O doutor ali, ofuscando minha vista com sua intensidade e seu branco, perguntou, lacônico: “Diga alguma coisa para mim, Marcelo. Onde é a dor?”
Ah, se ele entendesse que não era tão simples falar assim onde era a dor. Mas os doutores, eles não entendem. Não entendem o que não querem entender. Não entendem o que se coloca fora do script. E no script não cabia a minha dor. Ela não era inteligível do jeito que os doutores acham inteligíveis certos sinais, alguns sintomas, muitas síndromes. Minha mãe me deu uma cutucada de lado, vendo que eu não movia músculo algum do meu todo, que já não era tudo.
“Explica pro doutorzinho onde é a dor, meu filho!” – e isso ela disse braba, era irritação que ela tentava conter, era irritação o que ela mal e mal disfarçava, e nisso de dissimular acabava salpicando cuspe em mim.
“Marcelo, onde é que dói?” – agora era de novo o doutor, enérgico.
E ele, o doutor, olhava para mim rente. Era rente aquele olhar. E eu, diante dessa arapuca perigosíssima que era seu olhar rente, que podia dizer? Não dizia nada. Eu não dizia nada do que queriam saber. E não era apenas ali, mas ali mais ainda, pois a dor não era assim tão facilmente dizível, a dor era um algo a mais em tudo mais, a dor era forte e era tanta e era espraiada mas também pontual, a dor formava um círculo e era seu centro, a dor era áspera mas tinha uma maciez toda particular, a dor era em todas as partes e em parte alguma que se pudesse apontar, a dor não era passível de ser isolada como um vírus. Era aquela espécie de dor que não é específica, que vem de fora e ultrapassa e abre um caminho, uma dor que vai e volta e que nunca deixa de ser, a minha dor nem minha era! A dor era de outra ordem, não se encaixava em vocabulários, ortografias, normas cultas, a dor era inculta. E o que eles não sabiam – nem minha mãe, nem o doutor – era que eu não conversava. Nunca. Eu apenas falava. Isso quando necessário. Não adiantava ficar ali me espetando com perguntas descabidas! E aquilo então era pior ainda: o doutor tentando extrair de mim assim uma resposta tão unívoca para algo tão múltiplo? O doutor querendo assim tirar de mim uma coisa que fechasse uma dor que era tão aberta? O doutor querendo dar limites a uma dor sem contornos e incontornável? Não, eu não lhe daria a resposta que queria. Sequer um olhar eu lhe daria… Odeio os que acham que as palavras explicam tudo. Cuidado com o entendimento rápido, doutor! Cuidado com a prescrição! Se eu dissesse alguma coisa, era isso o que eu diria a ele, mas a minha dor? Onde doía e como? Ele queria catar de mim a minha dor e ainda calá-la com um analgésico, mas essa facilidade eu não daria a ele!
“A senhora o trouxe aqui por quê?” – indagou o médico voltando-se para minha mãe, nitidamente fatigado. E fatigar-se por que, doutor, não foi o senhor que escolheu a profissão? Quanto a mim, não fui eu que escolhi estar aqui. E a minha mãe, naquele tonzinho de desespero dela, disse a ele que eu chiava, zanzava pra cima e pra baixo, gritava, mexia os braços, ela tinha certeza de que se tratava de alguma dor, ela dizia me conhecer bem apesar de eu não falar nunca.
Enquanto ouvia, o olho do doutor pulava dela para mim, de mim para ela. O doutor estava perdendo a paciência. Talvez estivesse perdendo até as estribeiras. Ele não deixava transparecer, mas eu conseguia ver um leve tremor em sua pálpebra e era batata: aquilo era o sinal de que as estribeiras estavam próximas de serem perdidas… E o silêncio era o que cercava aquilo tudo e que permitia que alguma coisa ali não estourasse. Quanto a mim, continuava calado. Ninguém saberia a minha dor. Esses códigos não servem para o que eu sinto. E nessa lengalenga que não se resolvia o doutor repetiu se eu sentia alguma dor, e falou pausadamente, do tipo “al-gu-ma-dor”, e falou alto, como se eu fosse surdo, mas o caso era outro, não sou surdo, não sou burro, o caso é que falar eu não falaria, não sobre aquilo e não ali, não com aquelas pessoas, não com a minha mãe por perto estapafúrdia, não àquela altura e naquele dia, e nisso levantei-me, dei as costas aos dois e saí do consultório. Minha mãe veio correndo atrás e o doutor ficou por lá mesmo, talvez aliviado. Ela me alcançou no corredor, onde eu esperava qualquer coisa, menos o elevador. Ela cansava de mim, do meu jeito taciturno quieto grosseiro esquisito e sem nada a dizer, ela cansava de ter que me levar para todos os cantos sendo eu já um adulto, ela cansava de eu não dizer exatamente aquilo que ela queria ouvir. E, de fato: doía, algo doía, e eu chiava e zanzava e urrava, mas não, eu não diria, jamais, em tempo algum, o que doía e onde, com aqueles códigos tão prontos e aquelas palavras tão redondas que reservaram a mim. A minha dor, se existia e se era isso, não era passível de diagnóstico.
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3 respostas
Muito lindo! Seus textos são muito gostosos de ler, e a cadência é única. Continue nos presenteando com sua escrita, sempre.
Interessante como a dor vira personagem do texto, senão protagonista. Tem vida própria, tentáculos q abraçam o cara, e ao mesmo tempo não se deixa conhecer. Muito bom!
Acho que este texto tem uma ambigüidade onde você não sabe se o paciente é uma criança que se acha adulto ou um adulto com sérios problemas psicológicos. A ambigüidade da dor tem um paralelo com a infância e a maturidade de não saber se a dor é um todo ou um ponto delimitado. A criança não limites nem com sua dor, mas o adulto cria fronteiras sensíveis no corpo.
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