Aos nove anos de idade, vivia ouvindo meu aví dizer para não olhar para trás. Sempre o ouvia dizer isso. Não entendia de fato o que queria dizer, mas essas palavra tornaram-se tão vívidas que passei a olhar somente para frente e nunca para trás. Assim o tempo corria.
Era estranho e ao mesmo tempo engraçado quando os meninos da minha idade me chamavam:
“João, João.”
E eu continuava a caminhar, olhando para a frente, mas como insistiam em chamar:
“João, João!”
Em gritar:
“João, Joãaoo!”
Em esgoelar:
“Joooãaoo! Joooãoo!”
Eu parava. Parava, mas não olhava para trás. Ficava apenas parado. Os meninos que gritavam, vinham correndo, paravam na minha frente e perguntavam em tons de reclamação:
“Tá surdo, João?”
E eu apenas sorria, agia de forma natural.
Com o tempo começaram a me chamar de surdo e apelidaram-me, em seguida, de surdinho. Era surdinho daqui, era surdinho de lá. O velho sarcasmo infantil. Todos sabemos que crianças podem ser cruéis e os adolescentes também, críticos uns aos outros, de forma sútil ou exacerbada. Enfim… Mas, nehuma vez olhei para trás e nunca havia dito o motivo a ninguém por quê razão não olhava.
E assim foi passando o tempo, sempre que chamavam pelas minhas costas, eu parava. E isso era sinal de que os meninos deveriam ir para minha frente. Eles já conheciam o mau costume.
Aos poucos, eles foram se acostumando e pensaram: Bom, se ele para é porque escuta e se não vira é porque deve ser maluco. E assim passaram a me chamar de “surdinho maluquinho”, agravando a agressividade verbal.
E toda vez que me encontravam eram as mesmas palavras. Um dia começaram a me irritar. Eles me gritaram e eu não parei, saí correndo, mas sem olhar para trás. Por um tempo, fiquei correndo de olhos fechados, até que caí e bati com a cabeça no chão. Permaneci deitado de bruços, ouvindo a gritaria ao redor, o desespero das falas, mas não olhava para trás.
Até que tudo se acalmou. Fez-se um silêncio pleno e uma voz peculiar me chamava, mas eu não queria olhar para trás. E a voz insistia:
“Pode olhar para trás, pode olhar para trás, João.”
E foi a calmaria dessas palavras que me fizeram pela primeira vez olhar para trás. E ao me virar, vi meu aví. O mesmo que vivia dizendo a si mesmo para não olhar para trás e que já havia morrido há algum tempo.
Disse-me para esquecer dessa frase, que quando as pronunciava, estava amargurado com a vida, num estado casmurro, pensando nos desfortuníos do passado e isso era o que queria dizer a frase “nunca olhe para trás” para ele. Disse também para eu viver a vida de modo que não esqueça certas coisas do passado e como numa luz e sem despedidas sumiu.
Até hoje não sei se morri por instantes ou se foi apenas um sonho enquanto estava desacordado. Só sei que acordei no hospital, e a partir desse dia comecei a olhar para trás, pra lembrança desse meu aví, pro passado. E isso faço até hoje, contando essa história aos meus filhos e a quem quiser ouví-la.
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