraído, os colegas quiseram compensá-lo no dia em que consertou o ar-condicionado antes da autorizada que sempre faz a manutenção, e demora dias para dar as caras. Surpreendido pelo carinho inédito, teve de aceitar acompanha-los num chope. E é por estar dirigindo tão devagar que vê a moça sendo assaltada. Se tivesse percebido que eram 3 pivetes, não teria tido coragem. Mas na confusão mental se achou capaz de intimidar um moleque franzino, e desceu do carro gritando com uma força que seu pulmão mal deu conta. Miriam ficou estupefada, e até brava pelo sujeito botar em risco a vida de ambos por cause de 37 reais que tinha na carteira, mas naquele estranho viu algo que intuitivamente sabia que era próprio dos homens pouco civilizados, mas por isso mesmo mais homens do que o resto.
1o de fevereiro de 1974, 11:34h:
A mãe de Eduardo aperta o filho no colo com a força do Thor, enquanto tampa os olhos do menino com as mãos e as lágrimas umidecem a camiseta do Capitão América que ele veste. A televisão mostra ao vivo o incêndio no edifício Joelma, e apesar das câmeras captarem apenas vultos despencando do prédio em chamas, Eduardo vê com absoluta nitidez o olhar desesperado por socorro de seu pai, congelado no ar, um quadro acima da horrenda onomatopéia que substitui o corpo estraçalhado que sua mente de 8 anos não píde imaginar. Eduardo vê através das mãos trêmulas da mãe como o Super-homem vê através de tudo o que não seja chumbo. Nesse momento seu coração galopa de raiva, e seu único medo é virar um gigante verde e esmagar sua querida mãe por acidente. Ele se pergunta porque Super-Homem vive salvando o idiota do Jimmy Olsen, que se mete nas confusões de enxerido, ao invés de estar ali para salvar seu pai, que não fez nada pra merecer estar naquela arapuca. Jura que vai achar uma caverna pra ele quando crescer, e mesmo que não se vista de morcego, sabe que será um herói mais super do que aqueles que deixaram seu pai morrer.
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