Sentado na pedra, ouvia o som das folhas que caíam das árvores e as via misturando-se ao vento em movimento espiral, descendo lentamente até tocarem o chão, tornando assim o ar visível. De quando em vez, desviava o olhar e tentava penetrar com os olhos além da entrada da gruta, buscando encontrar algo que sabia não mais estar ali. Permanecia nessa dicotomia do olhar, do alvorecer até o lusco-fusco. Hora ou outra mastigava as raízes que colhera e bebia a água da nascente, recolhida na parte mais escondida do vale. Dessa forma manteve-se por dois dias, reencontrando e deixando suscitar as lembranças de sua vida que pensou que estivessem perdidas.
Lembrou-se de quando se perdeu, ainda menino, aos 9 anos de idade pela primeira vez pelo Vale. Era uma lembrança não muito agradável, aterrorizante até, pois trazia à superfície da pele arrepios de todo o medo que foi sentido e que ainda podia sentir sem o mínimo deleite.
Trouxe à memória o dia em que havia encontrado a gruta. Estava chovendo muito. Entrou e ficou ali, sozinho, temendo a presença de animais peçonhentos como cobras e escorpiões. Seus pais, moradores da Aldeia que ficava há três dias de distância já o davam por morto, cessando as buscas. E assim permaneceu por alguns anos de sua vida, fazendo da gruta a sua moradia.
Recordou-se que depois de uma fase de adaptação começou a gostar de estar na gruta. O que mais gostava de fazer era passar o tempo recolhendo o barro de terracota e esculpir, olhando o Vale, em plena solidão, acompanhado apenas pelos seus pensamentos, pela exteriorização de seu inconsciente através do manuseio nas esculturas.
Sua solidão foi rompida no dia em que chegava e adentrava pela gruta uma moça jovem com seus três filhos, perdida, pedindo por abrigo. Lembra-se que ela era linda, pele alva, lábios vermelhos, vermelhos como urucum, rosto marcado pela vida. Tentaram coexistir. Mas, o menino que agora já era um rapagão apaixonara-se pela jovem. E antes mesmo de querer pronunciar tal amor, resignava-se, escondia-se pela mata, e por muitas vezes, deixava de dormir na gruta. Num certo dia, saiu caminhando, apenas com a roupa do corpo, decidido abandonar a moradia de anos, perdendo-se novamente pelo Vale que batizara com o nome de Vale da Solidão. Talvez, por isso tenha ido embora. O vale deixara de ser solitário para ele.
A moça não compreendeu, mas continuou a vida morando na gruta. Continuou criando seus filhos até eles crescerem o suficiente para abandoná-la sem despedidas numa noite sem chuva.
Abandonada e solitária ela via a vida correr pelo Vale. O aspecto jovial que tinha foi subjugado pelo poder do tempo. A beleza sua ia dando lugar a outra. Ia surgindo cada vez mais a beleza de uma velhice de face enrugada.
Nos seus últimos dias de vida, sempre antes de a chuva cair, via um senhor à beira da gruta, sentado na pedra, mas não lhe dava atenção. Não sabia quem era, não queria saber, nem sabia se era, de fato, real. E o senhor apenas a observava, sem a menor intenção de diálogo. Observava-a em silêncio, sem gestos.
Esse era o tempo em que mais sonhava. Sonhava com os filhos retornando, com a vida além da gruta, além do vale, além dos próprios sonhos.
Morreu num dia chuvoso, dentro da gruta.
Esse era o dia em que o senhor havia tomado coragem para dizer quem era, dizer por que havia voltado, mas não houve tempo. Ao entrar, viu-a deitada num canto, da cor da terracota, como se fizesse parte da gruta e passando a mão pelo seu rosto, como num ato de apagar a morte pelas sobrancelhas, foi a única vez que a olhou nos olhos.
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