Estranhamente Fausto chegou com um leão marinho ao seu lado. Todos ficaram intrigados. Perguntado sobre a origem do animal, apenas disse que ele estava em frente à livraria quando chegou e que, ao abrir a porta, o bicho entrou sem pestanejar. Vivian achou aquele bicho meio neurótico. Carmen queria fazer uma matéria sobre ele. Renato queria ir com ele ao Empório. Rodolfo planejava matar aquele animal espaçoso, ridículo e imundo. Daniele achou-o muito bonitinho e Maurício estava na dúvida se aquilo atrairia ou espantaria fregueses. Na dúvida também estava ígata, que não decidia se o bicho era fofo ou nojento.
Enquanto os citados e outros discutiam o que fazer com o animal, Andréia servia uma cerveja a Ribas, completamente alheios ao evento. Guilherme adentrava o sebo e logo atrás dele, quebrando o vidro de entrada, irrompeu uma enorme baleia orca alada , com a boca aberta, quase abocanhando Deborah. Neste momento, Andréia e Ribas começaram a desconfiar que acontecia algo de estranho no ambiente. Maurício, então, correu ao segundo andar, pendido que Rudá, Guilherme, Rodolfo, Vivian e Daniele o acompanhassem. Enquanto isso a baleia se debatia de um lado para o outro, enquanto as pessoas buscavam proteger-se atrás de alguma prateleira, atirando-lhe de Cervantes a Neil Gaiman. Um sujeito desconhecido, que por acaso estava no sebo no momento, defendeu-se com um exemplar de Vale do Rio Preto, o que levou seu autor a atracar-se com o sujeito, dando as costas para a baleia, que o devorou.
Instantes após, voltavam o que doravante podemos chamar de heróis. Rodolfo veio na frente, com um grande escudo. Atrás dele seguia Maurício, com um arco, embora faltasse a flecha. Mas, para o espanto de todos, quando ele fez um movimento de tiro surgiu um flecha de energia, que feriu o animal. Vivian apoiou um grande bastão no chão, pulou por cima de Rodolfo e aterrissou sobre a cabeça do cetáceo. Estava prestes a domá-lo quando este voou rápido para cima, esmagando a heroína contra o teto. Caiu desacordada no chão. Rudá, então, rodando um grande tacape seguiu em direção à baleia para acertá-la com toda sua força derivada dos seus magníficos músculos, mas quando ia ferir-lhe no rosto Maurício errou um tirou, nocauteando seu companheiro. Já Daniele vestia uma manta com um capuz que, ao colocar sobre sua cabeça, tornava-a invisível, portanto é impossível saber o que ela fez enquanto todos se engalfinhavam com a orca, mas dizem as más línguas que ela esgueirou-se para fora da livraria e foi tomar suco no Bibi Lanches.
Guilherme, que voltou do segundo andar com um enorme chapéu verde pontudo, começou a rodar sua mão por cima dele enquanto falava “abracadabra, me dê um arpão e baleeiro”, mas saiu um segundo leão marinho, que acabou virando comida de baleia. Por falar em leão marinho, o primeiro era acariciado por Andréia e Ribas na parte de trás da livraria, pois eles acabavam de dar-se conta de sua presença.
Maurício ficou a disparar seguidas flechas enquanto Rodolfo, cheio de medo, o protegia com seu enorme escudo. Foram dez flechadas até que o animal caísse morto, esmagando Rudá, que havia tombado inconsciente sob ele.
Desesperadas, as pessoas tentavam tirar o animal de cima do herói, antes que sufocasse, mas o peso era proibitivo. Decidiram, então, fatiar a baleia alada e, ao fazerem isso, saiu Renato de dentro de sua barriga, com o rosto desfigurado e alguns dedos sem todas as falanges, já que havia sido parcialmente digerido no estímago da fera. Cortaram o animal o suficiente para tirar Rudá debaixo dele, mas não adiantava, ele já estava sufocado e morto. Vivian ainda tinha vida, mas seu estado era grave. Júlio fez os primeiros socorros, mas não negava a gravidade da situação, portanto chamou uma ambulância. Carmen passou a entrevistar os presentes sobre seus sentimentos diante de tão macabro episódio. Também interrogava os heróis sobre suas incríveis aptidões, que permitiram a sobrevivência de todos, salvo Rudá, uma lamentável baixa, mas há que se considerar que apenas uma baixa dentre tantos era uma vitória.
Enquanto as pessoas se recuperavam do choque e acendiam algumas velas para o morto surgiu Saulo. Este era, sem sombra de dúvida, o fato mais estranho. Saulo de volta ao Clube da Leitura era mais bizarro do que uma orca alada ou um leão marinho. Ao ver o cenário de guerra fantástica, Saulo começou a gritar histericamente. Vivian recuperou a consciência e falou: “alguém faz ele calar a boca”, e desmaiou novamente.
E assim, meu caros, termina esta fábula, não com um final feliz, já que temos um morto, uma gravemente ferida e um desfigurado. Entretanto, é inegável que se poderia cunhar final mais trágico a um terrível ataque de orca alada. A razão para o surgimento da besta fica a cargo da imaginação de cada qual. Minha missão foi cumprida: escrever o conto mais sem pé nem cabeça dos últimos dois anos, depois de “Paca Tatu Cotia Não”. Mas antes de despedir-me, preciso informar-lhes que o leão marinho sobrevivente hoje enfeita o açougue ao lado. Desculpem por esse dado, mas foi o André, que chegou bastante atrasado ao evento, que o levou para lá em troca de um trocado. Reclamem com ele!
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