“Viver é um descuido prosseguido”. Eu havia lido naquele livro do sertanejo Riobaldo, e concordei de imediato. Já bem cedo – aos 14 – resolvi me cuidar mais, ser mais prudente e dar cabo da vida. Era insuportável a travessia interminável da adolescência, no que tem de infinitamente tedioso e incrivelmente assustador. Se viver é um descuido prosseguido, o melhor é interromper o prosseguimento de uma tal imprudência! E aí aos 14 roubei a caixa de lexotans do meu pai. Era domingo à noite, fui à cozinha onde tomei os remédios furtivamente e fui para o quarto dormir. Mas não sei o que me deu que dei de largar um comprimidinho na pia, perto do filtro. Como fiz isso, não me pergunte. Tá certo que eu havia bebido à tarde no bar com a Júlia, mas daí a dar essa bandeira toda? Lá pelas 2 da manhã, minha mãe entra no quarto e eu lembro vagamente de tudo muito lento acontecendo. Só fui entender na segunda-feira à noite, quando acordei depois da lavagem gástrica que fizeram no hospital e, quando apareci na sala, minha mãe me olhava em tom grave e me seguiu até a cozinha, dizendo que não esperava isso de mim, e aí começa a chorar, e dá-lhe a falar do passado, e dá-lhe a contar lembranças, francamente! Que idiota eu havia sido de beber no dia do meu suicídio! Esse tipo de coisa a gente tem que fazer de cara limpa. Se programar. Estar atento. Calcular tudo, tal qual um assassino em sua caminhada em direção ao crime perfeito. Tem que haver frieza, senão as pistas vão ficando pelo caminho. Tanto que havia sido minha mãe quem encontrara o comprimido que reconheceu muitíssimo bem, a pista do crime imperfeito deixada pra trás. Morri de vergonha, não do ato, do qual não me arrependi, meio ressentida por não ter obtido sucesso, mas de ter sido flagrada no insucesso. Depois disso passei a tomar anti-depressivos e a minha segunda vez foi surgindo justamente daí.
Aos 15 anos não suportei estar ainda mais gorda e isolada, e comecei uma dieta feroz, exercícios ferozes, vômitos ferozes e em pouco tempo meus pais começaram a dizer ferozmente que eu era bulímica e aumentaram os remédios. Realmente estava insuportável viver com fome, tudo parecia perdido e eu repetia maquinalmente a frase do sertanejo: Viver é muito perigoso. Ah, Riobaldo, quanta sabedoria em pleno sertão! Foi com os anti-depressivos que eu tentei a segunda vez, mas novamente deixei cair um comprimido, que logo foi descoberto e assim sobrevivi uma vez mais, embora oprimida por olhares que me condenavam.
Mas as coisas melhoraram por um tempo, eu passei a vomitar menos, a emagrecer mais naturalmente, eu passei no vestibular para Letras, até vir uma nova fase negra, em que comecei a me sentir consciente do mundo e de tudo o que pesa no planeta, comecei a me dar conta de quantas almas sofriam horrores para que eu pudesse dar uma gargalhada, entrei numa fase macabra, talvez fossem os poemas de Augusto dos Anjos, eu não sabia bem o que se passava comigo e já sabendo que os comprimidos sempre escapuliam da minha mão, resolvi tentar um outro método: me atirar de algum lugar. Então a terceira vez foi na faculdade mesmo, um prédio enorme. Lá pelo horário de cinco da tarde fui para o oitavo andar, que era vazio, me sentei no parapeito e me joguei. Mas as coisas não davam certo comigo, pois estranhamente eu consegui cair em cima do capô de um carro e quebrar apenas os dois braços e me arranhar toda. Sei é que minha mãe passou a me levar de carro às consultas do psicólogo, que disse que no fundo eu não queria me matar. “Mas seu doutor, eu não vi o carro lá embaixo!” E ele retorquia irônico: “Sim, e também não viu que deixou cair os comprimidos…”. Como explicar praquela gente toda que viver cansa justamente porque é um evitar constante de armadilhas e perigos que espreitam por toda parte? Viver cansa e eu cansei desde que nasci. Respirar é um puta esforço, situar-se no mundo é um esforço que quase despedaça meus pulmões. E ainda querem que me aprume?
Pois a quarta vez foi 4 anos depois, quando me formei e tive que me deparar com a maior dificuldade jamais vista: inserir-me no mercado de trabalho como bacharel em Letras. Fazer o quê com o diploma, a erudição, a poesia? Viver é um descuido prosseguido e me descuidei o bastante para chegar até ali. Foi assim que resolvi me atirar na frente do metrô, não haveria escapatória. Escolhi um domingo chuvoso, preparei-me e me atirei, no Estácio.
E agora estou aqui. Nessa outra instância difícil de explicar para quem nunca morreu. Fui bem-sucedida após três tentativas infrutíferas e ridículas, mas, de onde falo, já não sei bem se morrer, tanto quanto viver, nada mais é, também, que um descuido prosseguido.
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4 respostas
Vivian, MUITO BOM!! Agora que estou no sertão vejo muitos descuidos prosseguidos, bem mais na cidade onde tudo passa sempre rápido demais
OI Vivian
Mais uma vez tiro o chapéu prá você! “O descuido que é viver” tá maravilhoso! Se não sabemos se morrer ou viver são ambos “descuidos prosseguidos”, que tal tentarmos viver sendo mais felizes e otimistas? Aonde isto leva? Também não sei…
Beijos
vc é fantástica!
meu deus! como conviver com alguém tão brilhante sem sofrer?
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