Ela estava hospedada num quarto de hotel cuja janela, enfeitada com samambaias, mirava diretamente as do meu apartamento. É mais bonita do que parece na televisão, pensei. Ela arrumava seu laptop sobre uma rústica mesa de madeira e o evidente contraste de épocas me fez permanecer olhando sua vida acontecendo diante das minhas janelas, como um reality show privado.
Ela deitou, telefonou para alguém, arrumou suas roupas, sua mesa, ficou meia hora no banheiro, saiu, uma toalha enrolada na cabeça, fez anotações, penteou os cabelos, ligou o laptop, recebeu um telefonema, pintou as unhas dos pés e das mãos, deitou na cama de novo.
Naquele dia, adormeci, vendo-a adormecer.
Um bom voyeur é furtivo, discreto, nunca intenso. Se for notado, disfarça, reage com indiferença, como se o encontro dos olhares fosse mera casualidade, uma coincidência momentânea, um instante fugaz, perdoável e esquecível. E assim, pode continuar observando.
Posicionei uma poltrona e uma mesa perto da janela e, sempre que ela estava no quarto, eu ali ficava, fingindo ter uma ocupação no meu observatório particular.
No dia seguinte, procurei notícias sobre sua passagem pelo Rio, e descobri que estaria lançando seu novo livro em Ipanema na terça.
De fato, confirmei o que a distância entre nossas janelas já me havia mostrado. Ela é mais bonita pessoalmente. Cheguei ouvindo sua voz firme reproduzindo trechos de seu romance. Sentei-me na última fileira, com seus livros na mochila, certo de que não me aproximaria dela. Terminada a leitura, formaram-se pequenos grupos ao seu redor. Alguns conversavam sobre o livro, outros criticavam a capa, outros liam as orelhas ainda descobrindo o assunto das 242 páginas escritas por ela.
Eu permanecia entre as estantes, mantendo a distância precisa de observação.
Vi uma moça que parecia ser sua editora, andando de um lado para o outro, vi garçons servindo vinho, guaraná e água mineral, vi seu namorado atrasado, meio bobo, justificando-se, vi um beijo de perdão. Vi seus olhos molhados, seu sorriso trêmulo. Vi sua letra rabiscada em alguns livros. Vi quando todos se foram, inclusive ela. Vi meu ônibus passando e eu voltando pra casa, a pé, com seus dois livros na mochila, intactos, como haviam sido comprados.
Naquela noite, dormi olhando sua janela escura.
Pela manhã, acordei enquanto ela ria, ria muito. Mexia em alguns papéis e continuava rindo, como se ouvisse uma grande piada. Sem discrição, tentei ver se o namorado meio bobo estava com ela. Não o vi. Só vi sua risada aproximando-se e vencendo a distância entre nós dois. No início achei engraçado. Ri um pouco. Aos poucos, porém, fiquei angustiado. Senti-me traído por desconhecer a origem do seu riso, por saber que ela iria embora e eu continuaria ali, sem saber nada mais sobre sua vida. Senti-me traído, acima de tudo, por ter passado dias e noites a observando, enquanto seu riso me afastava do momento mais intenso que presenciei.
Num ímpeto, desci, fui até a recepção do seu hotel, coloquei seus livros num envelope com o seguinte bilhete:
“Preciso saber o que te faz rir.”
E passei o dia fora de casa, tentando esquecer o que havia feito.
Voltei tarde e antes de subir, passei no hotel para reaver meus livros. O recepcionista disse que ela já havia ido embora, e nada deixara na recepção. Estranhei e discuti com ele alguns minutos, mas nenhuma outra resposta consegui senão “sinto muito, senhor”.
Subi para meu apartamento, arrependido da idéia estúpida que tive pela manhã. Deparei-me com o envelope de cor parda apoiado contra minha porta de entrada.
Apressado abri a porta e corri até a janela. No quarto que era dela, um homem, que parecia argentino, desfazia suas malas.
Rasguei o envelope e, nas primeiras páginas dos seus livros, sua letra rabiscava garranchos em tinta preta. Presas na contracapa, três folhas impressas de uma história que começava assim: “Fiquei hospedada num quarto de hotel cuja janela mirava diretamente as janelas do apartamento dele”.
A cada palavra do seu conto, eu ouvia sua voz firme, respondendo à minha pergunta. Ao final, meu sorriso explodiu numa risada intensa, e percebi o argentino olhando em minha direção. Ele segurava algumas folhas de papel e ria, comigo ou de mim. Pensei se lia a mesma história. A história dos meus dias com ela. A história dos meus dias sem ela.
E nessa noite de julho de 2007, uma imensa gargalhada se pôde ouvir em Copacabana, formada de nossas intensas e solitárias risadas. As minhas, as do argentino e as dela, onde quer que esteja, com suas malas, seu laptop e as histórias que vê de seus quartos de hotel.
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1 resposta
Eu adoro quando a Dani, em seus contos, especifica exatamente o número de dias, semanas ou páginas de um romance que aqui é parte da história (neste caso, 242 páginas do livro escrito pela moça do quarto de hotel). Adoro a minúcia do número que é exato e não é redondo!
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