Em todas as seleções para secretária que fez nas muitas agências em que foi gerente geral, Seu Nunes, de forma pouco consciente, esteve procurando por outra Dona Luzia. A auto-imagem indulgente que fazia de si mesmo não permitiria admitir, mas procurava uma cúmplice – discreta e inventiva – para sua vida comedidamente adúltera – sem amantes regulares a lhe tirar somas que fizessem falta em casa. Da primeira vez que Dona Luzia atendeu a esposa do chefe no telefone, perguntando pelo número da agência do interior para onde ele havia viajado, disse que iria averiguar, desligou, foi até o gabinete e deixou um bilhete sobre a mesa de Seu Nunes pedindo que retornasse a ligação, evitando indicar sequer com um olhar a flagrante mentira e dando a ele a chance de ir até um orelhão avisar que passaria aqueles dois dias pela rua, resolvendo um problema jurídico de um grande correntista de sua carteira.
Terezinha tinha uma perspicácia incomum para uma mulher de boa família, educada em semi-internatos durante os anos 30. Não lhe escapou a peculiar abordagem de Seu Nunes na estação de bondes do Largo da Carioca, sem que um amigo em comum tivesse feito as apresentações preliminares que costumavam anteceder um flerte aceitável – uma ousadia quase cafajeste. Tampouco passou desapercebido o estratagema que o jovem usou, tirando proveito de uma amizade para descobrir seu endereço. Foi de propósito que Terezinha deixou cair a nota do bolo que carregava para casa, ainda que, justiça seja feita a seu recato, ela tenha imaginado apenas que ele passaria pela Colombo depois de seu expediente, onde fazia o lanche da tarde, antes de pegar o bonde após o curso magistério. Desde menina, Terezinha idealizava outro príncipe encantado e esperava, ao aceitar um pretendente menos cerimonioso, ser retribuída com a liberdade de trabalhar fora e falar de política sem ter suas opiniões menosprezadas – expectativas cumpridas por Seu Nunes.
Dr. Andrade aplicou as primeiras vacinas que Terezinha tomara, e foi o único a não considerar sua magreza, que hoje renderia elogios de qualquer olheiro de agência de modelos, um sinal de má constituição física, como era opinião corrente naquela época ignorante dos males do colesterol. Praticamente da casa, Dr. Andrade festejou com a família um noivo tão garboso e espirituoso para uma mulher que, dotada de uma esperteza por vezes irônica, em geral espantava os homens. Foi ele quem identificou, à época da primeira gestação de Terezinha, a deficiência crônica de uma vitamina em seu organismo que exigiria, para toda a vida, algum cuidado extra que incluía um comprimido diário, comprável em qualquer farmácia por um preço deveras módico.
Seu Nunes amou sua esposa com todo e zelo e dedicação que se esperava de um homem sério e digno. Nunca deixou faltar nada e lhe encheu de mimos, sempre com algum protesto dissimulado para não estraga-la, como convém a um marido que, além de prover, educa, no que pode, o costumeiramente esbanjador espírito feminino. No sexo, fez com ela tudo o que se pode fazer a uma mulher de respeito. Não discutiu abertamente suas opções profissionais com a mulher, para não correr o risco de ser tomado por capacho, mas fez anotações minuciosas e claras das propostas que recebeu na carreira, tomando o cuidado de propositalmente esquecer os papéis nos cantos da casa que eram dela. E só aceitou as propostas pelas quais Terezinha demonstrou entusiasmo.
Terezinha descobriu, por acidente, ao passar um paletó do marido, um bilhete escandaloso escrito num guardanapo do Country Club de Niterói, e deduzindo que era aquela a “agência do interior” para onde Seu Nunes costumava viajar tratou de pedir a uma colega do trabalho, moradora do outro lado da baía, que fosse ao baile. Noiva virgem de um tempo em que os homens eram levados pelos pais à Casa Rosa tão logo tivessem buço, Terezinha podia aceitar no marido uma falha que julgava ser imposta ao seu gênero pela natureza, desde que o melhor dele continuasse exclusivamente seu. O relatório de Célia informava que Seu Nunes dançava para ter sua presa ao alcance de gracejos, sem ir além dos passos mais elementares e nunca de rosto colado – e apenas os boleros e sambas, aproveitando os tangos para ir ao bar beber seus drinks. Teresinha ficou feliz: quando dançavam, ela e o marido nunca falavam, rodopiando evoluções tão erráticas quanto criativas, aproveitando o cheek-to-cheek para carícias fugidias que lhe incendiavam a alma, especialmente nos tangos, quando causavam verdadeiro frisson no salão.
