Inspirado num trecho do romance “O despenhadeiro”, de Fernando Vallejo.
Lido em 17 de junho de 2008.
O amor de Brígido morava embaixo da sua cama, numa caixa retangular de madeira, herança do aví: uma jibóia longa e pesada, muito dócil e tranqí¼ila. Atendia pelo nome de Biss. O aví sempre criara cobras, e como os pais de Brígido moravam de favor na casa dele eram obrigados a conviver com esse estranho hábito.
Mas quando o velho morreu foram todas despachadas incontinenti. Só Biss conseguiu escapar, graças í s artimanhas de Brígido e posteriormente, quando foi descoberta, í s suplicas e promessas dele de que ela jamais sairia do seu quarto, e que ele se responsabilizaria pela alimentação dela ( um pequeno rato, de 2 em 2 dias, que ele pegava com pequenas ratoeiras espalhadas pela vizinhança).
Biss e Brígido se adoravam, e quando ele ficava tocando suas baladas no velho gianinni ela se enroscava no seu pescoço e dormia sobre seus braços, dengosa. Às vezes ele esquecia das promessas e saia do quarto com seu cabelo black power, óculos escuros e totalmente nu, trazendo Biss enrolada no seu tronco.
Imprestável. Inepto. Preguiçoso. Vagabundo. Assim então ele era saudado por sua amorosa mãe. Uma excelente forma de começar o dia.
Fazer o quê, se nunca tinha conseguido se entender na escola? Se tudo o que conseguia eram biscates como auxiliar de pedreiro? Mas ia começar a subir um grande edifício num bairro próximo, e Brígido foi contratado para trabalhar com a equipe da laje. O pior trabalho, claro. Destruidor de colunas. Mas, ciente da precariedade do seu estado dentro de casa, topou.
No boteco em frente, do PF de todo dia, conheceu Margaret, balconista sorridente que também se encantou com o estilo do rapaz. Em poucos dias estavam dormindo juntos no quartinho dos fundos, onde ela morava. Depois de um dia inteiro virando cimento, exausto, tudo o que ele queria era se enfiar naquela cama, naquela mulher, naquela delícia, e depois dormir.
Apesar do solão e do trabalho pesado, que felicidade. A peãozada engraçada, a comida gostosa do boteco e as risadas da namorada, de longe a melhor platéia que ele já tivera para suas palhaçadas.
Um dia acordou e sentiu falta de alguma coisa. Olhou pra debaixo da cama e deu um pulo, assustado. Fez as contas e percebeu que há mais de dez dias não ia em casa, que tinha abandonado totalmente sua Biss, a deixado sem comida, sem água, sem carinho.
Correu para casa e encontrou os pais furiosos.Biss havia fugido da caixa e rastejava pelo quarto, muito nervosa. Para alimentá-la o pai precisava calçar galochas, casaco e empunhar um guarda-chuva, além de estar gastando uma fortuna comprando bifes no açougue.
Sob os gritos de “some e leva esta merda com você”, juntou algumas roupas numa bolsa velha, colocou Biss na caixa , pegou o violão e disse adeus à casa paterna. Quando chegou no trabalho já passava das onze, e ao saberem que ele pretendia morar no alojamento com uma cobra foi sumariamente demitido e escorraçado.
Sua última esperança era a doce Margá. Entrou no quartinho e ficou esperando ela terminar de servir o almoço. Quando ela chegou, cansada, ele a beijou e começou a massagear seus pés , enquanto contava tudo o que tinha acontecido. Quando ela se deu conta de que embaixo de sua cama havia uma cobra, deu um salto e começou a gritar. Biss, assustada, saiu da caixa e armou o bote, o que levou a moça a desmaiar e ao conseqí¼ente fim do namoro de Brígido.
Sem ter para onde ir, ele foi para o único lugar que lhe ocorreu: debaixo do viaduto, local que servia de abrigo para os malucos mais malucos, para os mendigos mais mendigos, local popularmente conhecido como “circo dos horrores”. Se instalou, colocou bis sobre os ombros e começou a tocar suas baladas. Biss, mais do que nunca, parecia entender o sacrifício que o amigo fazia por ela, e se esmerava em contorcionismos elaborados,herança talvez de algum parente indiano.
Mas a vida é cheia de altos e baixos, e um dia uma equipe de filmagem apareceu por lá, fazendo um documentário. Quando o diretor alemão se deparou com a cena, seus olhinhos brilharam por trás dos óculos escuros. Ele percebeu imediatamente a originalidade, o carisma e a qualidade das canções de Brígido, e rapidamente o levou para uma turnê pela Europa.
Hoje, pais já perdoados colecionam recortes e matérias sobre o filho famoso.
Alojamentos de obras do país inteiro são revestidos de písters do popstar que tinha sido ajudante de pedreiro.
Margarete, grávida do segundo filho e ainda morando no quartinho enxuga uma furtiva lágrima cada vez que o vê na TV, e se arrepende amargamente de tê-lo expulso de sua vida.
Mulheres do mundo inteiro sonham em se casar com ele, e estranhamente não parecem se importar nem um pouco com Biss.
Brígido sai com todas e não fica com nenhuma, pois sabe que o amor da sua vida já está ali, ao alcance da sua mão, dentro da velha caixa de madeira.
Para o que der e vier. Nos altos e nos baixos da vida. Maktub!
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