Dona Luzia aprendeu a administrar as amantes de Seu Nunes sem conversar com o chefe sobre o assunto. Sugeriu que ele fizesse esboços na agenda de trabalho, de modo que ele criava indicava faixas de horário, sem nada escrever, mas que Dona Luzia entendia serem compromissos de ordem confidencial, por assim dizer. Seu Nunes nem precisava, muitas vezes, inventar as desculpas, pois Terezinha já era informada pela secretária dessa e daquela inspeção ou de reuniões tardias com superiores. Dona Luzia era tão diligente que extraía da esposa até lista de compras das quais o marido devia se incumbir e ia ela mesma às vendas quando sabia que Seu Nunes estava com a agenda “tumultuada”. Foi por acaso que Dona Luzia percebeu o crime do qual estava para se tornar cúmplice. A secretária, por um motivo qualquer, ficou de, na sua hora de almoço, pegar uma das crianças na escola, e aproveitou para repor o estoque de remédio de Terezinha. Foi quando viu vários vidros ainda cheios. No fim da tarde Dona Luzia deixou um envelope sobre a mesa do chefe com seu pedido de demissão. Não sem antes telefonar para Terezinha e perguntar: “Desculpe, me perdoe a intromissão, mas a senhora anda tomando seus comprimidos?”
“Ah, Dona Luzia, meu marido sempre me lembra quando jantamos juntos, então nem preciso pensar nisso.” Terezinha sabia da sorte que tinha em ter um marido bem sucedido e discreto. Um pai interessado nos filhos ainda que severo e circunspecto, mas que a fazia rir nos cinemas, nos dançares dançantes e na cama – sim, Teresinha, mulher que ia à missa de véu, não se surpreendeu quando leu sobre o tal orgasmo, ela o conhecia. Mais, Seu Nunes sabia que das suas preferências no que se referia a tecidos e quitutes e não arredava pé da beira da cama quando ela convalescia. Decidiu então que, apesar de tudo, o amava e era amada o suficiente para se entregar aos cuidados do marido. Decidiu que, tendo já preocupações demais no trato com a casa e os empregados, deixaria para tomar os remédios quando ele a lembrasse.
Dr. Andrade percebeu, durante o aniversário do menino caçula, que Terezinha estava estranhamente pálida e magra. Temeu que ela estivesse se descuidando do remédio que deveria tomar diariamente, na hora do jantar. Tentou avisa-la, mas com a idade avançada já não tinha paciência para transpor o sarcasmo de Teresinha quando queria desconversar um assunto qualquer. Decidiu apelar a Seu Nunes – afinal, ela sempre obedecia ao marido. Porém não conseguia encontra-lo em casa durante a noite e era educado demais para telefonar para alguém depois das 20h. Demorou a conseguir que Terezinha fizesse os exames, e lamentou enormemente quando descobriu que o quadro clínico não era nada bom.
Seu Nunes viu o envelope pardo com o timbre da clínica, mas uma associação de idéias lhe conduziu ao boletim das crianças, que sua esposa comentara terem acabado de chegar. Os caderninhos tinham pequenas manchas amareladas pelo suor dos dedos do pai que, ao abri-los, suava mais profundamente do que quando recebeu o aviso de dispensa que lhe livrou da FEB. Com quatro filhos em idade escolar, Seu Nunes já passara até ali por 76 bimestres escolares, mas ainda sentia pavor – apesar do histórico escolar brilhante dos garotos – de encontrar uma nota vermelha. Temia perder uma das 4 oportunidades anuais de afagar os cabelos de seus meninos, que pela falta do hábito nunca deixariam de receber aqueles raros arroubos de contato físico com a mesmo sorriso assustado de quem, ao dar esmola, sente as mãos sujas do mendigo roçarem nas suas por acidente.
Já viúvo, Seu Nunes acreditou poder compensar o que não deu à esposa através dos filhos, como se aquela dívida pudesse ser paga com uma espécie de depósito em juízo, seguindo um expediente até que bem coerente com seu ofício de bancário. Apenas décadas depois, assistindo ao fracasso de cada um deles em ser menos falho que ele próprio, recebendo telefonemas cada vez mais raros de cidades cada vez mais distantes, Seu Nunes descobriria o remorso por não ter com Terezinha se provido de amor suficiente para alimenta-lo na frustração e solidão crescente que a velhice lhe traria. Já avô, uma outra esposa depois, cargos de maior prestígio depois, uma acidental carreira de colunista depois, Seu Nunes começou a gravar fitas K7 com os tangos que havia dançado com Terezinha para os filhos, na esperança de inflamá-los com uma paixão da qual ele mesmo só fora capaz tarde demais. Mas a lembrança do sorriso relâmpago dela, que lhe fechava os olhos num lampejo como uma menina travessa e pudica ao mesmo tempo, e que ainda reavivava por um instante a libido e a fé de Seu Nunes na vida, permaneceria escondida entre os pecados que ele levaria ao túmulo inconfessos.
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1 resposta
Belíssimo o novo site! Parabéns ao Salvador!
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